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28/09/2010 - 11:51 (atualizada em 28/09/2010 11:57)

Em possível governo Dilma, PT pode viver "guerra" com PMDB

Segundo o professor José Eli da Veiga, da USP, as disputas entre as prováveis duas maiores bancadas do Congresso podem dificultar a gestão do próximo presidente

Luiza Furquim

O PT e o principal partido de sua coalizão, o PMDB, entrarão em guerra "assim que terminarem as eleições e começar a ser formado o governo", afirma o professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP, José Eli da Veiga, que aposta na vitória nas urnas da candidata petista Dilma Rousseff. "Aparentemente, o PMDB terá uma bancada até superior a do PT (no Congresso)", explica, reforçando a hipótese de que disputas internas poderão dificultar a gestão do próximo presidente.

Ele cita como exemplo o primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002, quando o presidente teria negado proposta de coligação com o PMDB. "Aparentemente (a recusa) foi um erro, porque provavelmente isso levou ao mensalão" diz. "O mensalão foi uma ducha de água fria que fez o Lula falar 'Nós vamos ter que fazer aliança com o (José) Sarney, com Renan (Calheiros), com (Jader) Barbalho'."

No entanto, o professor afirma que a aliança com os peemedebistas garante, em grande parte, o desfecho do pleito de outubro: "(O resultado das pesquisas de intenções de votos) mudaria muito se o PMDB tivesse lançado um candidato ou se, eventualmente, tivesse se alinhado ao Serra".

O professor Brasílio Sallum, da Faculdade de Ciências Sociais da USP, diz que "não vai ser fácil gerir o novo governo" porque o PMDB é, hoje, "todo estadualizado e dominado por grandes grupos clientelistas". Ele afirma que, ainda que o sistema de coalizões vigente no Brasil garanta estabilidade, dificulta a definição de uma orientação política única que determine o modo de agir dos partidos. "Embora os governos se apresentem como unitários, eles são uma colcha de retalhos." Cabe à Casa Civil e à presidência dar consistência aos vários programas.

Para Eli da Veiga, o conflito ameaça a promessa de continuidade das políticas do governo Lula, principal bandeira da candidatura de Dilma - e mesmo dos adversários. "Os eleitores vão votar pela continuidade, mas há uma interrogação", coloca. "E eu até diria mais. É provável que a Dilma, se presidente, tenha muitas vezes que tirar licença médica e o Michel Temer (do PMDB, vice da chapa) vai ser presidente. Tenho a impressão de que os eleitores não estão levando (isso) em conta."

“Quem quer que ganhe a eleição tem que levar (o PMDB) em conta, uma vez que temos esse regime de coalizão", diz André Singer, cientista político e professor da USP. Ele afirma que a presença do partido torna o sistema brasileiro "singular", uma vez que, ainda que o PMDB não dispute as eleições presidenciais desde 1994, "É um partido parlamentar majoritário, uma das maiores bancadas no Senado e na Câmara e tem governos em Estados importantes".

Mas, Eli da Veiga condena o sistema partidário de coalizão, que torna o presidente refém da "escória" política. "Esse tal de presidencialismo de coalizão é, na verdade, uma perversão. Significa que o presidente da República, eleito majoritariamente no segundo turno – necessariamente terá mais de 50% da população votando nele – chega lá e fica refém de tudo o que há de mais atrasado no País", diz. "Acho que (isso) nos coloca na frente de um dilema insuperável."

Recado das urnas
Continuidade. Esse é, segundo os professores, o recado que o eleitor quer passar por meio das pesquisas de intenção de votos. "A maioria do eleitorado quer que o conjunto de políticas que veio sendo implementado pelo governo Lula continue", explica Singer. Para ele, isso pode ser resumido em crescimento econômico com diminuição da pobreza e distribuição de renda.

Singer cita dados divulgados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), referentes ao período entre 2003 e 2008, segundo os quais o País verá a extinção da pobreza extrema – que se aplica aos domicílios onde a renda familiar per capita vai a até um quarto de salário mínimo – até 2016. Já a pobreza absoluta – aquela que abrange residências em que a renda vai até meio salário mínimo – ficaria reduzida a 4%.

Para Eli da Veiga, "o que interessa no fundo para a população é se o crescimento econômico resulta ou não numa renda familiar crescente, isso que a gente normalmente chama de poder de compra familiar". Segundo ele, o aumento do poder de compra das famílias no Brasil foi percentualmente maior do que o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), cuja média para os oito anos de governo Lula é de 4,5% ao ano. Além disso, enfatiza, "estamos em um mínimo quase histórico (na taxa) de desemprego".

Nessas circunstâncias, explica o professor, é criada uma situação em que seja qual for a proposta da oposição, é muito difícil que os adversários consigam desenvolver discurso próprio. "O máximo que a gente poderia discutir é se vai ter ou não segundo turno, em função desse rolo envolvendo a quebra de sigilo na Receita (Federal)."

Apesar dos dados positivos alcançados pela política econômica do governo, o aumento no gasto público corrente e a queda da taxa de investimento vão criar "um problema muito sério para o próximo presidente", diz Eli da Veiga. "Nós tínhamos que ter o compromisso de que o gasto público corrente não cresça tanto quanto o PIB", afirma o professor, para quem apenas a candidata do PV, Marina Silva, apresentou uma proposta concreta sobre o assunto: reduzir a alta dos gastos à metade do aumento do PIB.

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