06/01/2009 - 14:22 (atualizada em 06/01/2009 14:28)
Caminhar ganha status de atitude consciente e conquista cada vez mais adeptos
Mais do que uma maneira de se manter saudável, cada dia mais estudiosos, urbanistas e arquitetos defendem a necessidade de tratar esse hábito como um eficaz meio de transporte
De acordo com as estatísticas do Metrô, 2 milhões de pessoas circulam diariamente pela área central da cidade de São Paulo. Os dados apontam que, em número de usuários, andar a pé pela região tem o mesmo peso do transporte coletivo (1/3 das viagens são feitas totalmente a pé e 1/3 via transporte coletivo, mas com início ou conclusão a pé).
“A vantagem é que no primeiro caso, como recurso energético, se solicitam apenas suor e músculos, movidos a um bom prato de arroz com feijão”, diz a pesquisadora Maria Ermelina Malatesta, arquiteta com mestrado em transporte a pé pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, em entrevista à revista BONS FLUIDOS.
Meli, como é mais conhecida, trabalha há 30 anos com projetos que priorizam a circulação do pedestre nas ruas de São Paulo e acabou de defender sua tese na FAU. Conheça os principais pontos do estudo e as tendências para abrir mais espaço para pedestres. E saiba por que caminhar, embora seja o meio de transporte mais exercido, é o mais preterido na divisão do espaço urbano.
Calçadão x avenidas “Já viu o jornal da noite dar a manchete: ‘Congestionamento de pedestres na rua Barão de Itapetininga (onde circulam 14 mil pedestres por hora)?’”, diz, provocando, Meli. “Impossível, né? O que pouca gente sabe é que o movimento da rua Barão supera o da avenida 23 de Maio, uma importante via de acesso paulistana, com seus 12 mil veículos por hora passando num único sentido.
Esses dados ajudam a perceber o universo dos pedestres. Apesar disso, as necessidades deles ainda não são priorizadas. Entre os motivos, uma questão sociopolítica. No Brasil, os pedestres não se organizam em entidades, e a classe média, que é formadora de opinião e cobra soluções dos governantes, anda de carro e há tempos deixou de frequentar o centro.
Meio de transporte A pesquisadora Maria Ermelina Malatesta defende o andar a pé como a melhor alternativa para o impasse da mobilidade paulistana. Com tamanho entrave, o ir e vir sobre os próprios pés se apresenta como o meio mais rápido e sustentável para enfrentar o caos urbano. Resta saber se é viável mediante as distâncias e a falta de segurança.
Para começar, algumas atitudes simples são urgentes. É preciso investir na qualidade das calçadas. Além da providência óbvia de consertar buracos, desníveis e depressões, é necessário pensar na logística que envolve uma caminhada. Um posto policial próximo à esquina, por exemplo, atrapalha a visibilidade. “Motorista e pedestre não conseguem se ver”, explica ela.
Um tempo inadequado de espera pelo semáforo verde também tende a irritar o pedestre. “Quem anda a pé procura fazer o menor percurso no menor tempo possível. É uma questão biológica. Se tiver de esperar demais, o pedestre vai burlar as regras e cruzar fora da faixa ou entre os carros, correndo riscos”, adverte a especialista. Em 2005, de acordo com dados recentes da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), do total de mortos em acidentes de trânsito em São Paulo, 52% foram vítimas de atropelamento.
As saídas para melhorar o caos urbano dependem de vontade política. Mas tanto da parte dos viciados em automóvel como das autoridades. “Para que ir até a padaria de carro?”, provoca ela, propondo que percursos de até 2 km sejam feitos a pé. “Você leva cerca de meia hora curtindo a cidade e é melhor do que andar na esteira”, sugere. Das prefeituras, ela cobra fiscalização e multa. “Há tantas mesas de bar invadindo a faixa de 1,20 m destinada aos pedestres. A legislação existe, mas sem fiscalização ninguém cumpre”, argumenta.