Esportes

27/06/2008 - 19:20 (atualizada em 03/09/2008 23:57)

Há 50 anos, Brasil conquistava a Copa do Mundo pela primeira vez

Seleção brasileira supera traumas anteriores, consegue a sonhada taça do mundo e dá o primeiro passo para se tornar o "país do futebol"

Da Redação

Em 1958, o mundo viu nascer a boneca Barbie, a Bossa Nova e a magia da seleção brasileira. Depois décadas de derrotas sofridas, pela primeira vez na história o torcedor brasileiro pôde bater no peito e gritar "é campeão!". A festa se repetiu outras quatro vezes nos últimos 50 anos e virou até chavão dizer que o Brasil é o país do futebol. Quem vê a seleção em campo hoje pode até pensar que a realidade é a mesma desde a criação do universo. Mas não foi sempre assim. Antes do título da Copa do Mundo de 1958, o Brasil era um país diferente.

O grande destaque do esporte nacional não jogava futebol, mas tênis. Era a jovem Maria Esther Bueno, campeã de duplas do tradicional torneio de Wimbledon naquele ano. O rock de Tony e Celly Campelo ensaiavam os primeiros acordes, e Roberto Carlos e Tim Maia ainda tocavam juntos nos Sputiniks.

Naquela época, psicólogos de academia e de armazéns explicavam que a mistura de raças do povo brasileiro dava origem a jogadores de futebol emocionalmente instáveis. Jornalistas apostavam nas derrotas porque "brasileiro não tinha caráter". Para o cronista Nelson Rodrigues, o país tinha complexo de vira-latas. Quando expostos a grande pressão, os atletas se acovardavam, como contra o Uruguai, em 1950, no traumatizante "Maracanazzo", ou partiam para a pancadaria, como contra a Hungria, em 1954.

O complexo de inferioridade era tão intenso que a seleção tinha mais prestígio na Europa do que em seu próprio país. Antes do Mundial de 1958 começar, uma pesquisa feita entre jornalistas estrangeiros já apontava o Brasil como favorito ao título. Para a revista "France Football", "só faltava controlar os nervos". O torcedor sabia que a seleção contava com craques indiscutíveis, como Didi e Nilton Santos, e grandes promessas, como Pelé e Garrincha. Mas achava que, como sempre, ia entregar o ouro.

Ao contrário dos mundiais anteriores, porém, desta vez a CBD (Confederação Brasileira de Desportos) havia se organizado para evitar uma nova tragédia. Para chefiar a delegação que viajaria à Suécia, escolheu o metódico e supersticiosoPaulo Machado de Carvalho, dirigente do São Paulo e dono da TV "Record". O dirigente decidiu, pela primeira vez, convidar médico, psicólogo, dentista e até um padre para acompanhar os jogadores.

Era uma iniciativa tão inovadora que muitos dos convocados nunca tinham feito um exame dentário sequer. Seguro de que inflamações na boca poderiam atrapalhar o rendimento, o dentista Mário Trigo não teve pena dos craques. Da boca de um deles, arrancou, às vésperas do embarque para a Suécia, 14 dentes completamente podres.

Com a organização que nunca teve fora de campo, os craques "sobraram", e a equipe brilhou nos gramados da Suécia. O grupo tinha seis jogadores escolhidos pela revista "Placar" para a seleção brasileira de todos os tempos. A equipe era tão boa que o treinador Vicente Feola se deu ao luxo de começar o Mundial com Pelé e Garrincha no banco. O craque da época era outro: o botafoguense Didi, de futebol tão elegante que era chamado de "Príncipe Etíope". Com ele em grande forma, a seleção estreou bem e venceu por 3 a 0 um adversário encardido, a Áustria, semifinalista na Copa anterior.

Na vitoriosa campanha pelo título, o Brasil protagonizou até o primeiro 0 a 0 da história dos Mundiais, contra a Inglaterra. Nas oitavas-de-final, não tomou conhecimento dos robóticos soviéticos, que passavam intermináveis horas por dia em treinos físicos. Pois foi justamente para combater a força física e a cintura dura dos rivais que Feola arriscou e deu ao mundo duas gratas surpresas. Tirou do time Mazola e Joel e escalou Pelé e Garrincha.

Assim, com pouca convicção, perguntando se fizera a coisa certa a jogadores mais experientes, o treinador eliminou, de uma só vez, dois problemas. Venceu os temidos soviéticos e ainda enterrou de vez o tal "complexo de vira-latas" do brasileiro. Isso porque, na primeira bola do jogo, Garrincha passou pelo seu marcador como se ele não existisse e carimbou a trave do goleirão Yashin. Um minuto depois, Pelé acertou o travessão. Abusada e cheia de confiança, a dupla não se acovardou diante dos adversários.

O espírito acabou contagiando todo o grupo. Depois de passar pelos soviéticos, a seleção eliminou o retrancado País de Gales, a França do artilheiro Fontaine e, na final, massacrou os donos da casa. Na decisão, Pelé marcou um dos gols mais bonitos da história das Copas, ao matar a bola no peito dentro da área, dar um chapéu no zagueiro e chutar no canto do goleiro sueco. O garoto de 17 anos se transformou no jogador mais jovem a fazer gol e se sagrar campeão de um Mundial.O feito fez com que ele recebesse dos franceses o apelido de "Le Roi", "O Rei".

Pena que os brasileiros só assistiram aos lances três dias depois da partida. Em 1958, esse era o tempo que as fitas levavam para sair da Suécia e chegar ao Brasil. Mesmo assim, ninguém deixou de comemorar. Primeiro, porque aquela era a primeira vez que imagens de um mundial eram transmitidas por videoteipe. Segundo, porque, antes do início do torneio, poucos apostavam no título, o primeiro de uma seleção fora de seu continente.

O entusiasmo foi tanto que, em todo o Brasil, rojões e foguetes sumiram das prateleiras e deixaram de ser vendidos para serem leiloados. Da Suécia até o Rio de Janeiro, a viagem dos campeões também foi uma festa digna do feito. Os atletas desceram do avião para desfilar em carro aberto em Lisboa e no Recife. Na capital pernambucana, tiveram que ser resgatados pelo avião presidencial. Caso contrário, passariam meses comemorando ao som do frevo.

Entre deixar a Suécia e deitar a cabeça no travesseiro, em casa, os jogadores passaram 43 horas acordados. Foram despertados em seguida, com milhares de rádio entoando a música que virou lema da conquista: "A taça do mundo é nossa". Os campeões viraram figurinhas de álbum e garotos-propaganda de bicicletas e de sofás-cama, sem receber um centavo sequer. Naquela época, era assim mesmo. Os brasileiros e seus craques estavam apenas se acostumando a serem do país do futebol".

Divulgação
Brasil posa para foto oficial antes da conquista de sua primeira Copa do Mundo
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