Foi uma segunda-feira conturbada para o mundo. Em 15 de setembro de 2008, foi escancarada uma grave ferida no coração financeiro da maior economia, os Estados Unidos. Naquele dia, o gigante banco de investimentos Lehman Brothers entrava com pedido na lei de proteção à falência, para evitar sua quebra, citando uma dívida bancária de US$ 613 bilhões.
Como a primeira peça de uma fileira de dominós, a concordata do Lehman desencadeou em anúncios sombrios de grandes bancos em sequência. O Merril Lynch, também em posição crítica, foi salvo ao ser comprado pelo Bank of America, em uma transação de US$ 50 bilhões.
No dia seguinte, foi a vez da seguradora AIG ser resgatada, mas pelo Governo norte-americano. O Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos) anunciou uma ajuda de US$ 85 bilhões para evitar o colapso. A companhia possuía 30 milhões de assegurados em território norte-americano, atividades em 130 países e apólices para mais de 100 mil empresas.
Mas foi uma semana antes que os primeiros sinais de que a concessão em massa de crédito nos Estados Unidos traria problemas. Os empréstimos sem restrições, até a clientes de risco, provaram a imprudência do sistema financeiro norte-americano. Em 7 de setembro, as duas principais empresas de hipoteca do país, Fannie Mae e Freddie Mac, tiveram que ser resgatadas pelo Governo, com dinheiro dos contribuintes, para evitar a quebra.
Esse cenário evidenciava um outro problema que estava mascarado nos Estados Unidos. Aproveitando-se da grande oferta a baixas taxas de juros, os consumidores compraram, principalmente imóveis. A grande procura por residências valorizou o mercado. Mas em certo momento, a taxa de juros começou a subir, diminuindo a procura pelos imóveis e derrubando os preços. A consequência foi a inadimplência, e, por fim uma crise imobiliária.
Trilhões para salvação Após a turbulência deixar de ser uma possibilidade e tornar-se algo concreto, o Governo norte-americano agiu rápido. Em 19 de setembro, o secretário do Tesouro, Henry Paulson, anunciou um pacote de resgate ao sistema financeiro de US$ 700 bilhões. A resposta do Congresso não foi tão ágil, e o plano foi aprovado em 3 de outubro.
Logo, a crise se alastrou, atingindo bancos de outros países. Em 12 de outubro, líderes europeus se reuniram e decidiram abrir os cofres e liberar R$ 1,3 trilhão, na Alemanha, França e Espanha, para empréstimos a instituições financeiras.
As soluções a curto prazo custaram caro. Para salvar as economias ao máximo, trilhões de dólares foram gastos. Nos Estados Unidos, Barack Obama assumiu a presidência e logo propôs um pacote de US$ 787 bilhões, que foi aprovado em fevereiro.
Ainda, o G20 decidiu aumentar, em abril, os recursos disponíveis no Fundo Monetário Internacional (FMI) em US$ 750 bilhões. As nações ainda anunciaram outros US$ 250 bilhões para impulsionar o comércio e evitar o protecionismo – medida de segurança que os países começavam a adotar para se isolar e evitar contágio com a crise externa.
Depois dos remédios para efeito imediato, as nações começaram a analisar mais profundamente as causas da turbulência mundial, e chegaram a uma conclusão: era necessário regular o mercado financeiro.
Montadoras Mas nesse ponto, a crise já havia saído do mundo financeiro e invadido outro pilar da economia mundial: a indústria automobilística. Em um mês, Chrysler e General Motors (duas das três maiores montadoras norte-americanas) anunciam pedido de proteção à falência e recorrem ao bolso do Governo dos Estados Unidos.
A GM se reestruturou, enxugou os excessos e ressurgiu como “Nova GM”. A Chrysler se associou com a italiana Fiat e também se salvou.
A partir desse ponto, os estragos pareceram ter chegado ao fim. Países voltaram a anunciar crescimento do Produto Interno Bruto e a palavra “otimismo” voltou ao vocabulário dos economistas.
Um ano depois Em discurso que marcou esse que foi um dos piores anos para a economia do mundo, Obama voltou a recorrer ao Congresso de seu país por uma aprovação. Dessa vez, pela reforma definitiva do setor financeiro, para evitar que o crédito desenfreado e outras ações possam sacudir o mundo.
O presidente afirmou que as "tempestades" formadas pela crise estão começando a se dissipar e que a necessidade de envolvimento do governo no sistema financeiro diminuiu. Ele ressaltou que o mercado não deve voltar a ser complacente conforme a economia voltar ao normal, acrescentando que os bancos não devem esperar um novo resgate por parte dos contribuintes.
O mundo volta a se normalizar, mas depois de tantos acontecimentos, uma nova ordem econômica promete surgir. Os emergentes - menos atingidos que as grandes potências - crescem e se destacam no cenário mundial. Países como China, Rússia, Brasil e Índia pedem mais voz nas grandes decisões, e são ouvidos.