O brasileiro criou a cultura de terminar o ensino médio e buscar uma vaga na faculdade. A grande demanda pelo ensino superior tradicional criou o que os especialistas chamam de "apagão da mão-de-obra" em setores do comércio e da indústria que exigem, na sua maioria, profissionais formados em cursos técnicos.
Existe um déficit de 123,3 mil vagas formais para profissionais qualificados e com experiência nos setores da indústria e do comércio, segundo dados de uma pesquisa realizada pelo Ipea – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - sobre a situação dos trabalhadores formais no Brasil. O estudo é de 2007.
É aí que entra o poder do técnico. A Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica (Setec), órgão subordinado ao Ministério da Educação (MEC), o define como um curso que capacita o aluno com conhecimentos teóricos e práticos nas áreas do setor produtivo. Seu principal propósito é acelerar o ingresso do estudante no mercado de trabalho. Para participar de um dos 185 cursos oferecidos nas escolas espalhadas pelo Brasil, é preciso ter concluído o ensino fundamental e, para obter o diploma, exige-se a conclusão do ensino médio, que pode ser feito simultaneamente ao técnico.
Por isso, existem três modalidades. Na primeira, o estudante cursa o ensino médio com o profissionalizante. Chamada de "integrada", esta opção dura quatro anos, se feito em um período, ou três, em dois períodos.
É possível também fazer o ensino médio e o técnico separadamente, mas ao mesmo tempo. É comum o estudante buscar o curso técnico quando está no 2º ano do ensino médio, para conseguir os dois diplomas em três anos. Chamado de "concomitante", dura de um a dois anos.
Por fim, há a possibilidade de fazer o ensino técnico depois de ter concluído o médio. Conhecida como "subseqüente", também dura de um a dois anos.
De acordo com Almério Melquíades de Araújo, coordenador de ensino médio e técnico do Centro Paula Souza (SP), órgão mantenedor das Etecs (Escolas Técnicas Estaduais), cada opção tem vantagens e desvantagens. “Na integrada, se o aluno for mal ou não gostar das disciplinas técnicas, ele vai precisar largar o curso, porque o técnico e o médio estão juntos e há uma só matrícula." Já no concomitante, continua, "não existe o problema de ser somente uma matrícula. Afinal, os cursos são independentes".
Segundo dados do Inep - Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, vinculado ao MEC -, o censo escolar de 2006 apontou a existência de 3.335 instituições de educação profissional no país. A Setec estima que, atualmente, existam cerca de 3,5 mil estabelecimentos, entre públicos e privados, que oferecem cursos técnicos no Brasil. Só o governo federal mantém 200 escolas de educação profissional no país, o que equivale a 220 mil matrículas por ano.
Vantagens
A duração dos cursos varia de 800 a 1,6 mil horas - um ou dois anos de aulas. Outra vantagem é que o curso é dividido em módulos. O estudante ganha certificados quando termina uma determinada disciplina, o que o credencia a trabalhar na área daquela matéria antes do término do curso.
O custo do ensino técnico também é um atrativo. A mensalidade do curso de técnico em enfermagem do Senac de São José dos Campos (SP), que tem duração de 28 meses, por exemplo, é de R$ 298. Na média, os cursos do Senac custam R$ 350 por mês.
Os Cefets (Centros Federais de Educação Tecnológica) e as Etecs são gratuitos – daí a disputa bastante acirrada no processo seletivo, comparável a dos vestibulares mais concorridos do país. É o caso do curso integrado de programação de sistemas do Cefet-SP que, para o primeiro semestre de 2008, recebeu 51,4 candidatos por vaga.
Para efeito de comparação, a mensalidade do curso superior tradicional em enfermagem da Unip (Universidade Paulista), para o campus da Cidade Universitária, em São Paulo, custa R$ 572 (manhã) ou R$ 602 (noite). Esses valores são válidos para o primeiro semestre de 2009.
Empregabilidade
O número de vagas para cursos técnicos é seis vezes menor que o de vagas para o ensino superior. O Brasil possuía 744.690 matrículas no ensino técnico, público e privado, de acordo com o censo escolar de 2006. Já as faculdades, segundo o censo do ensino superior de 2006, ultrapassaram a marca de 4,6 milhões de ingressos.
Se por um lado a oferta de vagas para o ensino técnico é baixa, a empregabilidade de quem termina o curso é alta. Só no primeiro semestre deste ano, 160 mil técnicos foram admitidos. Os dados são do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), órgão vinculado ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).
A empregabilidade está diretamente ligada ao fato de os cursos serem criados com base nas necessidades locais de cada região. Uma pesquisa realizada pelo Centro Paula Souza nas Etecs e divulgada em 2007 apontou que 77% dos alunos formados em 2005 estão empregados. Já o Cefet-SP estima que o grau de participação dos seus alunos no mercado varia de 70% a 80%, sobretudo nos cursos de informática e construção civil.
O Senac-SP tem índices de inserção que atingem até 90%. É o caso dos cursos de contabilidade, segurança do trabalho e biblioteconomia. O Senai também avaliou a condição dos alunos egressos entre 2006 e 2007. De acordo com Fernando Correa, gerente executivo de pesquisa da entidade, o índice de empregabilidade alcançou 82% no período.
Como ingressar
As escolas públicas costumam fazer um vestibulinho como parte do processo seletivo. Já as particulares só realizam esse tipo de prova quando há mais alunos do que vagas. É necessário ter no mínimo 16 anos e já estar cursando o ensino médio ou tê-lo concluído.
Senac-SP Local – 53 unidades no estado de São Paulo Onde atua – educação profissionalizante, tecnológica e superior Telefone - 0800 883 2000
Cefet-SP Local: dez unidades no estado de São Paulo Onde atua: ensino médio, ensino técnico e educação superior Telefone - (11) 2763-7500
Um curso, e ele viu sua renda aumentar
Há cinco anos em uma empresa de comunicação visual, Nilson Velardo, 46, ocupava o cargo de gerente comercial quando começou a considerar a possibilidade de aumentar sua renda com uma especialização na área de segurança do trabalho. “Eu conversava muito com técnicos e engenheiros da empresa, que me indicaram o curso”, diz. Com o diploma do Senac na mão, Velardo acumulou responsabilidades, tornou-se consultor de outra empresa e ampliou sua renda mensal em 50%.
Para conciliar duas carreiras
O curso técnico também pode servir para ampliar seu campo de atuação. Formada há dois anos em fisioterapia, Adyja Maria Braga dos Santos, 24, resolveu deixar de lado a primeira profissão para fazer a carreira decolar no setor de estética. “O fisioterapeuta não é valorizado, os convênios pagam mal e as empresas não contratam mais”, reclama.
Após quase dois anos sem emprego fixo, ela se matriculou no curso técnico de estética do Senac São Paulo e já atende as amigas. “Comecei com as colegas, depois vieram clientes indicadas pelos meus amigos. A propaganda boca a boca vem dando resultado”, diz Adyja, que considera barata a mensalidade de R$ 251 do curso, que ela deve concluir daqui a dois anos.
Para não abandonar a carreira de fisioterapeuta, cuja faculdade exigiu um investimento de R$ 1.140 por mês, Adyja pretende conciliar as duas profissões. “Quando atendo pacientes particulares [na fisioterapia], tenho um bom retorno, mas quero reservar 70% do meu tempo para a estética”, afirma.
O salário era excelente, "mas queria fazer o que gosto"
Descontente, a química Alessandra Guerreiro Marcelino, 33, resolveu mudar drasticamente de profissão. Depois de trabalhar quase oito anos na área e ter uma grande multinacional no currículo, ela apostou todas as fichas num curso técnico. “Eu tinha um salário excelente, mas queria fazer o que gosto”, afirma.
Alessandra deixou de lado o diploma da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e a cidade natal – Indaiatuba (SP) – para estudar design de interiores na Etec Vasco Antonio Venchiarutti, em Jundiaí. “Quando prestei vestibular, não havia arquitetura perto da minha cidade, então decidi cursar minha segunda opção, que era química.”
Formada pela segunda vez desde julho de 2008, a designer acaba de abrir seu próprio escritório em Indaiatuba e ganha apenas 25% do que faturava como química. “[Com a nova profissão] ainda não alcancei o salário que eu tinha, mas com certeza vou superá-lo depois do primeiro ano na área”, diz.
Primeiro o técnico, depois a faculdade
A vontade de engordar o salário fez o estudante Helton Cesar Vicente, 26, buscar o curso técnico de mecânica no Senai-SP. “Eu já havia feito um curso em mecânica de usinagem, mas trabalhava fora da área. Resolvi fazer o de mecânica para voltar ao setor e, com três meses de aula, já consegui estágio”, afirma.
Vicente só vai concluir o curso em julho de 2009, mas um ano depois do início dos estudos ele já foi efetivado. “Além do crescimento pessoal, consegui aumentar minha renda em 70%.”
Depois da conclusão, o estudante já faz planos para entrar na faculdade. “Todo projeto que fazemos [na área de mecânica] tem a preocupação com a destinação de resíduos. Por isso, pretendo fazer engenharia ambiental.”