Esportes

27/06/2008 - 19:15 (atualizada em 03/09/2008 23:57)

Ex-dentista da seleção, Mário Trigo se diverte com histórias das Copas

Em entrevista concedida em 2001, ex-dentista das seleções de 1958, 1962 e 1970 não perde o humor, nem quando vê em que se transformou o futebol brasileiro

André Fontenelle, da Placar

Com a morte, em agosto passado, de Abílio de Almeida, secretário da delegação brasileira à Copa de 1958, a memória daquela comissão técnica se limita a poucos nomes: o preparador físico Paulo Amaral, 78 anos, e o dentista Mário Trigo, 90 anos completados no último dia 2 de agosto. Se depender da memória do dr. Trigo, a história daquela conquista não se perderá. Além de se lembrar de todos os detalhes, ele está preparando um livro, que será lançado na época da próxima Copa do Mundo.

A carreira de Trigo como dentista da Seleção foi particularmente sortuda. Ele participou da comissão técnica brasileira em quatro Copas, justamente na fase de ouro entre 1958 e 1970 ¿ embora nesta última ele tenha participado apenas da fase preparatória, não tendo feito a viagem até o México. Anedotas para o livro não faltarão.

A contribuição da odontologia para o Tri foi maior do que se imagina. Trigo aplicou ao futebol uma teoria aprendida nos bancos da antiga Universidade do Brasil, no Rio: a ¿repercussão à distância¿. Segundo ela, focos dentários debilitam todo o corpo. No caso de jogadores de futebol, isso se traduz em uma maior demora na recuperação de lesões. Chamado para tratar do time de Feola antes do embarque para a Suécia, Trigo não deixou dente sobre dente ¿ chegou a arrancar 14 de um só jogador.

Mas se o serviço sujo já tinha sido feito em território brasileiro, para que a Seleção Brasileira enviava um dentista para a Copa do Mundo? Não havia dentistas na Suécia? É que o dr. Trigo, mais que dentista, se tornou um amuleto para o time. Melhorava o ambiente com seu bom humor proverbial e quebrava pequenos galhos dos jogadores. A delegação tinha um psicólogo ¿ João Carvalhaes, aquele que ficou famoso por ter vetado Garrincha num exame psicotécnico ¿, mas quem cuidava da cabeça do time, de verdade, era o dentista.

Hoje, mesmo sem perder o bom humor, o dr. Trigo vê com tristeza a laia que comanda o futebol brasileiro. ¿Gente como Juscelino, Pelé e Garrincha o Brasil não tem mais.¿ Tem Pelé, ainda, mas nem Pelé é mais unanimidade hoje em dia. ¿Ele foi ingênuo¿, diz o dentista, que quebrou muitos galhos para o Rei nos tempos de jogador e acredita na boa fé dele. ¿Ele só assinava.¿

*Fonte: revista ¿Placar¿, publicada originalmente na edição 1209, de 14/12/2001, página 11

 
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