27/11/2008 - 14:22 (atualizada em 27/11/2008 14:26)
Biblioteca pessoal pode revelar muito sobre o dono dos livros
Uma estante repleta de exemplares costuma ser uma espécie de biografia velada do proprietário daqueles volumes; aprenda como montar a sua e deixá-la sempre organizada
Guarde livros na vertical para não prejudicar impressão
Um colecionador de livros exibe seu acervo com uma mistura de orgulho e pudor. Livros são troféus, porque cada título desejado, encontrado, lido e guardado é uma conquista. Mas os itens de uma biblioteca pessoal são como o conteúdo da carteira, da bolsa, da geladeira – falam sobre você. Sobre a intimidade do seu pensamento, do seu imaginário.
“É sempre um recinto cheio de afetividade e significado”, diz Fernando Modesto, professor do Departamento de Biblioteconomia e Documentação da Universidade de São Paulo. Modesto explica que, além de livros e revistas, uma biblioteca pode abarcar também CDs, DVDs, documentos, álbuns. Tudo que guarde uma lembrança. Mas que também (e esse é o lado “ruim”) ocupa um espaço danado na casa.
Na Antiguidade, o político romano Marco Túlio Cícero escreveu que uma casa sem livros é como um corpo sem alma. Faça o que puder no espaço de que você dispõe – o importante é manter os livros por perto, como parte do cotidiano.
Uma biblioteca doméstica pode ser dispersa, dividida em estações estratégicas pela casa toda. A da bibliotecária e designer (de bibliotecas!) Cláudia Tarpani é assim. Os livros de trabalho estão no escritório. Na sala, ficam os de literatura. Os demais, sobre culinária, jardinagem e decoração, estão numa estante no fundo do corredor.
Mas, se você tiver aí na sua casa um recinto disponível, melhor. Mais espaço para os livros que você já tem – e os que virão. A arquiteta Helena Ayoub, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, explica que um quarto comum pode ser transformado em biblioteca, se tiver boa ventilação.
Você só deve evitar colocar prateleiras onde há incidência direta de luz solar. Mas até isso você pode resolver, com cortinas ou persianas. “Evite também colocar os livros nas paredes do quarto que dão para áreas molhadas da casa – banheiros, cozinha e área de serviço”, diz. Umidade excessiva deteriora os livros.
Como organizar uma biblioteca O mais importante, para bibliotecas de todos os tamanhos, é a organização. Há um lema na biblioteconomia que diz que, se você não consegue encontrar uma coisa, é como se ela não existisse. Quem tem um acervo grande pode cogitar contratar uma consultoria especializada – isso deve custar de 4 a 6 reais por livro.
Modesto, o professor de biblioteconomia, ganhou de presente da mulher um programa de computador que o ajudou a catalogar o acervo. O software que ele usa foi feito por um amigo, mas há hoje vários programas gratuitos do tipo disponíveis na rede. Você também pode optar por uma forma mais simples de fazer seu catálogo, usando apenas um editor de texto comum.
Para muita gente, organizar a própria biblioteca pode ser um trabalho delicioso e, portanto, intransferível. Mesmo porque os critérios de organização de um acervo doméstico só precisam fazer sentido para o dono.
Para cada dono, uma ordem Os professores e escritores Veronica Stigger e Eduardo Sterzi são casados em regime de separação de bibliotecas. No início deste ano, eles se mudaram para um apartamento maior, em que cada um pode organizar seu acervo em recintos distintos. Agora, são menores as chances de confusão. “Já comprei livro repetido e também deixei de comprar títulos por achar que já os tinha”, conta Veronica. Ela tem 3 mil livros – a maioria sobre arte e antropologia.
Sterzi, que ensina literatura, tem 6 mil. A coleção dele começou ainda na casa dos pais. A falta de espaço no quarto de solteiro fazia com que o professor precisasse empilhar parte do acervo no chão. Hoje ele sabe que livro não se guarda na posição horizontal. “O peso das páginas umas sobre as outras pode, com o tempo, alterar a composição química da tinta e do papel”, ensina Fernando Modesto, o professor de biblioteconomia.
O ensaísta alemão Walter Benjamin escreveu um texto sobre a delicada relação do colecionador com seus livros, intitulado “Desempacotando minha Biblioteca”. Para ele, o destino mais importante de todo exemplar é o encontro com o colecionador – e com a coleção. “Para o colecionador autêntico, a aquisição de um livro velho representa seu renascimento.”
Na tradução para o português, não fica muito claro se ele se refere aí ao renascimento do livro ou do colecionador. Não faz mal. Quem coleciona livros sabe que as duas interpretações fazem sentido.