Croquis da P'tit e da Der Metropol para a Casa dos Criadores
Segundo dia de Casa de Criadores teve mais desfiles que o primeiro dia - isso por causa do Projeto LAB, de novíssimas marcas (R Rosner e Tony Jr são os únicos que participaram da edição passada entre seis grifes). Já dá, por essa quantidade, para falar um pouco sobre a imagem de inverno 2009 que está aparecendo nesse comecinho de temporada.
O preto se confirma como a cor dessa edição da Casa de Criadores, e é um preto pesadão mesmo, em looks que não têm medo de serem carregados. Desde o destaque desse LAB Jadson Raniere (assistente de Walério Araújo que trabalhou muito bem a alfaiataria com uma imagem de desfile séria e um pé no militar - vide coturnos e casacões), passando por Mahogany com as absurdas personagens da noite Michael Love e Bianca Exótica, R Rosner com seus golões gigantes, as mulheres formigas de Arnaldo Ventura que transitam entre o festão chique e uma diva glamurosa do rock, as sexy power girls das Gêmeas, os longos de festa da P'tit... quase todo mundo foi de preto. E mesmo quando não foi, caso da Der Metropol que injetou ainda um pouco de cor, o tema era roqueiro, com coração sangrando.
A Der Metropol e a P'tit se sobressaíram - não exatamente pelo nível dos desfiles, que foi bem equilibrado, mas pelo fator "novidades". A primeira, destaque do último Projeto LAB, antes uma dupla e agora "banda de um homem só" Mario Francisco, continuou na linha street da coleção anterior. A malha cinza mescla já vira um ícone de seu trabalho: se antes ela foi usada em pegada folk, agora volta em outras camisetas e no moletom. A elas, juntam-se camisas (com listra ou com floral P&B), vivos vermelhos representando as veias de um coração, abotoamentos assimétricos.
A imagem é de um rock romântico - mas não chega a ser emo (ufa!), está mais próximo de Oscar Wilde (citado no começo no desfile: "O mistério do amor é maior que o mistério da morte"). Mario quase não chega a tempo de seu próprio desfile - envolveu-se em um acidente de carro com um motoqueiro e só conseguiu sair da delegacia para chegar ao Shopping Frei Caneca minutos antes de entrar na passarela para os aplausos.
A P'tit fez seu primeiro desfile sem performance (!), o que já é digno de nota. O quarteto parte do diamante que já apareceu na coleção anterior mas o lapida (imagem linda, própria do trabalho deles), menos preocupado com o show e mais focado, com menos looks. Os acessórios são fortíssimos, desenvolvidos em parceria com a NIZT, dourados, com correntes. Os looks são mais sérios, mesmo: tem paletó de ombros pontudos, o brim lavado de maneira que parece outro tecido na calça de boca larga, vestidões de festa como nunca se viu antes na passarela deles. A tentativa de reinvenção é muito bem vinda - eles já estavam procurando uma imagem mais adulta no inverno anterior, e dessa vez parece que acertaram mais o alvo.
Tem quem aponte descuido no acabamento de algumas peças, mas para outros isso pode parecer parte do charme vintage que fez a história da marca. O importante, no fim, é que o objetivo seja cumprido: expansão comercial e capacidade de andar com as próprias pernas - afinal, a grife concorreu na categoria revelação no Prêmio Moda Brasil e, na verdade, já tem muito chão, só que ainda não consegue um respaldo de marca veterana por não ter a parte de vendas, ainda, melhor desenvolvida. A ver.
E o kitsch é outra tendência divertida que surge nas experimentações da CdC: os plastificados com xadrez e floral da Diva, a própria imagem da formiga de Arnaldo Ventura à la musa camp, a mistura de signos da perua em Tony Jr (onça, babado, franjas, tigre, renda...). Agitações no meio do mar negro.
Nessa quarta-feira, 10, a Casa de Criadores fecha com o aguardado desfile de Walério Araújo, que promete uma profusão de pérolas - deve ficar divertido, como sempre.