A crise financeira americana já ameaça a indústria do entretenimento. Em Hollywood, estúdios começam a acender o sinal vermelho para projetos muito caros, como a adaptação de “Tintin”, que seria dirigida por Steven Spielberg e Peter Jackson, e que foi recusada pela Universal.
O receio não é recente. Desde 2007, quando a crise imobiliária dos Estados Unidos dava sinais de seu alcance, bancos americanos começaram a retirar investimentos aplicados no ramo da indústria cinematográfica. Apesar disso, logo depois do “crack” de 15 de setembro de 2008, Jeffrey Katzenberg, um dos fundadores dos estúdios Dreamworks com Steven Spielberg e David Geffen, minimizou o pânico. Em conferência transcrita pela agência Reuters, o executivo exaltou as qualidades da indústria que defende: “Tanto tradicionalmente quanto recentemente, vimos que nossos produtos são, na pior das hipóteses, resistentes à recessão e, sendo mais otimista, já se mostraram até à prova de crise”.
O otimismo de Katzenberg parece dar o tom dos comentários de profissionais do ramo no Brasil.
Cinema
Para os brasileiros, a conseqüência mais imediata da crise é o aumento do dólar. E, ao menos do ponto de vista dos produtores de cinema nacionais, a desvalorização do real traz algumas vantagens. Pérsio Pisani, produtor do filme “Última Parada 174”, acredita que a alta do dólar pode ajudar o cinema brasileiro: “Quando o real estava muito valorizado, muitas equipes iam filmar na Argentina, porque os custos eram menores. A desvalorização favorece a produção no Brasil”, conta.
Acordos com distribuidores internacionais também se mostram mais vantajosos, porque são fechados em dólar – o mesmo vale para produções brasileiras que têm parte de seu financiamento oriundo de produtores estrangeiros. Um produtor nacional que tenha recebido investimento de 400 mil euros há três semanas, por exemplo, terá, hoje, um orçamento em reais maior do que o previsto anteriormente.
Mas o aluguel de equipamentos para as filmagens, por sua vez, podem se tornar mais caro, porque a maior parte deles vem do exterior: “Empresas que alugam equipamento podem aumentar o preço das tarifas, prejudicando os orçamentos por aqui”, explica Pisani.
Shows
O Brasil tem recebido diversos concertos de artistas estrangeiros nos últimos dois anos. O bom momento da economia do país, aliado ao então baixo preço do dólar, eram algumas das explicações mais comuns para a grande oferta de shows musicais por aqui. Na opinião de Paola Wescher, produtora que já trouxe as bandas Weezer e Pixies ao Brasil, os próximos shows a serem fechados podem ser prejudicados, mas não muito. “É claro que a alta do dólar faz diferença [os contratos com artistas estrangeiros são fechados na moeda americana], mas acho que a economia do país está melhor e as empresas estão investindo mais em shows. De todo modo, o dólar já esteve alto há alguns anos, e as bandas gringas vinham mesmo assim – só não nessa grande quantidade dos últimos dois anos”, explica.
Passagens aéreas, cachês e gastos com visto dos artistas são todos pagos na moeda americana, mas Paola afirma que boa parte dos produtores já trabalha com uma grande margem de dólar ao fechar os contratos. “No começo da semana [quando o dólar estava casa de R$1,90], disse para uma pessoa que queria comprar o show de uma banda que usasse o valor de R$ 2,10 para calcular os gastos. É melhor trabalhar com uma boa margem”, orienta.
Normalmente, os pagamentos são realizados antes das apresentações no Brasil, assim que os contratos são fechados. Shows como os de Madonna, REM e The Jesus and Mary Chain foram anunciados antes do súbito aumento do dólar. Os fãs, portanto, não têm muitos motivos para se preocuparem.
Sem blindagem
O economista da FGV-RJ André Nassif, no entanto, não acredita que o mundo do entretenimento esteja tão blindado como Katzenberg dá a entender. Nassif explica que a indústria cultural não passa incólume por crises financeiras porque, em períodos de recessão, os gastos com diversão são um dos primeiros a serem cortados do orçamento doméstico. Quanto maior a crise e a diminuição de renda da população, maiores são as perdas da indústria cultural. “Por um lado, você poderia até imaginar que, em uma situação de crise, com aumento de desemprego e desesperança, as pessoas buscariam refúgio na indústria cultural, no lazer em geral. Mas isso é caro, é algo que precisa ser pago. Nesses momentos, as pessoas vão privilegiar o consumo daquilo que é estritamente essencial, como comida e remédios. O produto cultural passa a ser menos essencial quando o fluxo da economia diminui”, explica Nassif.
Ou seja: o aumento do dólar pode não prejudicar tanto assim o acesso imediato dos brasileiros a cinema, show, livros e teatro. Mas uma recessão mundial prolongada faria estrago na renda da população e nas finanças das empresas que investem em cultura. Sem demanda não haveria oferta, como bem sabem os fãs brasileiros de Madonna que recentemente disputaram ingressos com cambistas.
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