10/09/2008 - 11:28 (atualizada em 10/09/2008 14:08)
Fernando Meirelles defende cinema autoral e diz que não quer “mega casa em Angra”
Diretor de “Ensaio Sobre a Cegueira” recusa projetos hollywoodianos e prepara minisssérie para a Globo
Diego Maia
Aos 52 anos de idade, dez deles dirigindo longas, Fernando Meirelles parece ter encontrado o sonhado equilíbrio entre independência artística e liberdade financeira que muitos cineastas mais experientes nunca tiveram o prazer de experimentar.
Quando quer dar forma aos seus projetos cinematográficos, o cineasta se alia a produtores estrangeiros e realiza seus longas com a liberdade que provavelmente não teria nos grandes estúdios de Hollywood e o dinheiro e a freqüência que não conseguiria se trabalhasse apenas no Brasil. Quando sente saudades do país e da língua portuguesa, ele retorna e se dedica a projetos para a TV – como a série “Som e Fúria”, da Rede Globo, que estréia em 2009.
O princípio desta “fórmula” se estabeleceu logo depois (e, talvez, por causa) de uma indicação ao Oscar por “Cidade de Deus”, já no filme “O Jardineiro Fiel”, adaptação da obra de John le Carré estrelada por Ralph Fiennes e Rachel Weisz.
“Ensaio Sobre a Cegueira”, longa baseado no romance de José Saramago, que estréia na próxima sexta (12), é o segundo fruto dela, e também o rebento mais ousado da carreira de Meirelles. Afinal, trata-se da adaptação de uma obra considerada infilmável há até pouco tempo.
Em entrevista ao Abril.com, o cineasta comenta sua relação com os produtores independentes, o trabalho com atores de renome como Julianne Moore e o agora famoso vídeo em que Saramago se emociona com o filme. Confira:
Abril.com: Há uma consciência social bastante palpável em seus filmes, de "Domésticas" a "Jardineiro Fiel". Em "Ensaio Sobre a Cegueira", ela parece mais abstrata, menos direta... Fernando Meirelles: Acho que esses três filmes, de certa forma, são sobre "forças que oprimem os homens". Neste contexto, o "Ensaio" cabe no pacote, mas é um filme mais pessoal e subjetivo.
Em que sentido? Tráfico, indústria farmacêutica ou domésticas são temas objetivos. Realidades que existem e sobre as quais você pode ter uma visão. "Ensaio" é uma história completamente inventada e, portanto, subjetiva. É pessoal, pois muitas imagens ali, e o tom, não são baseados em nada que eu possa checar, é realmente fruto da minha imaginação trabalhando sobre a imaginação do Saramago.
Você fez "O Jardineiro Fiel" e "Ensaio Sobre a Cegueira" lá fora. Walter Salles fez "Água Negra", Andrucha Waddington está adaptando "'Fools Rush In", com Orlando Bloom, Vincente Amorim está finalizando "Good", com Viggo Mortensen. Parece natural que um diretor brasileiro que consiga certo sucesso no país passe a trabalhar em produções estrangeiras, ou que tenham parte do financiamento estrangeiro. O que acontece é uma "fuga de cérebros"? Não tem nada de fuga de cérebros. Pelo contrário, é um tremendo esforço nosso para colocar o Brasil no mapa do cinema mundial, que é completamente globalizado. Nosso mercado, não sei porquê, demorou muito para entrar neste mundo. Além do mais, o Andrucha tem projetos no Brasil, o Walter está lançando o genial "Linha de Passe", dirigido com a Daniela Thomas e brasileiríssimo, e eu estou no meio das filmagens de "Som e Fúria", minissérie para a TV do Brasil , em português. Como você vê, não ha fuga não.
Trabalhar com produtores internacionais modificou, não necessariamente de forma negativa, sua liberdade em relação a seus filmes? Não modificou em nada, pois até o momento os filmes que fiz foram produções independentes em que temos total controle do resultado final. Não sei se um dia farei filmes para estúdios. Hoje acho que não, mas nunca se diz nunca.
Mas há diretores estrangeiros que produzem para Hollywood, como Alfonso Cuarón (que dirigiu "Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban"), que passam por essa experiência sem traumas. Você acha que o risco é muito grande, a dor de cabeça não vale a pena? Isso, a dor de cabeça não vale a pena. Se eu fosse mais jovem e quisesse ganhar um monte de dinheiro, provavelmente eu aceitaria alguns convites que recusei, mas tenho 52 anos e nenhuma intenção de ter um helicóptero ou uma mega casa em Angra. Gastar dois anos para fazer um projeto que não será meu só para fazer caixa decididamente não me parece uma idéia madura. Quanto ao risco, isso nunca me impediu de fazer as coisas que fiz. Se cair levanta-se, sacode-se a poeira e toca-se em frente.
Seu nome já esteve ligado a um blockbuster sobre a erupção do vulcão Vesúvio... Pois é, toquei este projeto, "Pompéia", por dois anos com a Universal, mas no final o roteiro não ficou do meu agrado e saí. Acho que eles arquivaram. Não quero me envolver em outro projeto grande assim tão cedo
Ainda sobre Hollywood: o fato de você trabalhar com alguns atores muito famosos, como Rachel Weisz, Julianne Moore e Mark Ruffalo, não pode ser interpretado como uma aproximação com esse cinema? Pode ser interpretado assim, mas acho que é uma interpretação errada. Mark e Julianne são atores reconhecidos por seus projetos independentes, basta ver a filmografia dos dois. Rachel também voltou às origens e tem filmado com diretores autorais como Darren Aronofsky, Wong Kar Wai etc. Nem tudo que fala inglês significa Hollywood.
Rachel Weisz ganhou um Oscar por "O Jardineiro Fiel" e já surgem especulações sobre uma possível indicação de Julianne Moore em "Ensaio Sobre a Cegueira". O Oscar de uma atriz dirigida por você facilita o trabalho na hora de montar elencos? Li a Julianne dizendo no (jornal) Estadão que não é movida por prêmios. Acredito. Ela é tão íntegra e apaixonada por seu trabalho que não poderia ser de outro modo. Acho que prêmio é mesmo um bônus, mas não um fim.
Mas você passou a ser mais procurado por agentes das estrelas? Quero acreditar que, se isso acontece, não foi por eu ter sido nomeado a prêmios, mas sim pelos poucos filmes que fiz. Com prêmio ou sem prêmio, sei que esta situação, assim como veio, uma hora vai passar.
E o que a atraiu em Julianne Moore para convidá-la para o papel principal de "Ensaio Sobre a Cegueira"? Sou um fã. Na minha lista de atrizes internacionais com quem adoraria trabalhar, ela estava lá na ponta, ao lado da Kate Winstlet, Reese Witherspoon e Meryl Streep. Tive muita sorte dela ter aceitado o convite.
Você chegou a pensar em Kate Winslet para "O Jardineiro Fiel", certo? Ainda tem algum projeto em mente para convidá-la? Não tenho nada em mente onde ela possa se encaixar, mas se um dia tiver, vou ligar para ela correndo.
Em março, você disse em seu blog que tinha o corte final de "Ensaio sobre a Cegueira", mas acatou uma sugestão da Miramax para suavizar o filme. Você fala "os caras sabem o que dizem e aproveitei este expertise e a minha disposição para repensar mais uma vez a montagem". O que ainda não te agradava totalmente na montagem? Tem a ver com a vontade de ver o filme fazendo mais sucesso? Não é questão de sucesso ou de público, mas de balanço. Se em um filme que tem uma certa levada e um certo andamento de repente entra uma cena muito chocante, muito violenta, ele se desequilibra. Um erro de tom destes pode comprometer um projeto como comprometeu o brilhante "Irreversível", de Gaspar Noé, que é um filme muito bom, mas que a maioria do público só conseguiu ver além da cena de estupro. O Gaspar errou ali, acho. Seu filme seria um clássico, e acho que é, se não fosse aquela cena desbalanceada. Quanto à Miramax, eles não têm poder nenhum sobre nosso filme. Pela primeira vez na história deles, acho, eles distribuem um filme apenas nos EUA. Nem mesmo no Canadá, que consideram mercado doméstico, eles têm os direitos. Quando me referi ao conhecimento deles, estava mesmo falando de como conhecem estrutura de roteiro, construção de personagens etc. Deram dicas muito boas, mas foram apenas dicas mesmo. Aprendi bastante.
O vídeo que mostra a reação emocionada de José Saramago na sessão em que ele viu o filme ficou bastante popular na web brasileira. A reação do autor, de alguma forma, "lavou a alma" depois da recepção em Cannes? Muito. Saí de Cannes com certa dúvida sobre o filme. Pensava: "Vai ver que não é o que acho que é". O fato do autor ter gostado do filme me deu a certeza de que pelo menos não desvirtuei sua obra, que consegui manter ali o espírito do livro, como ele disse.
E "Intolerância 2"? Ainda pensa em voltar a ele? Um dia vai acontecer. Tenho o primeiro tratamento do roteiro, mas está mesmo paradão na prateleira
Ainda na coletiva, você disse que queria dirigir uma comédia leve. Há algum projeto nesse sentido? Ha um roteiro no forno. Comédia muito esperta.Prefiro não abrir nada. Quero só começar a pensar nisso depois de umas férias. Em março, talvez.
Você tem acompanhado o CQC, comandado pelo Marcelo Tas, com quem você já trabalhou? O que está achando? Assisti alguns programas e gosto bastante. Me impressiona a velocidade e agilidade daqueles moleques. Torço para que continue emplacando.