25/11/2008 - 16:15 (atualizada em 25/11/2008 16:19)
Solidão faz parte da condição humana e quem foge dela acaba ainda mais sozinho
Precisamos de amor e de amigos, de carinho e de vínculos, ou seja, precisamos dos outros; mas também não é novidade que certo grau de solidão é parte indissociável da vida
Já deve ter dado para perceber que nós, humanos, temos necessidade de estabelecer trocas. De todo tipo. Físicas e espirituais, intelectuais e afetivas, verbais e não verbais, eventuais e íntimas. Sem querer ofender ninguém, mas cá entre nós, somos limitados, frágeis, incompletos.
Precisamos de vínculos, conexões reais, relações significativas; amigos, amores, família, conhecidos, bichos; compreensão, carinho, desafio. Ou seja: precisamos dos outros. Mas também não é novidade que certo grau de solidão é parte indissociável da vida. O duro é entender e aceitar essa tal “solidão essencial”, aprender a conviver com ela, transformar seu sentido trágico em beleza – para chegar a senti-la como experiência válida, fundamental, única.
Mas o que é essa solidão? Na verdade, a palavra define um saco misturado de sentimentos, ligados não apenas à nossa falta de relações, mas também ao grau de conforto que sentimos em estar na nossa própria pele e à maneira como percebemos o mundo em volta. Ou seja: é algo que acontece dentro, e não fora, das pessoas. “A queixa é de ausência de companhia externa, mas solidão tem a ver com a realidade interna. Pode ser vivida por gente com vínculos”, diz a psicanalista Lucila Porto Pato, de São Paulo.
Solidão “ruim” é viver a ausência de companhia não como uma privação circunstancial, que pode e deve ser revertida, mas com a sensação de que fizemos algo de errado para merecê-lo. Ou de que ela nos torna piores, estranhos, excluídos, inadequados, fracos, fracassados. Dolorosa, essa solidão se associa a sensações de desconexão, isolamento, incomunicabilidade, vazio. Costuma esconder frustrações de relações passadas, dificuldades de relacionamento e o desconforto clássico de quem não sabe o que fazer do próprio tempo – e/ou não consegue usufrui-lo com prazer.
Solidão amiga do peito Antes de ligar para o analista, porém, considere que a solidão pode ser boa. Para os existencialistas franceses, a descoberta da solidão é uma experiência necessária e libertadora. Corresponde ao momento em que entendemos que não há sentido dado para a existência – mas que, em contrapartida, temos livre-arbítrio e autonomia moral para viver conforme nossos próprios valores. Já para a psicanálise, a solidão “boa” é um estado de saúde interna, de integração psíquica, de silêncio.
“Somos povoados de conflitos. Nosso mundo interior é uma verdadeira assembléia”, explica Lucila. “Harmonizar essas vozes de dentro é estar só no bom sentido. E esse ‘estar só’ é o oposto da solidão. É estar bem acompanhado pela sua solidão.”
Solidão boa é aquela que não é vivida como perda ou diminuição, mas como ausência circunstancial de companhia – ou oportunidade preciosa para fazer coisas que não seriam possíveis se estivéssemos dividindo nosso cotidiano com alguém. De um prazer menorzinho, tipo assistir a 22 episódios do seriado Lost seguidos, até projetos maiores, desses que mudam a vida.
Enfiar a cara no trabalho para aproveitar um período de crescimento é infinitamente mais fácil quando não é preciso atender às demandas de um parceiro. Idem para decidir-se por fazer uma aventura louca, travessia oceânica, escalada no Nepal. Até organizar o próprio tempo para incluir a pós-graduação, a meditação e os amigos fica mais fácil quando se vive só.
Na solidão boa, em resumo, essas possibilidades são percebidas como ilimitadas. “Há um ganho na solidão”, diz Lucila. “Como no caso das mulheres que sobrevivem aos maridos e passam a administrar os bens da família. Elas criam um brilho. Uma perda pode nos permitir ter uma experiência inédita, o que só enriquece.”