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05/03/2009 - 14:04
Agência Estado

Cinema, fralda e mamadeira

Agência Estado
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São Paulo, 05 (AE) - Todas as terças-feiras, perto do horário do almoço, elas se destacam da multidão formada por pessoas apressadas que trabalham na região da Avenida Paulista, em São Paulo. Sozinhas ou em pequenos grupos, mães com bebês a tiracolo rumam para o Espaço Unibanco, na Rua Augusta, com a intenção de pegar uma sessão de cinema. O endereço, reduto de cinéfilos e modernos, nem parece o mesmo. Sacolas, carrinhos, cadeirinhas, tapetes de borracha e brinquedos invadem alegremente o local, atraindo olhares curiosos.

O embrião das sessões CineMaterna começou em fevereiro do ano passado, por iniciativa de um grupo de mães que discutia na internet questões como parto humanizado, alimentação infantil e aleitamento materno. Até que uma delas, a administradora de empresas Irene Nagashima, comentou sobre a falta que sentia de ir ao cinema, depois do nascimento de seu primeiro filho, Max. O sentimento era compartilhado por outras mamães cinéfilas. "Juntamos um grupo de dez mães com bebês de meses e até de dias e começamos a frequentar as salas de cinema à tarde", conta ela.

Depois de algumas sessões "na clandestinidade", o grupo acabou sendo barrado, mas elas não desanimaram e foram à luta, formalizando a iniciativa com a criação da ONG Associação CineMaterna. Hoje as sessões (abertas ao público em geral) são realizadas às terças, no Unibanco Augusta; às quintas, no Cinemark Market Place e, aos sábados, no Frei Caneca Artplex.

O crítico de cinema Christian Petermann dá uma assessoria sobre a seleção dos filmes, em geral dramas light e comédias românticas, escolhidos pelas mães numa enquete. "Nem cogitamos colocar em votação o filme "A Troca", com Angelina Jolie, cujo filho é sequestrado", brinca Irene. Um dos recordes de público, festejado pelas organizadoras, bateu a marca de 140 adultos e 67 bebês: foi uma sessão extra do filme "Marley & Eu". Mesmo com tanta gente e solicitações diversas, a equipe não perdeu o rebolado, como escreveu Irene no seu blog: "o mais engraçado foi que as pessoas chegaram todas ao mesmo tempo, menos de 10 minutos antes da sessão. Para acomodar todos na sala, criamos um estacionamento de carrinhos." Outro sucesso de público foi o filme "Se eu Fosse Você 2", com 120 pessoas.

CUIDADOS

As salas são preparadas para proporcionar um ambiente acolhedor aos pequenos de 0 a 18 meses. O som é mais baixo do que em sessões regulares, o ar condicionado é adequado, há trocadores dentro da sala e um tapete EVA na primeira fila, para acomodar os que estão engatinhando. Detalhe: o projecionista, chamado pelo nome, aguarda o sinal para começar a sessão. Para que todo mundo se divirta, há um manual de etiqueta distribuído na entrada, como algumas orientações. Exemplos: desligar o celular, dar uma voltinha com o bebê se ele começar a chorar, evitar falar alto, não levar brinquedo com luz e som e tirar fotos sem uso de flash.

Depois do filme, as mães curtem a happy hour num café próximo, onde colocam a conversa em dia. É bom deixar claro que os pais, tios, avós são bem vindos. "As mães são a maioria nos dias de semana, enquanto os pais e outras pessoas da família costumam vir aos sábados", diz Irene.

A entidade é tocada por um quarteto afinado. Irene, que deixou o trabalho para se dedicar fulltime ao projeto, cuida da programação, preparação da sala, e realiza enquetes semanais com as interessadas. Alexandra Swerts, jornalista e assessora de imprensa, mãe de Felipe, de 1 ano e 5 meses, contribui com a divulgação, ampliando a rede de cinéfilas. Taís Viana, engenheira e consultora de marketing, mãe de Anne, de 1 ano e 6 meses, é responsável pelo desenvolvimento do material de divulgação, busca de patrocínios e organização dos eventos.

Ana Lúcia Keunecke, advogada, mãe de Sofia,de 2 anos e meio, que ajudou a estruturar a ONG, trabalha com captação de recursos para o terceiro setor. É ela quem coordena o "desembarque" das mães - atrapalhadas com seus carrinhos, sacolas e todo o arsenal dos bebês - na entrada do cinema. "Atrasos são comuns e, por isso, há uma tolerância da bilheteria, que fica aberta até as 14h40", fala Ana, que também é responsável pelos achados e perdidos da turminha, como fraldas, nécessaires, paninhos bordados e afins. Irene conta que, no Brasil, a iniciativa é pioneira, mas que já viu sessões parecidas em Nova Iorque. " A ideia é levar o CineMaterna para o Rio, Salvador e outras cidades. Estamos batalhando patrocínio para tanto."

Mas o projeto vai muito além do entretenimento. Nada como o ombro de outra mãe para dividir as dúvidas, inseguranças e desabafos do estressante período pós-parto. "Principalmente as mães de primeira viagem, que vivem 24 horas em função dos bebês, sentem necessidade de sair um pouco de casa para espairecer", falam as organizadoras. Irene e Alexandra, por exemplo, contam que, nas primeiras idas ao cinema, ambas esticavam o papo num café próximo até as 8 da noite. "Das 6 da tarde às 8, que a gente chama de hora da Ave-Maria, parece que é uma regra todos os bebês ficarem irritadiços. Então a gente dava um tempo para ganhar fôlego e encarar o turno da noite."

Por sinal, as cinéfilas podem interagir no site http://www.cinematerna.org.br, cujo conteúdo também traz depoimentos de médicos, opinando sobre os primeiros passeios dos recém-nascidos. "Uma dúvida comum é quanto às saídas do bebê. Segundo os médicos, a hora certa é quando a mãe se sentir segura. Já tivemos bebês com 11 dias no cinema", contam elas.

APROVAÇÃO TOTAL

Em janeiro, apesar do clima chuvoso, mães (e alguns raros pais) não paravam de chegar ao Espaço Unibanco, para a sessão de terça do filme "Um Amor de Vizinho". O público era formado tanto por mães conhecidas do grupo, como por muitas que tinham vindo pela primeira vez. Todas eram recebidas com o mesmo carinho, e o clima de descontração propiciava a aproximação e a formação de novas amizades.

Foi assim com as amigas Gabriela Reis e Karina Kohatsu, que coordenam os encontros das mães que usam o metrô. "Muitas deixavam de vir por não terem carro. Hoje somos dez e nos encontramos na estação Ana Rosa." Para Gabriela, as idas ao cinema melhoram até o humor das mães, para a alegria dos maridos.

As "calouras" Luana Pagliuso, mãe de Sofia, de 4 meses, e Aline Yamada, mãe de Pedro, de 2 meses, traduzem em uma só palavra a escapada ao cineminha à tarde: respirar. "É gostoso sair de casa, falar de outros assuntos, ver gente", comentam. Sorridente e de vivos olhos azuis, Felipe, de 8 meses, parecia estar curtindo o programa, aninhado no colo da mãe, a arquiteta Katlein Marsulo. Pela primeira vez no CineMaterna, ela só tinha receio de como Felipe se comportaria no cinema. "Acho a iniciativa excelente, porque a interação de mães e crianças também acaba acontecendo", diz ela.

O casal Liliane e Alexandre Libanori, pais de Matheus, de 1 ano e 3 meses, também eram novatos na sessão de cinema. "Recebi a programação por e-mail e resolvemos vir. Acho a ideia ótima, porque adoramos ir ao cinema e não temos com quem deixar o Matheus", disse Liliane. Alexandre, por sua vez, não estava nem um pouco inibido no meio de tantas mulheres.

Tatiana Pugliesi, mãe de João Carlos, de 5 meses, já é habitué das sessões. "Soube por meio de amigas, vim e achei bem tranquilo. A gente se atualiza, e assiste aos filmes que estão em cartaz, é muito bom. Acho que outras salas de cinema deveriam seguir o mesmo exemplo", opina.

 

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