
O produtor Rick Bonadio declarou em entrevista ao Abril.com que os festivais independentes brasileiros eram péssimos e que não considerava o atual momento da cena musical nacional bom.
Essas declarações causaram revolta entre produtores e bandas da cena independente, que acusaram o produtor de NX Zero e Fresno de não ter credibilidade para criticar os festivais, já que o mesmo não os freqüenta.
O tema foi amplamente debatido em importantes listas de discussões dos produtores, como a Nordeste Independente e a da Abrafin (Associação Brasileira dos Festivais Independentes), e em comunidades da rede social Orkut.
“Ele não é a pessoa mais indicada para falar sobre isso [festivais]. Nunca o vimos nesses festivais, ele não roda esses festivais, ele não conhece esses eventos. Ele nunca veio pra Cuiabá, nunca foi pra Goiânia, pro Acre, pra Uberlândia. Ele fala de algo sem conhecimento de causa. Além disso, ele não se envolve em trabalhos dentro do mercado independente, não estuda esse mercado”, afirma Pablo Capilé, coordenador de planejamento do coletivo Espaço Cubo de Cuiabá, responsável pela organização do festival Calango, e coordenador de ação política da Abrafin.
Quem também engrossa o discurso de Capilé é o vocalista da banda carioca Autoramas, Gabriel Thomaz, um dos principais nomes da cena independente nacional. “Ele não pode opinar a respeito de algo que ele não sabe o que é. Eu concordo que tem muita coisa ruim nos festivais mesmo, mas cara, em qualquer lugar tem. As bandas que ele produziu, que ele contratou, têm muita coisa ruim também”.
Gabriel reforça ainda a importância dos festivais citando um dos mais respeitados e tradicionais da cena, o Abril Pro Rock em Recife (PE), responsável por revelar bandas como Chico Science & Nação Zumbi, Mundo Livre S/A e Mombojó. “A história do Abril Pro Rock [festival realizado em Recife (PE)], a quantidade de gente que o Abril revelou e colocou aí pra música brasileira. Só uma pessoa que não entende nada disso, que nunca pisou num festival desse falaria isso que o Bonadio falou”.
Bandas com letras ruins
Sobre os grupos que circulam pelos festivais da Abrafin, Bonadio afirmou que “falta criatividade e letra. Falta tocar melhor, falta muita coisa”. O vocalista da banda paulistana Ecos Falsos, Gustavo Martins, ironizou tal afirmação de Bonadio. “Eu imagino que o cara que escreveu ‘Dogão é mau, Dogão é mau, au, au’ não está credenciado pra fazer esse tipo de comentário”, Martins ainda propôs uma comparação entre as letras dos artistas produzidos por Bonadio.
“Podemos fazer um exercício para analisar as letras dos artistas que o Rick Bonadio acompanhava tipo Charlie Brown Jr., Tihuana, CPM 22, agora NX Zero. Você tem aí um rol de letristas ‘sensacionais’ e que já dá pra ter uma idéia do que o Bonadio acha uma boa letra”, diz Martins.

Gabriel Thomaz também ironizou a crítica de Bonadio às letras das bandas independentes afirmando que “ele se surpreenderia com a quantidade de bandas instrumentais que existem nos festivais”.
“Panelinhas” nos festivais
Em sua comunidade oficial no Orkut, Rick Bonadio aproveitou a ampla discussão do tema pelos membros para tecer novos comentários sobre os festivais independentes. Em uma de suas afirmações, o produtor disse que os eventos “são um monte de panelinhas de pseudo-intelectuais que não tocam merda nenhuma e se acham os gênios. Escrevem umas letras péssimas e não permitem que os bons entrem nunca”.
Para o produtor Pablo Capilé, essa afirmação de Bonadio mostra mais uma vez que ele não conhece a cena profundamente, e diz que é praticamente impossível existir uma “panelinha”. “Eu acho que com um circuito de festivais que leva mais de 500 bandas para circular todos os anos, não tem condição de levar as mesmas 500 bandas. Da mesma forma que quando as bandas são muito boas, elas tendem a se repetir em muitos festivais”, explica.
Gabriel Thomaz compartilha do mesmo pensamento de Capilé, dizendo que “Esse negócio de panelinha é totalmente irreal. Eu toquei em cinco ou seis festivais este ano, e vi desde banda de metal até banda emo estilo NX Zero”.
Para Gustavo Martins essa discussão sobre as supostas “panelinhas” é complicada, o vocalista do Ecos Falsos acha que existe uma autonomia entre os produtores dos festivais e sempre vai haver gente reclamando. “Eu acho que sempre quem fica de fora vai falar que existe uma panelinha”.
Contra ataque
Apesar das críticas ao modelo de mercado independente, Gabriel Thomaz acha importante uma figura como Rick Bonadio se importar com os festivais e toda essa movimentação protagonizada pela Abrafin. “É muito legal, cara, antigamente ninguém falava dos independentes. Eu não acho ele um idiota, não acho nada disso, acho ele um cara extremamente competente e inteligente. No mínimo ele não gosta que as bandas dele não participem dos festivais”.
Por outro lado, Pablo Capilé acredita que Rick Bonadio tenta com as afirmações reafirmar as convicções que ele tem, em cima de um mercado “que está cada vez mais falido”. “Ele tenta reafirmar que esse mercado ainda tem solução, que só presta o que está fazendo sucesso ou o que o Midas [estúdio de Bonadio] colocou a mão. De Midas, pra mim, ele não tem nada”.
Gabriel completa dizendo que mesmo com o espaço adquirido pelos independentes na mídia especializada, ainda existe preconceito. “O independente sempre foi sinônimo de amador, de estreante. O independente era aquela banda que gravava três músicas numa demo e mandava pro Rick Bonadio. Hoje existem bandas que são independentes a vida inteira”.
Foto: Divulgação
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