A maior crise na economia mundial nos últimos tempos transformou os economistas – uma vez críticos ao presente e analisadores do futuro – em profissionais inseguros e sem prognósticos precisos. As teorias para as causas da turbulência mundial foram muitas, e as previsões do fim do período caótico, poucas. 2009 foi um ano de ações, depois do nocaute que desnorteou os líderes mundiais e empresários em 2008.
Começou com o plano econômico do novo presidente norte-americano, Barack Obama, seguido por pacotes na Europa, Japão, Brasil. Como um diagnóstico tardio, países começaram a divulgar seus Produtos Internos Brutos (PIBs, somas das riquezas) negativos e a temida - mas já esperada - recessão.
Os líderes mundiais se reuniram em Londres, em 2 de abril, na busca pela solução definitiva à crise. O encontro terminou com a promessa de se reduzir impostos e melhorar a regulamentação do sistema financeiro (principal causador dos problemas).
Mas nesse ponto, a turbulência já havia deixado o setor financeiro e avançado a outras áreas da economia. No Brasil, a Embraer demitiu 4,3 mil funcionários (20% da força de trabalho) para se adequar à menor demanda mundial por aviões.
Nos Estados Unidos, as gigantes do setor automobilístico GM e Chrysler entram com pedido de proteção à lei de falências para evitar o fechamento de suas portas. Mais intervenção do Governo norte-americano, que injetou bilhões de dólares nas montadoras e evitou um colapso maior.
Os mesmos economistas que não tinham certeza sobre o que atingiu o mundo diziam apenas uma coisa (óbvia) em comum: após atingir o fundo do poço, o único caminho será o de subida. O desemprego crescente, a recessão, quebra de empresas de diversos setores. Esse foi o fundo do poço.
Nova ordem mundial Frágeis, as grandes nações cederam espaço pros emergentes, atingidos de forma menos dura pela crise. O ano de diversas reuniões multilaterais abriu caminho para uma nova ordem mundial.
Em vez do G8, agora o G20 tomava decisões, com presença de Brasil, Índia, México, África do Sul.
O Brasil da “marolinha” No início da crise, o Governo brasileiro determinou: em terra tupiniquim, “crise” é palavra estrangeira. Não foi bem assim. O Brasil conseguiu amenizar os efeitos da turbulência, mas não evitou a perda de 797 mil empregos formais entre novembro de 2008 e janeiro de 2009. Também presenciou duas quedas consecutivas do PIB e a recessão técnica. Já não era a “marolinha” que Luiz Inácio Lula da Silva havia previsto.
O Governo agiu rápido. A palavra de ordem no país era consumo. A equipe de Lula lançou benefícios tributários com impacto de R$ 15,4 bilhões na arrecadação de 2009. A alíquota do Imposto de Renda para imóveis caiu. Cresceu a lista de materiais de construção com redução no Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). Carros, caminhões, produtos da linha branca e 70 tipos de bens de capital foram contemplados.
Para aliviar a falta de crédito, o governo reduziu o compulsório - parte dos depósitos que os bancos devem obrigatoriamente manter sob custódia do Banco Central. A medida liberou mais de R$ 20 bilhões para irrigar o mercado.
A taxa básica de juros foi reduzida. Passou de 12,75% em dezembro de 2008 para 8,75% em julho de 2009. Até dezembro, a série de ajustes parou e a taxa foi mantida pelo Comitê de Política Monetária (Copom).
Assim, junto ao resto do mundo, o Brasil voltou a ter PIB positivo, contratações, alta do consumo. A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) se recuperou de 2008 (pior ano desde 1972), caminhando novamente em busca dos 70 mil pontos. E o dólar voltou a cair, na casa de R$ 1,70.
Crise tardia Quando tudo parecia caminhar para a recuperação econômica, uma próspera economia do Oriente Médio causou momentos de preocupação nos mercados. O maior conglomerado de Dubai, o Dubai World, sinalizou um calote à sua dívida bilionária por causa da queda nos investimentos.
O temor fez com que se agisse rápido. Abu Dhabi concedeu US$ 10 bilhões à vizinha Dubai, em uma ajuda surpresa para a endividada empresa.
Dubai disse que US$ 4,1 bilhões foram colocados na empresa imobiliária Nakheel para pagar um bônus vincendo. A Nakheel afirmou que honrará os compromissos.
O restante do dinheiro será usado para ajudar o conglomerado estatal Dubai World, que pediu aos credores a reestruturação de uma dívida de US$ 26 bilhões.
Passado o pior período de turbulência, as economias caminham para a retomada do crescimento. O mundo espera que a lição tenha sido aprendida, para um desenvolvimento sustentável e controlado.