Diversão
19/11/2008 - 03:10 (atualizada em 19/11/2008 11:35)

Mallu Magalhães debuta no mundo adulto com show em São Paulo

A menina prodígio do folk fez nesta terça-feira (18) seu primeiro show numa casa de gente grande, o Bourbon Street

Marianne Nishihata
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Mallu Magalhães cantou Tom Waits e Johnny Cash em São Paulo
Mallu Magalhães cantou Tom Waits e Johnny Cash em São Paulo

Mallu Magalhães, goste-se dela ou não, é o fato musical de 2008. Em janeiro, era uma menina de quinze anos que havia pedido uma fita demo com composições próprias, que imitavam Bob Dylan e Johnny Cash, no lugar do baile de debutante. Chegará em dezembro com um disco de estréia (esta semana nas lojas) produzido por Mario Caldato, uma parceria (dizem que não só) musical com Marcelo Camelo, show em festivais e muito espaço na grande imprensa.

Do alto de seus agora 16 anos, só faltava no currículo se apresentar em uma das casas tradicionais de sua cidade, São Paulo. Agora não falta mais. A adolescente, depois de participar de festivais e lotar inferninhos, cantou nesta terça-feira (18) em seu primeiro palco adulto, no Bourbon Street, a principal casa de jazz da cidade. Como parte da programação do Terça por Elas, que dedica o dia da semana a novas vozes femininas, Mallu botou seus delicados pés de menina num palco onde já pisaram, entre outros, Ray Charles e Nina Simone, e deixou a sensação de que ainda tem muito a amadurecer como cantora.

Mallu subiu só com seu banjo faltando dez minutos para as onze da noite e abriu o show com “You Know You’ve Got It”, faixa que também abre seu homônimo disco de estréia. Logo ganhou a companhia de cinco integrantes da sua banda, que destilaram, em pouco mais de uma hora e quinze, entre outras, as quatorze faixas de seu primeiro disco. Se o impacto inicial foi ameno, o coro quase infantil de “J1”, na seqüência, não ajudou a dissipar uma certa desconfiança no ar.

Sua voz pequena quase sumiu ao longo de “Her Day Will Come”, que ganhou a providencial intervenção de “Your Mother Should Know”, dos Beatles. Apesar do começo irregular, Mallu emendou duas canções promissoras de seu repertório, “It Takes Two to Tango” e “Get to Denmark”, já bem conhecida de seus seguidores, mas possivelmente apresentadas pela primeira vez para boa parte do público que enchia o Bourbon Street. O interesse permaneceu no ar.

Platéia dispersa
Apresentar Tom Waits como quem fala do Ursinho Poh (“um cara que eu descobri agora e que é super legal”? Tom Waits faz carreira há 36 anos sendo qualquer coisa, menos super legal) não a ajudou a ganhar a platéia, mas precedeu um dos raros momentos no qual a promessa entrega alguma perspectiva real de brilho. Sua interpretação de “Tango Till They're Sore”, do álbum Rain Dogs, de 1985, um dos raros sucessos comerciais de Waits, foi o melhor momento da noite.

Show que segue, platéia que se dispersa, burburinho que cresce vindo do bar - e Mallu continua a apresentar suas influências da tradicional música norte-americana. Toca gaita junto com o violão, alterna momentos mais eletrificados (promovidos pelo bom guitarrista Kadu Abecassis) com gritos, vocais desalinhados e gemidos, muitos gemidos. Mallu gosta especialmente de country e de blues. Mas a sensação era de que faltava sentimento, faltava algo de passional ali. Há uma ingenuidade no ar que simplesmente não vai embora.

Meia-noite em ponto, Mallu, que está em semana de provas no colégio, encerrou seu show com “Have You Ever”. Quando a platéia já estava convencida do fim, ela voltou para emendar dois possíveis hits de seu disco de estréia, “Don’t You Look Back” e “Angelina, Angelina”, e fechar finalmente sua noite de debutante no mundo adulto com a já surrada versão de “Folsom Prison Blues”, escrita por Johnny Cash nos anos 50. A mesma ausência de emoções mais fortes, que pontuou a noite, se arrastou pelo bis.

Quando o Bourbon Street nasceu, em dezembro de 1993 com um lendário show de B.B. King, Mallu Magalhães não andava nem falava direito - tinha um ano e três meses de idade. Nada disso pareceu assustá-la noite passada, o que é um mérito. E, em diversos momentos, a moça revela um talento que ainda há de ser lapidado e desafiar bajuladores e apressadinhos no desenvolvimento de sua própria maturidade. Mas na apresentação desta terça, pelo menos, Nelson Rodrigues ficaria orgulhoso se pudesse ter sentado em uma das mesas do Bourbon. Seu célebre conselho aos jovens escritores vale perfeitamente para jovens cantoras como Mallu Magalhães: envelheçam.

 
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