Autor em entrevista nesta terça (25) no Consulado de Portugal
“Uma boa doença vale por toda a obra de Paulo Coelho”, disse provocativamente o escritor português José Saramago durante entrevista coletiva, em São Paulo. O vencedor do prêmio Nobel de Literatura está na cidade para o lançamento mundial de “A viagem do elefante” e para a inauguração da exposição “Saramago: a consistência dos sonhos”. (confira o serviço no fim da matéria)
O processo de escrita de “A viagem do elefante” teve que ser interrompido por uma grave doença respiratória que quase lhe tirou a vida. Dois dias depois da alta do hospital, Saramago já estava em casa trabalhando. O que ganhou com a experiência de quase-morte? “Serenidade”, diz ele. Mas o autor destaca que a conseguiu sem ter lido nenhum livro do brasileiro Paulo Coelho, famoso por suas obras esotéricas, com caráter de auto-ajuda.
O novo trabalho de Saramago conta a história de um elefante que viajou, no século 16, de Lisboa até Viena, como presente do rei português dom João 3º ao arquiduque austríaco Maximiliano 2º.
“A ironia sempre esteve presente nos meus livros, mas é neste que o humor aparece pela primeira vez”, fala o escritor de 86 anos. Ele também comenta que a obra tem essa característica porque ela própria quis ser assim. “A narrativa é a correnteza que nos leva, embora nós que guiamos o barco”, explica o autor.
A linguagem do livro, segundo Saramago, é uma mistura de português contemporâneo e arcaísmos, que para o leitor atento possibilitará maior prazer na leitura. O escritor diz que nunca tinha usado essas expressões nos livros, embora muitas delas sejam da sua infância e adolescência.
A volta ao passado é explicada pelo Nobel de Literatura de 1998: “A doença revolveu meus sedimentos de linguagem acumulados ao longo dos anos; o que estava embaixo foi para cima e vice-versa”.
Exposição “Saramago: a consistência dos sonhos” reúne 1200 documentos sobre a vida do escritor. São manuscritos, notas pessoais, agendas, primeiras edições e vídeos que poderão ser vistos no Instituto Tomie Ohtake, a partir do dia 28 de novembro.
A curadoria é do espanhol Fernando Gómez Aguilera, que teve acesso ilimitado ao material durante dois anos. “Saramago e Pilar [mulher do autor] me de deram liberdade; tudo estava empacotado em caixas de papelão, sem ninguém mexer”, conta Aguilera.
A mostra segue uma ordem cronológica de Saramago, desde seu primeiro livro, “Terra do Pecado”, escrito em 1947. “É um resumo da vida deste príncipe da literatura”, conclui o curador.