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18/06/2010 - 15:42 (atualizada em 22/06/2010 17:18)

Cerveja típica da África perde espaço para bebidas de grandes corporações

Bebida feita do sorgo, cereal pouco conhecido no Brasil, também era usado como fonte de poder na África do Sul na virada do século 19 para o século 20, conta mestre cervejeira

Rafael Kato
Sorgo é tido como um dos principais cereais do mundo - Getty Images
Sorgo é tido como um dos principais cereais do mundo

O confronto entre modernidade e tradição afeta também a produção de cerveja da África. Cervejas feitas de sorgo, grão típico do continente, perdem cada vez mais espaço para cervejas de cevada, produzidas por grandes corporações.

“Toda fermentação de cereal resulta em cerveja. A matéria prima vária de região para região. Historicamente, são usados os cereais fornecidos pela terra local”, afirma Cilene Saorin, mestre cervejeira e sommelier de cerveja com graduação na Alemanha.

O cultivo de sorgo é vasto em muitas regiões africanas, como Nigéria , Etiópia e Sudão. Adapta-se bem ao clima árido e semi-árido. Apesar de ser pouco conhecido dos brasileiros, é tido como um dos cinco cereais mais importantes do mundo.

Cilene explica que, tecnicamente, não se percebe diferença entre a cerveja feita de cevada e a feita de sorgo. Ambas matérias-primas têm como produto final o álcool e não têm subprodutos – aromáticos, por exemplo – distintivos.

No entanto, hoje a cerveja de sorgo perdeu espaço para a produção industrial dominada pela cevada. “A cerveja de sorgo hoje é pouco disseminada e pouco consumida. Sobretudo por conta das grandes corporações cervejeiras”, explica a especialista.

Uma das maiores produtoras do mundo é a SABMiller (South African Breweries), fundada em Joanesburgo em 1895. Atualmente, é dona de marcas na Europa, Ásia e América, além, obviamente, de controlar o mercado de cerveja em seu país natal.

Além de tradicional, o cereal também era usado como poder no continente. Algo que, felizmente, deixou de existir. “Na África do Sul, na virada do século 19 para o século 20, a cerveja era tomada como moeda política. Usavam a bebida de sorgo para concentrar os negros em centros produtores, por exemplo”.

"Os brancos tinham nos negros a mão de obra mais barata e uma forma de atrair para os grandes centros produtores – não só de bebida, como de outros produtos - era usando a cerveja de sorgo como instrumento chave no entretenimento. Foi a forma de integrá-los e diverti-los. Era como se conseguia ter uma mão de obra feliz, entre aspas, e tranquila. Fazendo com que eles, os negros, se esquecessem do regime a que estavam submetidos", explica Cilene.

Para comemorar
Se o Brasil vencer a Copa do Mundo, Cilene recomenda um estilo de cerveja para comemorar: a Saison. Pouco conhecida dos brasileiros, ela “tem segunda fermentação em garrafa e costuma ser produzida por fazendeiros”, conta a mestre cervejeira. Algumas marcas que produzem este estilo são Dupont, Silly e Brooklyn Local 1.

O motivo da escolha? “Por ser um estilo franco-belga, a cerveja tem um gostinho de revanche da nossa derrota para a França na Copa de 2006”. 

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