Uma das histórias mais intrigantes da obra de Machado de Assis é o término do relacionamento de Bentinho e Capitu, descrito no livro "Dom Casmurro", em decorrência de uma suposta traição. Suposta porque em momento algum o escritor chega a afirmar que Capitu e Escobar, amigo de Bentinho, realmente ficaram juntos. Mas, como o relato é feito pelo personagem principal, tomado de ciúmes, a conclusão depende da interpretação de cada leitor.
Uns acreditam que Capitu, a mulher dos “olhos de ressaca”, entregou-se a Escobar. Outros a defendem dizendo que a infidelidade foi criação da mente doentia de Bentinho. Há ainda aqueles que preferem não opinar por acreditar que a dúvida é a grande sacada do livro.
Cem anos após a morte do escritor, falecido em 29 de setembro de 1908, o Abril.com pediu a opinião de dez personalidades que leram “Dom Casmurro” sobre essa famosa questão. Entre os entrevistados estão o ator Bruno Garcia, que interpretou Bentinho no cinema, o cineasta Jorge Furtado, o escritor Luis Fernando Veríssimo e o cartunista Ziraldo. Confira as divertidas declarações abaixo: 
“Machado cria o Bentinho que é o retrato acabado, psicológica e moralmente, da velha figura chamada de corno. E a Capitu, meus amigos, a Capitu, basta olhar para os olhos dela...”
Ziraldo, cartunista 
“Eu concordo com o Millôr Fernandes, para quem o amor da vida do Bentinho era o Escobar. Foi Escobar quem traiu Bentinho - com a Capitu.”
Luis Fernando Veríssimo 
“Ela não traiu. O Bentinho tem o perfil típico do paranóico.”
Moacyr Scliar, escritor 
“Se Machado queria deixar a questão ambígua, é assim que ela deve ficar.”
Ruy Castro, escritor 
“Do ponto de vista literário, eu acredito que não faz diferença se Capitu traiu ou não traiu Bentinho de fato. Na cabeça dele instalou-se a suspeita, e isso basta. É daí que Machado extrai toda a força do livro, despertando a empatia de todo mundo que já suspeitou estar sendo traído ou traída. Ou seja, todo mundo, realmente. Essa é a universalidade de ‘Dom Casmurro’. Feita essa ressalva, eu acho que traiu. Aquele olhar oblíquo nunca me enganou.”
Arthur Dapieve, jornalista 
“Em literatura, como no jogo do bicho, vale o que está escrito. Se Capitu traiu ou não, pouco importa. A intenção de Machado era deixar a dúvida, e isso ele fez.”
Jorge Furtado, cineasta 
“É muito interessante perceber que essa questão só reforça a genialidade de Machado de Assis. Após tantos anos, o fato de Capitu ter traído ou não Bentinho divide grupos e revela um intrincado jogo de subjetividades, proporcionado pela pena inovadora de nosso escritor maior. Uns têm certeza que houve a traição, outros juram que foi tudo paranóia de Bentinho. E há, ainda, aqueles que acham que isso não importa. Faço parte deste último grupo. Para mim, o principal personagem de Dom Casmurro é a dúvida.”
Bruno Garcia, ator 
“Talvez, quem sabe? Bentinho achava que sim. Mas ele não era um narrador confiável. Pelo contrário, Machado nos faz acompanhar a loucura progressiva dessa sua mente que narra, fantasia e vai aos poucos acreditando no que inventa. Quase dá para ter certeza de que Capitu não traiu, foi tudo uma projeção dele que deu em cima de Sancha (esposa de Miguel) uma noite e, na manhã seguinte, Escobar morreu. Carregado de culpa, ele desviou sua falta para a mulher. O fundamental é que Machado não traiu o leitor, dando-lhe uma obra de uma riqueza ímpar, onde se descobrem novos tesouros a cada leitura.”
Ana Maria Machado, escritora 
“O que o romance retrata não é a traição ou a inocência de Capitu, mas outra coisa, a desconfiança de Bentinho. Ele narra a história como se Capitu tivesse traído, mas o leitor tem acesso somente a seu ponto de vista. E, principalmente, à dureza de seu ponto de vista sobre o comportamento das pessoas a seu redor.”
Marcelo Coelho, escritor 
“Bentinho acha que ela o traiu, ou, pelo menos, que ela poderia ter traído. É tudo o que podemos dizer: que ele nos diz que ela o traiu. Como nas situações do dia-a-dia, sabemos que não podemos confiar numa só versão. Todo mundo já se viu na situação de ouvir duas versões conflitantes sobre um final de relacionamento ou de uma briga em família. E a gente tende a dar razão a quem nos conta o seu lado da história. No caso de Bentinho, dá-se o mesmo: ouvimos o que ele diz e nos sentimos inclinados a lhe dar razão. Não podemos ouvir a voz de Capitu, a sua versão. E, se podemos achar que a história de Bentinho não parece correta, isto é, se podemos achar que ela talvez não o tenha traído, isso se dá apenas porque ele, embora afirme isso, parece também ter algumas dúvidas, não só por saber que é ciumento, mas também porque ainda mantém grande afeição por Capitu... A única certeza é da sua infelicidade e da perda de sentido da sua vida. Por isso o romance é tão especial: por inviabilizar a decisão do leitor.”
Paulo Franchetti, professor da Universidade Estadual de Campinas
Fotos: Andre Valentim, Liane Neves, Liane Neves, Divulgação, Reprodução, Divulgação, Divulgação, Ricardo Beliel, Walter Craveiro e Antoninho Perri.
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