Mulher

27/10/2008 - 17:54 (atualizada em 27/10/2008 18:09)

Mercado de trabalho sofre com efeitos da globalização financeira

Abertura teria precarizado condições de trabalho e beneficiado empregadores

Isabela Gaia

No dia 16 de outubro, a OIT declarou em seu relatório anual que a globalização financeira tem sido um “importante propulsor da desigualdade de renda” e “não tem contribuído para o fortalecimento da produtividade global e do aumento de emprego.”

No Brasil, apesar do avanço na formalização de empregos – os postos atingiram 43,9% do total da população ocupada entre janeiro e agosto, contra 42,1% no mesmo período do ano passado –, houve crescimento também do setor informal e aumento da diferença salarial entre o setor formal e o informal.

“O Brasil entrou na globalização, não pela porta do comércio, como o pacote neoliberal vendeu (...), mas fundamentalmente pela porta da abertura financeira”, diz a professora de Teoria Econômica na FEA/USP Leda Maria Paulani.

“O país hoje atrai, não é pelo seu mercado interno, não é pelo seu potencial de crescimento, mas é pelo ganho financeiro que a sua politica econômica, combinada com a sua estrutura produtiva. Isso explica a situação do mercado de trabalho no Brasil hoje”, diz ela.

José Dari Krein, professor da Unicamp e especialista em economia do trabalho, concorda que o crescimento econômico, diferentemente da década de 90, teve correspondência com o mercado de trabalho. Mas, apesar dessa melhora, algumas características permanecem no mercado:

- Há um excedente estrutural de força de trabalho – segundo Dari, mesmo que a oferta de emprego aumente por 15 anos, o Brasil ainda terá esse excedente

- Há alta taxa de rotatividade da força de trabalho – segundo ele, apenas 1/5 do total de ocupados estão no emprego há mais de dois anos

- Os salários são baixos e a distribuição de rendimentos, desigual

- A flexibilidade do mercado de trabalho aumenta a liberdade do empregador e a possibilidade de reduzir custos

Para a última característica, Dari aponta as diferentes formas de contratação como exemplos da flexibilidade que tolhe os direitos dos trabalhadores.

Os contratos de prazo indeterminado e de experiência, por exemplo, permitem que o empregador “teste” o trabalhador por poucos meses e depois o dispense sem precisar pagar direitos.

Estagiários e terceirizados são exemplos de outro tipo, a chamada ‘contratação disfarçada’, “em que estão presentes características do assalariado, mas formalmente ele não é”, explicou Dari.

A exploração também se dá no que diz respeito ao tempo e à intensidade de trabalho. Segundo Dari, com o prolongamento da jornada de trabalho, o tempo econômico se impõe progressivamente ao tempo social do trabalhador. “E se ele não leva trabalho para casa, leva problemas do trabalho para casa”, disse.

Com a informatização, acirrou-se também o controle do ritmo de trabalho. A gerência de um supermercado sabe quantos produtos estão passando nos leitores óticos dos caixas a cada minuto, a gerência do banco sabe quantos documentos estão sendo autenticados – a fiscalização é dura e eficaz.

José Dari e Leda Paulani participaram na última quarta-feira (22) do debate “Dominação Financeira e Mercado de Trabalho no Brasil” faz parte do seminário Hegemonia às Avessas: Economia, Política e Cultura na Era da Servidão Financeira, que acontece de terça (21) a sexta (24), no anfiteatro do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

 
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