Por mais de duas semanas o sentimento predominante é de tristeza e melancolia. Sensações de angústia, aperto no peito, ansiedade e desânimo acompanham. Tudo perde a graça, até mesmo as coisas que normalmente davam prazer. O estado psicológico acaba por comprometer o sono, o apetite e a disposição física.
A depressão é uma doença. Seus sintomas podem ser desencadeados pelo uso de medicamentos ou de drogas, pela abstinência das mesmas substâncias e até por outras doenças, como o hipotireoidismo e a artrite reumatóide.
Traumas súbitos também podem originar a depressão, que neste caso surge como uma “reação de ajustamento”, explica Geraldo Possendoro, psiquiatra, psicoterapeuta e especialista em medicina comportamental.
Há também a depressão unipolar (sem alternância no estado de humor), que desponta em pessoas com predisposição genética para a síndrome; distimia, um tipo particular de depressão crônica; a bipolar, que alterna fases eufóricas e depressivas; psicótica, que envolve delírios e alucinações; pós-parto; sazonal; e melancólica.
O psiquiatra Geraldo Possendoro defende o uso de antidepressivos no tratamento da doença sempre – as exceções são casos muito leves ou relacionados a drogas e doenças. A psicoterapia também tem papel fundamental na superação do problema.
“Vivo bem com ela”
As vítimas da depressão totalizam 121 milhões no mundo todo, sendo 17 milhões desse tota brasileiros. Para cada homem depressivo há duas mulheres, o que se justifica pela maior oscilação hormonal.
Cláudia*, 27, publicitária, sofre de depressão há cinco anos. Ela possui histórico na família e foi diagnosticada com dificuldade de reter serotonina, um hormônio que promove a sensação de bem-estar.
“No começo você acha que é TPM. Aí você vê que passa a época da TPM e continua”, conta ela. À época, Cláudia estava em um relacionamento amoroso ruim, sentia-se frustrada no trabalho e acredita que isso pode estar relacionado com a depressão.
Dois anos depois de receber alta dos remédios e da terapia, em 2007, Claudia sofreu uma recaída. “Eu estava sem emprego, morando com meus pais, aí voltou”.
Embora Cláudia reforce que sua depressão é uma condição química, ela deve muito de sua boa convivência com a doença a fatores externos. Ela conta que não pode parar de tomar os remédios e tem que “manter a cabeça ocupada”. “Eu era totalmente contra fazer academia, hoje eu vejo que faz uma grande diferença”, diz.
Níveis da doença
“Ao contrário do que normalmente se pensa, os fatores psicológicos e sociais muitas vezes são conseqüência e não causa da depressão”, explica um artigo de Ricardo Moreno, professor do Departamento de Psiquiatria e coordenador do Grupo de Doenças Afetivas do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP.
Tais conseqüências variam de acordo com a gravidade da doença. Uma depressão leve não costuma abalar o paciente a ponto de levá-lo a abandonar as atividades diárias. Nesse estado, ele trabalhará com esforço e reduzirá o desempenho e a qualidade de vida.
A dificuldade em manter as atividades profissionais, domésticas e sociais aumenta consideravelmente em um estágio intermediário de depressão – e mais ainda em um estágio avançado.
Gravemente depressivo, o indivíduo encontra dificuldade em descrever seus sintomas. Além daqueles já citados no início, ele pode sofrer de lentidão dos atos, culpa, baixa auto-estima e pensar constantemente no suicídio.
“As depressões graves também podem causar delírios (crenças irreais e irracionais, que não são compartilhadas pelos outros e não são passíveis de argumentação lógica) e alucinações (percepções e sensações fora da realidade, como ouvir vozes que não existem)”, diz o artigo de Ricardo Moreno.
Tristeza e depressão
“A depressão é uma tristeza que, mesmo que eu tenha argumentos pra justificá-la, considero que ela é intensa e duradoura desproporcionalmente”, explica Geraldo Possendoro.
Geralmente, a pessoa que está deprimida consegue perceber a sensação de tristeza constante e bem diferente de um amuo habitual ou do estado de luto. Ele perde o interesse e a força de vontade e tende a se isolar, diferentemente de quem só se sente triste.
Alguns, porém, procuram ocupar-se para esquecer a depressão e até se esforçam para aparentar bem-estar. “Essa luta mina as forças já abaladas pela própria depressão e aumenta ainda mais a irritabilidade e a impaciência”, diz Ricardo Moreno.
Procure saber se você sofre desse mal
Abaixo, estão os sintomas descritos pelo professor Ricardo Moreno que os depressivos costumam apresentar. Segundo ele, a identificação com os três primeiros itens e pelo menos dois dos seguintes é suficiente para caracterizar a depressão. Se isso acontecer, consulte um médico.
• Humor depressivo ou irritabilidade, ansiedade e angústia;
• Desânimo, cansaço fácil, necessidade de maior esforço para fazer as coisas;
• Diminuição ou incapacidade de sentir alegria e prazer em atividades anteriormente consideradas agradáveis;
• Desinteresse, falta de motivação e apatia;
• Falta de vontade e indecisão;
• Sentimentos de medo, insegurança, desesperança, desespero, desamparo e vazio;
• Pessimismo, idéias freqüentes e desproporcionais de culpa, baixa auto-estima, sensações de falta de sentido na vida, inutilidade, ruína, fracasso, doença ou morte. A pessoa pode desejar morrer, planejar uma forma de morrer ou tentar suicídio;
• Interpretação distorcida e negativa da realidade: tudo é visto sob a ótica depressiva, um tom “cinzento” para si, os outros e seu mundo;
• Dificuldade de concentração, raciocínio mais lento e esquecimento;
• Diminuição do desempenho sexual (pode até manter atividade sexual, mas sem a conotação prazerosa habitual) e da libido;
• Perda ou aumento do apetite e do peso;
• Insônia (dificuldade de conciliar o sono, múltiplos despertares ou sensação de sono muito superficial), despertar matinal precoce (geralmente duas horas antes do horário habitual) ou, menos freqüentemente, aumento do sono (dorme demais e mesmo assim fica com sono a maior parte do tempo);
• Dores e outros sintomas físicos não justificados por outros problemas médicos, como dores de barriga, má digestão, azia, diarréia, constipação, flatulência, tensão na nuca e nos ombros, dor de cabeça ou no corpo, sensação de corpo pesado ou de pressão no peito, entre outros.
* O nome foi trocado a pedido do entrevistado
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