Aline
Gattoni
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Vale do Amanhecer
une seita e religião em um único ritual
Elementos do espiritismo, da umbanda e do Santo
Daime estão presentes na celebração
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Cruz chama a atenção na área externa do
templo |
Por Aline Gattoni
Espanto é o sentimento que o interior da Casa do Pai Seta Branca desperta
em seus visitantes de primeira viagem. O local, situado na cidade de Alto
Paraíso (GO) - porta de entrada para a mística Chapada dos Veadeiros -,
parece comum em um primeiro momento. Mas, logo que se adentra no terreno,
é possível ver uma grande cruz envolta em um tecido branco e, aos seus
pés, a inscrição "Salve Deus".
A construção é um dos templos que representam a doutrina espiritualista
cristã Vale do Amanhecer, fundada em 1959 pela clarividente Tia Neiva.
Atualmente, a organização está presente em diversos pontos do Brasil e
do mundo. Embora o templo de Planaltina (DF) seja a sede ("templo-mãe"),
a unidade de Alto Paraíso encaixa-se perfeitamente à atmosfera de transcendência
e espiritualidade que cerca a Chapada dos Veadeiros.
Diversidade
O ritual praticado na casa reúne diversos tipos de freqüentadores: estudantes
curiosos, trabalhadores rurais da região e hippies em geral, a
maioria vestindo "fardas", a exemplo dos seguidores do Santo Daime. Também
é variada a inspiração que gerou o Vale do Amanhecer - em um mesmo rito,
é possível encontrar práticas adotadas por espíritas, umbandistas e esotéricos.
Logo no início dos trabalhos, um jovem casal do interior de São
Paulo explica quem foi o Pai Seta Branca - um cacique tupinambá que viveu
na época da conquista espanhola. Segundo eles, na encarnação em que incorporou
o espírito desse cacique (para a doutrina, Seta Branca teve diversas vidas
de igual valor), teria evitado uma batalha apenas ao pronunciar palavras
que os espanhóis não conseguiam compreender, erguendo sua lança branca
aos céus.
Ainda conforme a crença, Seta Branca é seguido por uma falange de seres
iluminados, chamada pelos médiuns de "espiritualidade maior". Talvez sejam
esses espíritos que os adeptos incorporam na primeira parte do ritual.
Em bancos semelhantes aos de igrejas católicas, diversos médiuns se reúnem,
falando ao mesmo tempo e em alto volume. Eles chamam os participantes,
um a um, e dão conselhos, proferem palavras de apoio e respondem a questões
que lhes são dirigidas.
Na segunda parte, os presentes são encaminhados a uma sala contígua e
convidados a deitar em macas. Após serem cobertos por um lençol branco,
recebem as "bênçãos" de divindades incorporadas, como Bezerra de Menezes
- curiosamente, um dos patriarcas do espiritismo no Brasil. E assim, o
grupo está apto para participar da defumação.
Almécega
Os freqüentadores são levados a uma mesa branca, ainda dentro do salão
principal, enquanto um rapaz de óculos redondos de grau e longos cabelos
cacheados defuma o local com almécega - substância aromática extraída
de uma árvore da região goiana.
Na cabeceira da mesa branca, uma mulher toma a palavra e se diz "enviada
do Planeta Monstro" - o que, na simbologia do Vale do Amanhecer, significa
o astro que deu origem à Terra. Algumas orações são pronunciadas, ao passo
que os médiuns se concentram em uma terceira sala, preparando-se para
o momento final da celebração.
Sentados, cada um segura as duas mãos do participante e inicia um "rosário"
de saudações a diversas entidades - evocando-as, o médium pode transmitir
as energias ao "necessitado" em questão. Iniciando com o tradicional "salve
Deus!", os médiuns citam, por exemplo, Janaína (a rainha do mar na simbologia
do candomblé e da umbanda), os "pretos velhos" e os seres espirituais
das florestas e das matas locais.
Assim é encerrado o trabalho. Os participantes se retiram em seus carros
ou se embrenham na escuridão que envolve a Casa do Pai Seta Branca, entoando
os hinos que ouviram durante a noite, entrando em comunhão com as entidades
da Chapada dos Veadeiros ou simplesmente saudando a Deus, como de costume.
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