Medalha de prata no revezamento 4x100m dos Jogos Olímpicos de Sidney-2000, os brasileiros André Domingos, Claudinei Quirino, Édson Luciano e Vicente Lenílson sonham herdar o ouro dos Estados Unidos desde que Tim Montgomery, membro da equipe norte-americana, confessou o uso de substâncias proibidas antes da competição.
O Comitê Olímpico Brasileiro (COB) nomeou um advogado para acompanhar o caso em dezembro de 2008. No começo deste ano, no entanto, o quarteto brasileiro resolveu agir por conta própria e contratou Sidnei Dórea para pleitear o "ouro tardio". Caso a equipe nacional tenha sucesso em sua reivindicação, André Domingos revela que a ideia é receber as medalhas douradas nos Jogos Olímpicos de 2016 de maneira simbólica.
"Nós tivemos a frustração de não poder ouvir o hino nacional do Brasil em cima do pódio de Sidney. Tudo aquilo que a Maurren Maggi viveu em Pequim (ao ganhar o ouro no salto em distância), nós perdemos. Se essa medalha chegar, é um direito nosso pedir para o Comitê Olímpico Brasileiro fazer a entrega dentro do nosso país e ao som do hino nacional. É o mínimo que poderiam fazer por nós", disse.
André Domingos, Claudinei Quirino, Édson Luciano e Vicente Lenílson se reuniram com Sidnei Dórea pouco antes do Carnaval, em Presidente Prudente. Aconselhado pelo advogado, o grupo decidiu questionar o Comitê Olímpico Internacional (COI) de maneira formal para apurar qual é a real situação do caso.
"Queremos marcar posição e demonstrar que temos interesse no assunto, que o Brasil não abandonou o caso e que esperamos uma conclusão em um prazo razoável. O objetivo é formular uma consulta para provocar uma decisão do COI", explica Dórea.
O advogado aguarda por informações de um contato na Suíça, sede do COI, para elaborar o documento. Enquanto espera, o quarteto premiado com a medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Sidney-2000 mantém contato e conversa frequentemente sobre o assunto.
"Quando fica comprovado que um atleta realmente competiu dopado, tem que punir a equipe toda, porque no revezamento ninguém corre sozinho. Ganhar a prata é bacana, mas o ouro mudaria a nossa história, principalmente no aspecto financeiro. Conseguiríamos a nossa independência financeira", lamenta Domingos.
COB ESPERA POSIÇÃO DO COI E DA IAAF
A GE.Net entrou em contato com a assessoria de imprensa do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) para saber a posição da entidade sobre o assunto. Por e-mail, a reportagem foi informada que o caso ainda está em estudo e que a instituição presidida por Carlos Arthur Nuzman aguarda o momento certo para se pronunciar.
"O caso do revezamento 4x100m rasos dos Jogos Olímpicos de Sydney-2000 está sendo avaliado pela Federação Internacional de Atletismo e pelo Comitê Olímpico Internacional, que ainda não se manifestaram. O Comitê Olímpico Brasileiro está acompanhando o caso e aguarda o posicionamento destas entidades para fazer qualquer tipo de comentário", disse a assessoria de imprensa.
Contratado por André Domingos, Claudinei Quirino, Édson Luciano e Vicente Lenílson para cuidar do assunto, o advogado Sidnei Dórea prepara uma consulta formal ao Comitê Olímpico Internacional (COI) para apurar a real situação do caso. Descobrir se o COB de fato tomou alguma providência é um dos objetivos da medida
A demora leva os brasileiros a suspeitarem. "Temos um pouco de receio de que atletas de outras modalidades tenham disputado os Jogos de Atenas com substâncias ilícitas fornecidas pelo Laboratório Balco e que o COI não queira manchar as Olimpíadas. Só no atletismo, já são 10 casos", diz Sidnei Dórea. Segundo ele, o fato de Tim Montgomery estar na cadeia por tráfico de heroína e fraude bancária também atrasa o processo.
Após o Mundial Indoor de Doha, encerrado no último domingo, a Federação Internacional de Atletismo (IAAF) realizou um encontro para discutir diversos assuntos. Uma das decisões da entidade foi desclassificar a equipe norte-americana que ganhou o ouro no revezamento 4x400m dos Jogos Olímpicos de Atenas-2004 em função do doping da atleta Crystal Cox. No site oficial da IAAF, já é possível ver a Rússia no primeiro posto, a Jamaica no segundo lugar e a Grã-Bretanha, no terceiro.
Tanto Tim Montgomery quanto Crystal Cox não participaram das finais, mas sim das fases preliminares. Apesar da semelhança entre os dois casos, a decisão do COI de punir o revezamento feminino não deve beneficiar os brasileiros, já que a norma que permite a desclassificação de equipes de atletas que correram dopados apenas as etapas classificatórias não existia em 2000, explica Sidnei Dórea.
Teoricamente, para o Brasil herdar a medalha de ouro no revezamento 4x100m de Sidney-2000 um dos competidores norte-americanos que disputaram a decisão (Maurice Greene, Brian Lewis, Bernard Williams e Jon Drummond) precisaria estar dopado.
A possibilidade é considerável, já que em 2003 uma série de atletas usou esteróides produzidos pelo Laboratório Balco em um dos maiores casos de doping da história do esporte. Norte-americanos como Marion Jones e Justin Gatlin se envolveram no caso, além dos próprios Tim Montgomery e Crystal Cox.
"Esperamos que a decisão do COI respingue em outros atletas que disputaram o revezamento 4x100m e ainda não admitiram o uso de doping. Está evidente que praticamente todo o time americano fez uso de substâncias ilícitas, patrocinadas por técnicos e pelo Laboratório Balco", disse Dórea.