Esportes

27/06/2008 - 19:23 (atualizada em 03/09/2008 23:57)

Como a psicologia ajudou o Brasil a ganhar a Copa de 1958

Psicologia ganha jogo? O Brasil se fez pela 1ª vez a pergunta em 1958 e concluiu que sim. A seleção seria campeão sem "doidões" como Pelé, Garrincha, Gilmar?

Max Gehringer, da Placar

No álbum de figurinhas da seleção brasileira que foi campeã do Mundo em 1958 na Suécia apareceu, pela primeira vez no nosso futebol, um psicólogo. Era o Doutor João Carvalhaes, que não tinha o título de ¿Doutor¿ por acaso: ele se vestia como um Doutor.

Na concentração, enquanto os jogadores se divertiam no pebolim, todo mundo de calção, camiseta e chinelão, o Doutor Carvalhaes estava de terno escuro e gravata. E se comportava como um Doutor: jamais sorria numa foto e ainda usava uns óculos de enormes aros pretos, que lhe davam uma aparência, vamos dizer, de Doutor.

O Doutor Carvalhaes havia sido descoberto pelo manda-chuva da Seleção Brasileira, Paulo Machado de Carvalho ¿ também dirigente do São Paulo, vice-presidente da CBD e dono da TV Record. Na verdade um sociólogo de formação, o Doutor era o responsável pelos testes de admissão de motoristas e cobradores na CMTC, a companhia de ônibus urbano da cidade de São Paulo.

Hoje, avaliar psicologicamente o candidato a um emprego pode até parecer normal, mas na época isso era uma tremenda novidade. E um psicólogo num time de futebol, então, parecia idéia de astronauta.

O personagem seguinte da história que casou a psicologia com o futebol é Vicente Feola, o técnico da Seleção de 1958. Aos 48 anos, Feola já tinha passado por dois dissabores em sua carreira: na Copa de 1950, como auxiliar do técnico Flávio Costa, viu o Brasil sucumbir à pressão e perder a final para o Uruguai.

Em 1954, na Copa da Suíça, Feola testemunhou a eliminação do Brasil pela Hungria, num jogo em que nossos craques e dirigentes perderam o prumo e brindaram a torcida com um festival de rabos-de-arraia, que começou no campo e só acabou dentro dos vestiários húngaros.

Depois dos dois desastres, todos ficaram convencidos de que nossos jogadores, embora habilidosos, tinham alguma disfunção psicológica e reagiam como crianças na hora da responsabilidade: ou fugiam dela, ou partiam para o tapa. Sociólogos até levantaram a tese de que a mistura racial brasileira gerara um povo sem fibra. E os racistas culparam negros e mulatos, como se os brancos não tivessem tremido em 1950 ou se descontrolado em 1954.

Em 1957, o São Paulo foi campeão paulista, batendo o Corinthians num jogo nervoso, em que a vitória acabou sendo do time mais estável. Dirigentes são-paulinos, Paulo Machado de Carvalho e Vicente Feola se convenceram de que o Doutor Carvalhaes, então já contratado como psicólogo da equipe, havia sido importante, por conseguir ¿equilibrar¿ o talento natural e os nervos dos jogadores. Logo, eles concluíram, o Doutor seria indispensável também na Seleção, onde as tremedeiras costumavam ser maiores.

Antes do embarque para a Suécia, o Doutor aplicou aos jogadores os mesmos testes que aplicava na CMTC. Lá o importante era não contratar motoristas que tivessem tendência à impulsividade beligerante, ou seja, jogar o ônibus em cima de um Cadillac, ou ter um chilique e agredir os passageiros. Depois dos testes, o Doutor emitia um relatório, onde mostrava o nível cultural dos jogadores e tentava prever quais deles se perderiam em campo pelo excesso ou falta de agressividade.

No geral, os resultados foram desastrosos: Pelé era apenas ¿mediano¿ (tirou nota 5,5 numa escala de zero a dez). Mas o pior foi Garrincha, que tirou 3 e escapou raspando da qualificação de ¿débil mental¿. Na CMTC, com uma nota dessas, Garrincha não seria contratado nem para apertar parafuso de ônibus. Nem Pelé, nem Garrincha reuniam condições para encarar uma Copa do Mundo.

Talvez como reflexo das teorias racistas da ¿gente inferior¿, o Brasil fez os dois primeiros jogos na Suécia, contra Áustria e Inglaterra, com um time quase todo formado por brancos (dos 11, só Didi era negro). Na véspera do terceiro jogo, contra a Rússia, crucial para o Brasil, o Doutor Carvalhaes reprovou o goleiro titular, Gilmar, por sua incapacidade de desenhar duas linhas paralelas. Aquilo era, segundo o Doutor, um claro sinal de nervosismo. Mas Feola e Paulo Machado de Carvalho, que precisavam da vitória, esqueceram a psicologia e arriscaram.

Graças a Pelé e Garrincha, que estreavam na Copa, demos um banho de bola na Rússia. E durante os 90 minutos ambos se comportaram exatamente como o Doutor Carvalhaes havia previsto: de forma irresponsável, demolindo o adversário com jogadas de circo. A partir daí, o Brasil triturou os adversários e venceu sua primeira Copa. Como por aqui quando se ganha tudo se esquece, o Doutor Carvalhaes foi glorificado: afinal, nós éramos a única seleção que havia levado um psicólogo para a Suécia e havíamos sido campeões do mundo. Dali em diante, psicólogos passaram a fazer parte da comissão técnica de qualquer país.

Mas é aí que entra a quarta figurinha do álbum de dirigentes de 1958: também fez parte da delegação brasileira um dentista, o Doutor Mário Trigo. Ele era um emérito contador de piadas e descontraía tanto o ambiente que foi incluído na turma que viajou para a Suécia mesmo sem ter nada para fazer por lá. Na Suécia, enquanto o Doutor Carvalhaes era evitado pelos jogadores, Trigo fazia parte das brincadeiras. Ele foi o psicólogo sem diploma da Seleção.

Hoje em dia, a psicologia tem pelo menos ajudado nossos craques a caprichar na linguagem quando dão entrevistas. Mas, na prática, ela não tem gerado aquela ¿motivação e superação¿ que se transforma em resultados: até a queda de Luxemburgo, fomos sonolentos nas Eliminatórias e medíocres em Sydney (onde um destemperado Lúcio até deu uma cabeçada em Roger porque Roger não lhe passou uma bola, e a psicóloga da Seleção, do fundo do poço da amargura, disse que assistir à derrota para Camarões foi como ¿ver a família morrer num desastre¿). Como a psicologia, outras ciências invadiram o campo nos últimos anos. Nada contra o progresso. Mas quem sabe o que ainda esteja faltando para ajudar o nosso futebol a recuperar sua velha alegria seja mesmo aquele bom e esquecido contador de piadas...

*Fonte: revista ¿Placar¿, publicada originalmente na edição 06a, de 01/11/2000, páginas 92-93

 
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