Nessa temporada de inverno 2009, um desfile chamou bastante a atenção. A Osklen fez uma das apresentações mais elogiadas do SPFW ao se inspirar em uma só peça: o moletom cinza mescla.
Além do próprio material, que se converteu em vestidos com formas arquitetônicas, outros elementos como o zíper foram reinventados – o fecho, por exemplo, se transformou em detalhe aplicado por todo um look, perdendo sua função primordial e virando enfeite. A coleção teve tanto impacto que o material, mesmo não tendo sido uma grande aposta dos outros estilistas, deve ser tendência da estação.
Mas, se olharmos para o mercado internacional, o moletom cinza já dava sinais de renascimento. A francesa Yves Saint Laurent, por exemplo, mostrou moletom na sua chiquérrima passarela de prêt-à-porter no verão 2008. O ano de 2008 também ficou marcado pelo grande retorno de Norma Kamali nos noticiários americanos com anúncio peculiar: ela começou a criar roupas com seu nome por preços baixíssimos nas unidades do Wal-Mart!
Norma Kamali fez história na moda americana no fim dos anos 70 e durante a década de 80. Em 1978, ela fundou a On My Own (mais conhecida como OMO), marca que, entre outras renovações, transformou o moletom cinza mescla, antes confinado às academias de ginástica, em artigo fashion. Na verdade ela agiu como antena: o moletom cinza com capuz já existia na década de 30 e era usado para esquentar os trabalhadores de frigoríficos de Nova York. Depois, passou a ser roupa de esportistas – e as namoradas deles logo gostaram da idéia de pegar aquela peça de roupa quentinha e confortável emprestada.
Coleção de Norma Kamali para a Wal-Mart, por menos de US$ 10 – Fotos: Reprodução
Tem quem afirme que o moletom cinza mescla é tão representativo da moda americana quanto a calça jeans. O cinema de Hollywood deu uma ajudinha – e tudo acontece paralelamente. Dois anos antes da OMO de Norma, estreava o filme “Rocky”, o primeiro sobre o lutador interpretado por Sylvester Stallone. Sly já era famoso na época, mas “Rocky” foi um projeto pessoal, com roteiro dele – ganhou nas categorias Melhor Filme e a Melhor Direção do Oscar de 1976. O longa não teve figurinista, mas o moletom cinza mescla que Rocky Balboa usava para fazer cooper se transformou em objeto de desejo de dez entre dez rapazes. Até hoje: tem meninos que o chamam de “moletom do Rocky” por aí...
As garotas demoraram mais um tempo para se apegar ao moletom cinza mescla por causa de um filme. Em 1983, estreava “Flashdance”. A história do moletom com a gola rasgada que a personagem Alex usa na cena clássica (ela tira o sutiã por baixo da blusa na frente do par romântico) é controversa. Michael Kaplan, o figurinista, diz que a idéia foi dele, mas Jennifer Beals, a atriz, jura de pé junto que foi ela mesma quem lavou um moletom cinza mescla que tinha – ele encolheu, ela cortou a gola para conseguir fazer ele entrar na cabeça... e como todas as meninas queriam ser independentes e correr atrás de um sonho como Alex, tudo fez sentido. Os anos 80 marcaram a era do fitness, da moda da malhação, do culto ao corpo – tanto o filme quanto esse figurino tinham a ver com o momento.
Com a cena do hip-hop na década de 90, o moletom com capuz em geral passou por revitalização, assumindo um lugar entre peças do momento. Marcas como Tommy Hilfiger e Ralph Lauren fizeram as suas versões, e até Gucci e Versace entraram na dança.
Rocky e “Flashdance” - Fotos: Divulgação
O melhor do moletom cinza mescla, além de toda essa história por trás dele, é que o material é barato e democrático. Ele inspira conforto, já mostrou sua versatilidade nas passarelas (Fabia Bercsek é outra estilista nacional que adora) e também tem um clima jovem. A cashmere, claro, pode ser mais chique... mas o moletom continua sendo o mais cool.