Esportes

27/06/2008 - 19:19 (atualizada em 03/09/2008 23:57)

Com brasileiro, não há quem possa

A volta da seleção após a Copa de 1958 virou uma comemoração interminável no país do futebol

Da Placar Especial

No Brasil, já faltavam fogos de artifício. A semifinal contra a França tinha sido no Dia de São João e a final contra a Suécia, no de São Pedro. Horas após a decisão, os rojões e foguetes marca Caramuru (¿os únicos que não dão chabu¿) já nem eram mais vendidos, mas leiloados. E o retorno da Seleção se transformou numa comemoração interminável.

O mesmo DC-7 da Panair da ida levantou vôo de Estocolmo na manhã de 1º de julho e fez escalas técnicas em Londres, Paris e Lisboa. Nas duas primeiras, diplomatas e agregados brindaram os campeões com coquetéis e canapés, no aeroporto. Mas em Lisboa os jogadores foram gentilmente desembarcados para desfilar pelas ruas. De Portugal, o avião seguiu para o Recife.

Lá ¿ debaixo de chuva ¿ todos desfilaram em caminhões e ouviram discursos na sede do governo pernambucano. Se o presidente Juscelino Kubitschek não tivesse mandado o avião presidencial ¿ um Viscount ¿ para resgatá-los, os atletas passariam o mês inteiro na cidade. Às 8 da noite de 2 de julho a delegação desceu no Galeão e empoleirou-se num carro do corpo de bombeiros para ir até o palácio do Catete, sede do governo federal, no centro do Rio de Janeiro.

Duas horas depois, a revista O Cruzeiro, que havia levado as famílias dos jogadores para o Rio sem que eles nem desconfiassem, desviou o caminhão e conduziu os craques para a festa da vitória, no prédio das Emissoras Associadas. O local estava cheio de convidados, inclusive a Miss Brasil 1958. O maestro Pixinguinha e seu conjunto Velha Guarda abrilhantaram a recepção e já passava da meia-noite quando a Seleção conseguiu seguir até o Catete, para ser recebida por Juscelino. O presidente a esperava do lado de fora com um discurso prontinho e outra multidão aplaudindo em delírio. Entre abraços, brindes e mais discursos, todos ficaram no palanque até de madrugada.

Sambando com a bola
Quando, finalmente, os jogadores conseguiram dormir ¿ 43 horas depois do embarque na Suécia e sem trocar de roupa uma única vez ¿, nem chegaram a pegar no sono. Aos primeiros raios da alvorada todos os rádios já estavam tocando, no último volume, a mesma música, cantada pelo Coral do Caneco: ¿A taça do mundo é nossa / Com brasileiro não há quem possa / Ê¿êta esquadrão de ouro / É bom de samba / É bom no couro / O brasileiro lá no estrangeiro / Mostrou o futebol como é que é / Ganhou a taça do mundo / Sambando com a bola no pé / Goool!¿. A composição, curtinha, parecia mais um jingle, e era mesmo: seus autores, Victor Dagô, Lauro Müller, Wagner Maugeri e Maugeri Sobrinho, eram publicitários. O jornalista e compositor paulista Alfredo Borba também lançou uma marcha-homenagem, com cara de um hino patriótico: ¿Verde, amarelo, cor de anil / São as cores do Brasil / Vencemos o mundo inteiro / Maior no futebol é o brasileiro / Salve a CBD / Jogadores, diretores / Salve a raça varonil / Campeão do mundo, Brasil!¿.

O sucesso da seleção não podia apenas ser ouvido, mas também vendido. A fábrica de camisas Detex ofereceu a cada atleta seis camisas sociais de popeline, de fino acabamento. E publicou nos jornais paulistas o fac-símile do telegrama enviado ao doutor Paulo Machado de Carvalho, na Suécia ¿ o preço dos anúncios era muitas vezes maior do que o valor da gentil oferta. Dezenas de outras empresas, que fabricavam de bicicletas a sofás-cama, aproveitaram a fama dos campeões, transformando-os em garotos-propaganda. Na primeira semana após a Copa já havia três álbuns de figurinhas no mercado, mas os jogadores não viram um centavo sequer das receitas. Como prêmio pela conquista da Copa, cada um recebeu da CBD uma gratificação igual a um mês de salário. Mas naquele tempo era assim mesmo. Para os torcedores, o que importava é que o Brasil era campeão. E, nos quatro anos seguintes, não houve jornalista ou torcedor, no mundo inteiro, que não apontasse a nossa Seleção como favorita para conquistar também a Copa de 1962, no Chile.

Adalgisa Colombo foi eleita Miss Brasil em 1958. Naquele tempo era chic ser miss (e os pais ainda batizavam as filhas como Adalgisa). Na festa promovida pela revista O Cruzeiro, ela sapecou uma beijoca na bochecha de um Bellini visivelmente derrubado de cansaço e sono, que teve de ser penteado e empoado para sair bem na foto.

*Fonte: revista ¿Placar Especial¿, publicada originalmente na edição 06a, de 01/02/2006, páginas 46-47

 
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