29/08/2008 - 19:35 (atualizada em 03/09/2008 23:37)
Sem incentivos estatais, "Linha de Passe" retrata periferia "humana" de São Paulo
Filme que ganhou o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes marca a volta da parceria entre Walter Salles e Daniela Thomas em longas
Diego Sapia Maia
Em um país sem indústria cinematográfica consolidada como o Brasil, fazer um filme sem incentivo estatal é praticamente impossível. Imaginar, então, que um longa produzido dessa forma seria premiado em Cannes é tarefa ainda mais difícil. Realizado com um orçamento de cerca de R$ 4 milhões, “Linha de Passe”, dirigido por Walter Salles e Daniela Thomas, não recebeu incentivos estatais, sendo todo financiado com o dinheiro obtido em pré-vendas para distribuidores independentes estrangeiros. O fato de o nome de Salles estar à frente do projeto obviamente garante interesse prévio entre os distribuidores internacionais, mas "Linha de Passe" se sustenta sozinho, com qualidades que extrapolam a "grife" a que está ligado.
Em entrevista coletiva realizada nesta sexta-feira (29) em São Paulo, Salles e Daniela Thomas apresentaram o longa como o fruto de uma vontade de “se reencontrarem”. “Antes de mais nada, o filme foi feito por razões afetivas. A gente queria esse reencontro”, contou Salles, que co-dirigiu “Terra Estrangeira” (1996) e “O Primeiro Dia” (1998) com Daniela.
O reencontro é um dos mais felizes da carreira dos dois cineastas: “Linha de Passe”, que estréia em 5/9, pode não ousar na temática, mas, ao acompanhar a vida de cinco personagens da periferia paulistana sem estereotipá-los ou transformá-los em vítimas, revela-se o filme mais maduro da dupla.
A trama é centrada em uma família moradora da Cidade Líder, Zona Leste de São Paulo, acompanhando cada um dos membros em histórias paralelas. A mãe, Cleuza (Sandra Corveloni), é uma empregada doméstica, grávida pela quinta vez. Seus quatro filhos são Denis (João Baldasserini), o mais velho, motoboy e pai de um garotinho; Dinho (José Geraldo Rodrigues), frentista e evangélico recém-convertido; Dario (Vinicius de Oliveira), que quer se tornar jogador de futebol e vive enfrentando peneiras em times da cidade; e Reginaldo (Kaique Jesus Santos), o mais novo, que descobre que seu pai é motorista de ônibus e passa a procurá-lo pelas linhas da capital.
São Paulo Esse painel de personagens dá a Salles e Daniela a oportunidade de explorar livremente as paisagens de São Paulo, cidade que, diz o diretor, guarda qualidades bastante cinematográficas. “Amo o Rio de Janeiro, mas a ausência do poder público criou aquela relação morro-asfalto já tão mostrada no cinema. Não fazia sentido voltar a uma geografia tão explorada cinematograficamente. E São Paulo é grande, cheia de meios tons. Os personagens estão em movimento na cidade, que é muito cinematográfica nesse sentido. O caos urbano de São Paulo é visualmente interessante”, explicou Salles.
Elenco O elenco, grande trunfo do filme, foi selecionado e preparado por Fátima Toledo, experiente treinadora de atores que já havia preparado Vinicius de Oliveira para seu papel em “Central do Brasil” (1998), além de ter trabalhado com o cast de sucessos como “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite”. Fátima conduziu os testes, e foi nessa ocasião que a atriz Sandra Corveloni, veterana dos palcos paulistanos, mas estreante em cinema, envolveu-se com a produção.
Sandra mal imaginava que, alguns meses depois, receberia o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes ao viver Cleuza. “Estou com problema no ouvido de tanto falar ao telefone”, brinca a atriz, comentando o assédio que tem sofrido depois do prêmio. “Sempre falo do meu grupo de teatro (o TAPA, de São Paulo) quando posso. Nossas peças ganharam uma visibilidade que não ganhariam se não fosse por Cannes”, comentou.
Além do reencontro entre Walter e Daniela, “Linha de Passe” marca também a reunião do diretor com Vinicius de Oliveira, jovem ator revelado em “Central do Brasil”. Hoje um estudante de cinema, Vinicius era o único nome que Salles tinha em mente quando começou a pensar no elenco do filme. O ator conta que se preparou por quatro anos para viver Dario, aspirante a jogador de futebol: “Fiquei quatro anos na escolinha de futebol do Zico, no Rio, para me preparar melhor. O personagem exigia algo mais profissional, mais técnico. Em São Paulo, treinei um mês nos juniores do Santo André e um mês no do Palmeiras”, contou. Salles comparou a experiência àquela vivida por um de seus ídolos, François Truffaut. O diretor francês trabalhou diversas vezes com Jean-Pierre Léaud, ator que foi revelado por ele, ainda criança, em “Os Incompreendidos” (1959)
Periferia Boa parte da produção do cinema brasileiro recente volta suas câmeras para a periferia das cidades grandes, em um ciclo que críticos já chegaram a chamar de “estética da fome”. “Linha de Passe” retoma o tema. Mas a justificativa para essa opção, Walter Salles tem na ponta da língua: “Se o cinema brasileiro não estivesse olhando para esse estrato social, as pessoas estariam reclamando do mesmo jeito. Mas é preciso ampliar o leque temático dos filmes nacionais, não tenho dúvida nenhuma disso”. “Linha de Passe”, afirma Salles, foi pensado inicialmente como dois filmes. Um deles abordaria a vida de personagens moradores da periferia, de vida mais sofrida. O outro, a dos mais abastados, que aparecem neste filme como a patroa de Cleuza, ou o homem que dirige um carro importado que se choca contra a moto de Denis. As duas produções foram transformadas em uma só por conta dos problemas que o roteiro sofreu em 2006, quando a novela “Cobras e Lagartos”, de João Emanuel Carneiro, incorporou um personagem bastante parecido com Denis. À época, Salles apontou o plágio e disse que Carneiro chegou a ter acesso ao roteiro do filme. “O roteiro foi parcialmente usado em outra mídia. Então chamamos o Bráulio (Mantovani, roteirista) e retiramos essas partes”, contou Daniela, sem citar diretamente o incidente com a novela.
Walter Salles parte agora para filmar “On the Road”, baseado no livro de Jack Kerouac. Mas a idéia de realizar um segundo filme mostrando os personagens que aparecem brevemente em “Linha de Passe” não parece ter sido completamente abandonada. Quando perguntado sobre o projeto, Salles não desconversa, mas passa a bola para a parceira: “Estou tentando convencê-la a fazer desse filme um projeto-solo”, revela o diretor.
Divulgação
Daniela Thomas e Walter Salles nas locações de "Linha de Passe"