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Diversão

29/08/2008 - 08:49 (atualizada em 03/09/2008 23:37)

Concorrendo em Veneza, atriz brasileira Tainá Müller revela que adoraria ter trabalhado com Truffaut

Gaúcha, que já ganhou prêmios por sua atuação em "Cão Sem Dono", estrela a produção chinesa "Plastic City", indicado ao Leão de Ouro

Por Diego Sapia Maia

Em sua segunda investida no cinema, a gaúcha Tainá Müller já alcançou o mundo – ou, por enquanto, a Itália e a China. A atriz, que estreou nas telonas com “Cão Sem Dono” (2007), do diretor Beto Brant, é a protagonista feminina de “Plastic City”, co-produção entre Brasil, China e Japão que concorre ao Leão de Ouro no Festival de Veneza 2008.

Por ter o papel feminino mais importante do longa, dirigido pelo chinês Yu Lik Wai, Tainá foi inscrita na categoria de melhor atriz em Veneza, premiação que já consagrou nomes como Cate Blanchett (em 2007), Catherine Deneuve (1998) e Juliette Binoche (1993).

Um prêmio no festival italiano não seria o primeiro de Tainá no cinema. Seu papel em “Cão Sem Dono” lhe rendeu vitórias nos festivais de Cuiabá e Recife. Nada mau para quem trocou a carreira de jornalista e produtora da MTV, em Porto Alegre, pela de modelo na Europa e Ásia e, finalmente, se tornou atriz em 2007, no anseio de expandir seu “desejo de comunicar”.

Fã de François Truffaut, Nina Simone e Leonard Cohen, Tainá está escrevendo uma peça de teatro e é protagonista da novela “Revelação”, do SBT, escrita pela esposa de Sílvio Santos, Íris Abravanel, que ainda não tem data para estrear. Foi entre as gravações do folhetim e os preparativos para a viagem a Veneza que a atriz trocou alguns e-mails com o Abril.com. Confira a conversa:



Você pode explicar a sua indicação ao prêmio de melhor atriz em Veneza? O festival não tem exatamente uma lista de indicadas a esse prêmio, certo?
Pois é, na verdade essa indicação não existe. Quando começou a pipocar na internet, me apavorei. O Festival de Veneza não tem indicados em nenhuma categoria, ou seja, todos os participantes da competição oficial estão automaticamente "indicados". Teoricamente estou concorrendo porque fui inscrita como atriz do filme. Mas não é um papel grande o suficiente para prêmio. Os grandes protagonistas de "Plastic City" são todos homens.

Alice Braga, como você, é uma atriz brasileira jovem. Ela está fazendo carreira internacional com bastante desenvoltura. "Plastic City" competindo em Veneza certamente pode abrir algumas portas para você nesse sentido, concorda?
O filme será exibido pela primeira vez lá, então não dá para ter noção da repercussão que ele terá. Eu espero, é claro, que o filme abra portas para todos os envolvidos no projeto, principalmente por ser uma parceria inusitada.

Você pode falar mais detalhadamente de sua personagem em "Plastic City"? O que a atraiu no papel?
A Rita é uma prostituta que dança em um bordel chamado "Devil's Concubine". Ela namora Kirin (Odagiri Joe) e espera que ele largue a máfia e assuma o papel de pai de seu filho. Basicamente, isso. Gostei da Rita logo que vi o roteiro, ela é um contraponto feminino em um filme totalmente "testosterona".

E como você foi parar no elenco do filme?
Estava conversando com a produtora de um programa sobre cinema, exclusivo para celular, contando algo de quando morei na China, quando ela disse "olha, tem uma amiga minha que está produzindo um filme chinês que vai ser rodado em São Paulo. Vou falar de você para ela porque tem um papel para uma brasileira". Mandei um e-mail para essa menina dizendo que estava interessada em fazer o teste quando rolasse. Um ano depois me chamaram para o teste, fui lá, fiz e passei. Não teve nada de ter "me convidado" para o papel, só estava ligada em uma produção que ia acontecer e me disponibilizei para o teste, o que é absolutamente normal.

E como foi trabalhar com Lik Wai, que é um diretor estrangeiro, de Hong Kong? Rolaram dificuldades de comunicação?
Nos comunicamos em inglês. Em alguns momentos, rolou uma dificuldade de comunicação, mas de um modo geral correu tudo bem. Não foi a primeira vez que trabalhei com chineses, pois já morei na China e em Hong Kong. Já era naturalmente familiarizada como o ritmo de trabalho e com a forma de eles pensarem, tudo isso facilitou.

Mas sentiu diferenças durante as filmagens de “Plastic City” em relação às de “Cão Sem Dono”, por exemplo? Em termos de produção, o segundo parece um filme bem mais modesto perto do primeiro...
Ah, o “Cão” era um filme intimista, de baixo orçamento. Já o "Plastic City" teve muitas cenas de ação, efeitos especiais, precisando de um orçamento maior. Mas os dois filmes tiveram uma produção muito bem organizada, igualmente eficiente.

Se você pudesse escolher um diretor com quem gostaria de trabalhar, quem seria?
Bom, se é para viajar longe, meu sonho seria ter sido dirigida pelo [François] Truffaut, de preferência interpretando a "Catherine", do [filme clássico] "Jules e Jim". Não que eu teria feito melhor que a Jeanne Moreau, mas é uma personagem fetiche para mim.

Você fez um caminho que é até bastante comum no meio: era modelo e se tornou atriz. Mas, antes disso, já era jornalista e produtora da MTV. O que a fez abandonar duas carreiras e abraçar a atuação?
Foi pura necessidade de expressão. Eu cheguei a acreditar que seria uma grande jornalista e acho que até tinha certo talento pra coisa. Mas quando percebi que a forma de me expressar seria muitas vezes "engessada" por uma questão de estrutura ou até de interesses mercadológicos, me desencantei. Aí resolvi partir para o terreno do lúdico, onde a princípio tudo é possível, tudo pode ser falado.

Mas, como atriz, você também pode ser "engessada" por interesses mercadológicos, não? Ter que, talvez, trabalhar em um papel que não te atrai tanto é algo que parece ser comum até para atores em Hollywood...
Ah, com certeza... Inclusive na nossa indústria, que é a televisão. Mas quando eu falo "engessada" estou me referindo mais à forma de expressão mesmo. O jornalismo trabalha basicamente com a informação. Qualquer "floreio" mais criativo pode sair do esquema. A não ser que você se torne um articulista ou cronista, por exemplo. É difícil achar no mercado um espaço para trabalhar num estilo mais "new journalism", ser mais autoral. Já como atriz, as sutilezas criativas se mostram mais amplas, mesmo quando o roteiro, a direção ou a própria personagem são limitados. Enfim, a arte se mostrou como a possibilidade mais livre do meu desejo de comunicar.


Como você trabalhava na MTV, suponho que goste muito de música. Pode citar seus artistas preferidos?
Nina Simone, PJ Harvey, Leonard Cohen, Nick Cave, Radiohead, John Frusciante, Fiona Apple, Coco Rosie... E, ultimamente, tenho resgatado Legião Urbana.

Você já disse que ama cinema e teatro, mas que também gosta de experimentar. Está gostando da experiência de fazer novelas (Tainá fez “Eterna Magia”, na Globo, em 2007, e protagoniza “Revelação”, no SBT)?
Acho que, no momento, a grande vantagem de fazer uma novela é a de levantar todo dia de manhã e ir trabalhar no que gosto. É poder ter um emprego, uma rotina, um salário e ainda exercitar a profissão.

Você mantinha um blog, mas o fechou. O que aconteceu?
Já tive e fechei dois blogs. O primeiro criei para falar da minha experiência na Ásia e o segundo foi para publicar tentativas poéticas. Matei os dois para começar a escrever para mim. Quando publicava tudo se esvaía ali. Estou escrevendo, ou tentando, escrever uma peça de teatro, o que está me empolgando bastante. Quando terminar, acho que volto com o blog.

 

Por CLIMATEMPO

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