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03/09/2010 - 13:12 (atualizada em 03/09/2010 14:29)

“Escândalo” preenche lacuna na campanha de Serra, diz cientista

Para Alberto Carlos Almeida, quebra de sigilo de pessoas ligadas ao PSDB terá pouco impacto no rumo das eleições 2010 e "não anula a grande maioria dos acertos" do PT aos olhos do eleitor

Luiza Furquim

A denúncia da quebra de sigilo fiscal do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge, da filha de José Serra e outras três pessoas ligadas ao partido esquentou a campanha presidencial das eleições 2010, que havia começado com debates mornos e de pouco impacto na TV. No entanto, para o cientista político Alberto Carlos Almeida*, diretor do Instituto Análise, o “escândalo” – que já se arrasta desde o início de julho – se tornou muito complexo para influenciar a decisão do eleitorado em outubro.

Em entrevista concedida ao Abril.com, Almeida diz que a história carece de teor simbólico, como o Caso Lunus, de 2002, quando a Polícia Federal (PF) apreendeu R$ 1,34 milhão na empresa Lunus, ligada a Roseana Sarney, que foi acusada dos crimes de formação de quadrilha, estelionato, falsidade ideológica e peculato e renunciou à disputa presidencial. O professor explica que a função do caso é preencher uma lacuna da campanha tucana que, segundo ele, carece de um projeto para o País, mas que as denúncias não devem ter impacto no rumo das eleições.

Na quarta-feira (1º), o candidato do PSDB José Serra classificou o PT e sua principal adversária na disputa eleitoral, a ex-ministra Dilma Rousseff, de “fascistas” e “sem caráter”. A declaração foi feita após reportagem do jornal “O Estado de S. Paulo” apontar que o sigilo fiscal da filha do candidato, Verônica Serra, também havia sido quebrado. As outras três pessoas ligadas ao partido que tiveram dados acessados são Luiz Carlos Mendonça de Barros (ex-ministros das Comunicações do governo Fernando Henrique Cardoso), Ricardo Sérgio (ex-diretor do Banco do Brasil, também no governo FHC) e Gregório Marin Preciado (casado com uma prima de Serra).

Segundo a campanha do PSDB, esses dados seriam usados para a criação de um dossiê contra a candidatura de Serra. A Receita sustenta que há um esquema de compra e venda de informações fiscais, mas decidiu tratar as violações como crimes comuns e negou qualquer motivação político-partidária. Já a Polícia Federal (PF), responsável pelo inquérito que produzirá as provas do caso, não descarta a possibilidade de crime eleitoral.

Confira os principais trechos da entrevista com Alberto Carlos Almeida abaixo.

Abril.com – A denúncia da quebra de sigilo fiscal de pessoas ligadas ao PSDB é de fato grave?

Alberto Carlos Almeida – (A acusação) tem que ser apurada. É óbvio que, se aconteceu uma violação de sigilo, é algo grave do ponto de vista jurídico, policial e democrático. Daí a isso ter um impacto eleitoral, no meu entender não haverá. (...) Em sendo ilegal é algo muito grave, em sendo parte de uma investigação da Receita sobre o patrimônio (de Eduardo Jorge) não é. Agora, qual o impacto que isso teria no processo eleitoral? Acho que o impacto será ou nulo ou muito pequeno.

Abril.com – A oposição está tentando criar um fato político?

Almeida – Acho que sim. É uma coisa meio desesperada e será completamente inócua. O eleitorado decidiu simplesmente votar para manter um governo que ele avalia bem e que é considerado um governo que acerta muito mais do que erra. O eleitorado pode considerar a quebra de sigilo um erro do governo, mas isso não anula a grande maioria dos acertos, que é o motivo para se votar na Dilma.

Abril.com – Por que não haveria impacto nas eleições?

Almeida – Nós já passamos por vários episódios semelhantes, sendo o mais conhecido o mensalão, em que você teve um grande escândalo, com a CPI funcionando, com a CPI prorrogada e, no fim das contas, o governo estava lá e foi reeleito, passou um ano... O eleitorado tenderá a ver uma denúncia desse tipo, independente se é legal ou não, como desespero de perdedor, já que (a campanha do Serra) não tem nenhuma proposta, então sobrou isso para ela fazer.

A campanha do Serra é uma campanha surpreendentemente ruim. (O Serra é) alguém supostamente bem preparado – ele sempre vendeu essa imagem – e está fazendo uma campanha de quem não tem um diagnóstico do Brasil. Não existe um documento da campanha que diga como está a situação da economia no Brasil, qual é a situação da saúde, da educação, dos transportes... Esse é um documento que não foi gerado pela campanha. A campanha é mancamente de um tema só, a saúde, um tema municipal, estadual. É quase uma campanha de secretário da Saúde. Do ponto de vista nacional, é uma campanha vazia, oca. Isso (o escândalo) preencheria essa lacuna. (...) As pessoas que vão votar no Serra votam porque não gostam do PT, não porque aprovam o Serra. (...) Se você olha o programa de TV do Serra não há uma proposta para o Brasil. Tem uma proposta para a área de saúde e acabou. Então qualquer escândalo ajuda a preencher o tempo de campanha, ajuda a preencher o discurso.

Abril.com – A ligação entre as quatro pessoas que tiveram dados acessados inicialmente - Eduardo Jorge, Luiz Carlos Mendonça de Barros (ex-ministros das Comunicações de FHC), Ricardo Sérgio (ex-diretor do Banco do Brasil, também no governo FHC) e Gregório Marin Preciado (casado com uma prima de José Serra, candidato do PSDB à Presidência) - é suficiente para supor que tucanos estavam sendo alvo de investigação com vistas à atrapalhar a campanha de Serra? (Nota da Redação – a entrevista foi feita antes da notícia da violação do sigilo fiscal de Verônica Serra)

Almeida – Do ponto de vista do eleitor, não é tão claro que essa ligação seja suficiente. Não é algo óbvio. Em geral esses escândalos funcionam mais quando existe uma coisa simbólica de grande impacto, como com a Roseana Sarney (Caso Lunus, que tirou Roseana da disputa presidencial de 2002). Era uma montanha de dinheiro, em notas de R$ 50 em cima da mesa, que passou na televisão por vários dias, um cheque assinado... Quando a coisa é confusa ou muito complexa, como é o caso do mensalão, não tem impacto simbólico que mexa com o eleitor. E no caso (de Eduardo Jorge) não há impacto simbólico.

Abril.com – A oposição vem constantemente acusando o governo de usar a máquina pública para favorecer a candidata do PT. Em alguns casos, há dados mais concretos para sustentar essa reclamação, como, por exemplo, as coincidências de agenda entre o presidente Lula e os locais de campanha de Dilma Rousseff. Qual a dificuldade para o TSE investigar essas denúncias, junto com as da quebra de sigilo, quando o presidente tem aprovação recorde da população e a candidata está com cerca de 50% das intenções de voto? Se confirmada a denúncia de que o governo utilizou a máquina pública para favorecer a campanha petista, o TSE poderia impugnar a candidatura de Dilma?

Almeida – Acho improvável (que o TSE impugne a candidatura de Dilma), porque todo julgamento tem um conteúdo jurídico, mas existe também um conteúdo político. Se você tem um candidato do governo, que é o favorito e tem a preferência eleitoral, seria muito difícil eliminá-lo. O eleitorado não seria representado se não tivesse esse candidato. O custo político disso é muito mais alto do que o benefício jurídico. Não que isso seja sempre assim. A Justiça se tornou muito mais atuante e a tendência é de que ela se tornar cada vez mais atuante, mas isso não acontece da noite para o dia.

Abril.com – Mas o TSE poderia fazer um julgamento estritamente jurídico, sem nenhum conteúdo político?

Almeida – Eu acho muito difícil. O próprio tribunal é o Tribunal Superior Eleitoral. É praticamente impossível ignorar a variável eleitoral nessa história. O componente político é relevante. Ele pode não ser o mais importante - na maioria dos casos não é - mas ele acaba fazendo diferença. O custo político é mais alto do que o benefício jurídico, então é melhor não tomar essa decisão (pela cassação).

Abril.com – E por que o PT precisaria fazer um dossiê contra os tucanos se a popularidade do presidente é recorde e Dilma lidera as pesquisas de intenção de votos?

Almeida – A aprovação não seria vista (pelo PT) como suficiente. O fato de eu provar matematicamente não significa que eles acreditem que seja assim. Se eles não acreditarem nisso, eles partem para o dossiê. É uma questão de diferença de perspectiva. Eles podem pensar que, apesar de toda a avaliação positiva, é uma eleição duríssima. Portanto, teriam que se preparar. Isso significa ter um dossiê contra o candidato da oposição. É compreensível que se gere esse tipo de dossiê.

Abril.com – Como assim?

Almeida – Eu falei o seguinte: eles (o PT) não acreditam na mesma coisa que eu acredito. Eu acredito e provo que, com a avaliação do Lula, você não precisa de dossiê para ganhar a eleição. Só que não adianta você falar isso para eles, porque eles vão dizer “Não, não... É insuficiente, eu preciso de um dossiê”. É a crença deles. Eles não acreditam que a avaliação seja suficiente para ganhar a eleição, quando de fato ela é. Por isso fazem guerra de dossiês durante a campanha. (...) Essa é uma denúncia com objetivo político. O caso da Roseana (Sarney) foi isso. Isso é uma arma que é parte do jogo político. Um ataca o outro: teve a CPI do mensalão, no governo Fernando Henrique teve a CPI da violação do painel do Senado... Existem escândalos de corrupção, de dossiês, de quebra de sigilo, cartão corporativo, Arruda (José Roberto Arruda, ex-governador do DF)... Isso é uma arma de guerra política. E essa arma de guerra política não precisava ser usada agora dada a avassaladora avaliação positiva do governo, só que eles não acreditam nisso.

*Alberto Carlos Almeida é diretor do Instituto Análise e diretor de planejamento da Ipsos Public Affairs. Ele é doutor em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), colunista do jornal “Valor Econômico”, professor adjunto da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisador do Fundação Getúlio Vargas (FGV) do Rio. Escreveu livros como “Presidencialismo, parlamentarismo e crise política no Brasil” (Eduff, 1998), “Como são feitas as pesquisas eleitorais e de opinião” (FGV, 2002), “Por que Lula?” (Record, 2006), “A cabeça do brasileiro” (Record, 2007), e “A cabeça do eleitor” (Record, 2008).

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