Ele não foi uma paixão exclusiva da torcida do Botafogo, mas sim de toda uma nação. Mas os botafoguenses tiveram o privilégio de contar com o gênio de pernas tortas e dribles desconcertantes em seu time. Garrincha morreu três meses depois de PLACAR promover um histórico encontro entre ele e Pelé.
Por um desses episódios que são mescla de ironia e coincidência, a notícia da morte de Garrincha dada pelo ¿Times¿, de Londres, apareceu ao lado do necrológio de um professor da Universidade de Cambridge, Walter Ullmann, que contribuiu imensamente para o estudo da História Medieval. O ¿Times¿ referiu-se aos encantos do futebol de Garrincha, a um inesquecível gol que marcou contra a Inglaterra em Viña del Mar, na Copa de 1962, ao seu melancólico fim.
Só se esqueceu de mencionar que Garrincha foi também um notável contribuinte da história, no ramo do futebol, como um capítulo especial e incomparável. Até o ¿Financial Times¿, onde notícias de esporte são raridade, encontrou espaço na sua primeira página e informou: ¿Little bird dies¿ - ¿Morre o passarinho¿. No ¿Daily Telegraph¿, o cronista Donald Saunders recordou que ¿na tarde de um domingo em Viña del Mar, Chile, nem Ray Wilson, talvez o melhor lateral-esquerdo que já vestiu a camisa da Inglaterra, pôde enfrentar a magia de Garrincha¿.
¿Antes daquele Brasil 3 x 1 Inglaterra, achei que poderia dominá-lo¿, confessou o ex-lateral Wilson a Jader de Oliveira, de PLACAR, em Elland, onde vive, no interior da Inglaterra. ¿Mas Garrincha era tão rápido, tão esperto, que mesmo encurralado num espaço mínimo transformava esse espaço numa imensidão, sempre com a bola nos seus pés, como que atraída por gravitação. E você sabe que eu fiquei feliz com minha atuação, embora isso soasse absurdo?¿
Naquela mesma Copa do Chile, o tcheco Ladislau Novak mereceu a incumbência de parar o camisa 7 brasileiro. Nas oitavas-de-final, saiu-se bem (0 x 0). Na final (3 x 1), contudo, o atual técnico do Dukla Praga não resistiu ao gênio de Mané, de quem se despediu com uma comovida frase transmitida a Guilherme Dieken, de PLACAR: ¿Adeus, Garrincha, você deixa saudade¿.
¿Era impossível marcá-lo¿, define Novak. ¿Era um jogador imprevisível, a gente nunca sabia o que ele ia fazer com a bola. E ele era limpo, correto. Dava até orgulho tentar marcá-lo.¿
Na Suécia - onde Garrincha deixou um filho de 19 anos que vive em Halmstad e não chegou a conhecer - o habilidoso Gunnar Grenn, armador da Seleção que foi vice em 1958, comparou: ¿Ele, no lado de vocês, e Skoglund, no nosso lado, foram os grandes astros daquela Copa. E ambos morreram em condições semelhantes. Garrincha foi o maior mestre do drible de todos os tempos, um gênio da bola como jamais existirá outro¿.
O lendário Uwe Seeler, atacante da seleção da Alemanha Ocidental na década de 60, lembra Mané como ¿alguém de rara categoria mundial¿. O espanhol Abelardo, que fez o único gol da Espanha contra o Brasil naquela mesma Copa de 1962 (2 x 1), emocionou-se com a notícia que lhe foi dada por Roberto Levinstein, de PLACAR: ¿Não sei quantos de nós tiveram as pernas retorcidas por Garrincha, mas num Mundial isso foi motivo de orgulho, porque ele fazia, do nosso futebol, algo para se ter orgulho. Lamento não tê-lo enfrentado mais vezes¿.
Puskas lamentou ¿a perda de um grande amigo¿. Contemporâneos no futebol, enfrentaram-se várias vezes, por secções, clubes e até combinados. ¿Era simples como pessoa, mas uma jóia bastante rara¿, definiu.
Di Stefano, ex-treinador do Real Madrid, resumiu tudo numa frase: ¿Garrincha nos embriagou pela malícia e beleza do seu futebol¿.
Na Itália, o coro de lamentações ecoou por vários dias, como se Garrincha fosse da terra. O técnico Ferrucio Valcareggi, vice-campeão do mundo em 1970, resumiu: ¿Ele sempre demonstrou ter mais fantasia que Pelé, quando partia em velocidade. Era o mais louco de todos, mas era também único na sua raça¿.
Falcão invejou: ¿Meu sonho de criança era ser um ponta-direita como ele¿. Luís Vinícius de Meneses, atual técnico do Pisa, começou nos juvenis do Botafogo com Mané, e recordou a Danilo Scarrone, de PLACAR: ¿Jogávamos em dupla no ataque e o que mais me impressionava era sua generosidade. Mesmo depois de vários dribles nos adversários, era capaz de passar a bola para outro companheiro marcar o gol¿.
De passagem por Londres ¿ mora atualmente em Hong Kong ¿ o capitão Bobby Moore, campeão do mundo em 1966 e titular também em 62, apenas suspirou: ¿Ah, que grande jogador ele era... Dele, todos nós, que jogamos contra o Brasil em 1962, guardamos uma lembrança reverenciosa, apesar do fato de ter sido o homem que nos derrotou¿.
Drama até na hora da morte
No Brasil, milhares de pessoas compareceram ao enterro. Houve tumultos e gestos de desespero. Foi a última batalha na vida sofrida de Mané. Agora, tudo acabou. Descansa em paz, guerreiro.
Quando o caixão de Mané Garrincha, carregado por Djalma Dias, Brito e Bellini, deixou o Estádio do Maracanã ovacionado pela multidão, não houve como conter as lágrimas. Até na hora da morte, a vida foi difícil para Mané.
Vida que, desde 1979, se resumia à triste rotina de ir de casa ao bar (bebia conhaque com cerveja) e do bar ao hospital. Até as suas internações na clínica de repouso Alto da Boa Vista ¿ mais de uma dezena ¿ foram conturbadas nos últimos tempos. Em novembro, sua mulher, Vanderléia, fez uma grave denúncia: ¿Garrincha me contou que davam bebidas e até maconha aos pacientes¿.
Nessas idas e vindas aos hospitais, Mané sofreu tanto que já não conseguia mais conter sua amargura, justo ele que sempre levou tudo na brincadeira. ¿Nunca fui um gênio, apenas um palhaço que corria com a bola nos pés divertindo as pessoas¿, costumava dizer.
Mané morreu sentindo-se abandonado até mesmo pelos passarinhos, sua grande paixão. Mas que bom seria se ele pudesse ter visto a multidão que se comprimiu ao longo dos 56 km da estrada que liga o Rio a Pau Grande. Eram pessoas humildes, roupas simples no corpo, colhendo flores nos canteiros e lançando sobre o caixão.
Era tão querido que o povo de sua terra, na ânsia de despedir-se de seu ídolo, não permitiu sequer que o padre Juventino Cardoso, da Igreja de Sant¿Anna, rezasse a missa de corpo presente. Houve invasão e tumulto quando o caixão foi aberto pela última vez. Bancos foram quebrados e uma imagem de Jesus Cristo desabou no chão. Até na hora da morte as coisas ficaram difíceis para Mané.
Quando chegou ao cemitério de Vila Inhomirim, o cortejo esbarrou num penúltimo obstáculo: era preciso pagar os 4 600 cruzeiros pela cova, o que acabou sendo feito pelo cantor-deputado federal Agnaldo Timóteo. Pior: na hora de baixar o caixão à sepultura descobriu-se que ele era maior que a vala aberta no solo. Contornada mais esta dificuldade, finalmente, às 12h45 de sexta-feira, Mané Garrincha foi sepultado, sob os olhares de milhares de fãs.
Pelé não apareceu, mas mandou flores. Ao final do enterro, seu nome, associado a adjetivos nada elogiosos, foi gritado insistentemente por algumas pessoas. Só o forte clima de comoção e desespero pode explicar tamanha injustiça: Pelé não tem nenhuma responsabilidade na tragédia em que se transformou a vida de Mané. Enlamear-lhe a reputação não vai tornar Garrincha maior do que ele é, nem atenuar a dor de sua perda.
Garrincha foi único, mágico, inimitável. Na terra, Alegria do Povo. No céu, passarinho liberto, há de zelar por nós.
*Fonte: revista ¿Placar Especial¿, publicada originalmente na edição 1242, de 01/09/2002, páginas 30-31
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