25/08/2008 - 22:11 (atualizada em 03/09/2008 23:35)
Fernando Meirelles lança "Ensaio Sobre a Cegueira" querendo permanecer independente
Diretor reúne elenco estelar em adaptação da obra de José Saramago, mas prefere continuar a recusar convites de Hollywood
Diego Maia
Fernando Meirelles se diz independente dos grandes estúdios de Hollywood em “Ensaio Sobre a Cegueira”, adaptação do livro de José Saramago dirigida por ele. “Vi algumas matérias dizendo que é um filme hollywoodiano, mas não é. É uma produção independente brasileira, canadense e japonesa”, frisou o diretor nesta segunda-feira, em São Paulo, cidade que serviu de locação externa para a produção, que estréia em 12 de setembro no Brasil.
Hollywood, de fato, não financia o trabalho do diretor, reconhecido na América a ponto de ter o seu “Cidade de Deus” indicado a quatro Oscars. “Já tive convites de estúdios, mas prefiro continuar não aceitando enquanto puder, enquanto continuar a conseguir financiamento para meus filmes”, reiterou Meirelles. Mas o que acontece na capital comercial do cinema impulsiona, e muito, a fama global dos atores do seu cast. E a linha de frente de “Cegueira” é sinônimo de bilheteria digna de blockbusters.
Julianne Moore, que vive a Mulher do Médico, foi indicada a quatro Oscars e transita com desenvoltura desde as produções independentes de Meirelles até arrasa-quarteirões como “Jurassic Park - O Mundo Perdido” e “Hannibal”. Mark Ruffalo, o Médico, trabalhou com nomes como David Fincher (em “Zodíaco”), Michael Mann (“Colateral) e Martin Scorsese (no ainda inédito “Shutter Island”);. Danny Glover (o Velho de Venda Preta) é protagonista, ao lado de Mel Gibson, do clássico de ação “Máquina Mortífera”. Alice Braga (a Mulher de Óculos Escuros) fez par com Will Smith em “Eu Sou a Lenda”, um dos grandes sucessos de bilheteria de 2007 . E Gael García Bernal (o Rei da Ala 3), mesmo se quisesse, não escaparia do rótulo de latin lover da vez nos EUA.
A entrevista coletiva em São Paulo contou com a presença das duas maiores forças femininas da produção: Julianne Moore e Alice Braga. E elas foram só elogios ao diretor. “Eu faria qualquer coisa que o Fernando me pedisse”, contou Julianne, que, antes da parada em São Paulo, curtiu alguns dias de férias ao lado dos filhos na Floresta Amazônica. “O Fernando conseguiu, com o filme, algo que o livro passa, que é o de despertar um sentimento muito pessoal em cada um. O filme é sombrio, mas o sombrio não existia no set”, disse a brasileira Alice, que volta a trabalhar com o cineasta depois de ser dirigida por ele em “Cidade de Deus”. “Confiei na visão dele. Quando você trabalha com um diretor, é assim que funciona”, completou Julianne, centro das atenções na entrevista.
Julianne Moore Loira e de cabelos mais curtos no filme, a atriz americana disse que leu o roteiro antes de conhecer o livro e explicou o que a atraiu tanto na produção: “Quando você vê os filmes dele (Fernando), não vê atuação; vê pessoas reais. Para essa personagem, eu queria mudar meu método de atuação. Não queria saber como ela reagiria, nem para onde iria. Ela não segue linhas retas, não é necessariamente heróica. Tentei manter a mente aberta à possibilidade de que tudo poderia acontecer”, contou.
Julianne, que vive a única personagem que consegue enxergar, e, por isso, se torna a líder de um grupo de cegos, também se disse atraída pelos dilemas morais e políticos presentes na história. “O limite entre civilização e barbárie é muito tênue, é isso que Fernando e Saramago dizem. No cinema, geralmente temos a impressão de que as pessoas sempre podem se transformar em heróis, que o Bruce Willis ou o Batman vão surgir para nos salvar. Por isso, muitas pessoas perguntam por que minha personagem demora tanto para tomar uma atitude. Mas no filme não há nenhum herói para resolver isso. Ela não é o Batman”, concluiu a atriz, arrancando gargalhadas dos jornalistas.
São Paulo “Ensaio Sobre a Cegueira” teve quase todas as suas cenas externas rodadas em São Paulo. Cenários conhecidos dos paulistanos, como o Viaduto do Chá, o Minhocão e a Ponte Estaiada Octávio Frias de Oliveira, surgem na tela esvaziados e sujos, compondo o mundo pós-apocalíptico que os cegos encontram quando conseguem sair de um manicômio em que eram mantidos em quarentena.
Para tirar os carros de circulação e rodar as cenas nas ruas vazias em setembro do ano passado, a produção contou com o apoio da Companhia de Engenharia de Tráfego. Apesar dos resultados impressionantes, o modus operandi das filmagens paulistanas parecia ser dos mais simples, de acordo com Meirelles: “Às duas da manhã, jogávamos o lixo nas ruas, filmávamos com a primeira luz do dia e logo depois limpávamos tudo”.
Shakespeare Meirelles trabalha hoje em uma minissérie para a TV Globo, “Som e Fúria”, adaptação da canadense “Slings and Arrows”, que mostra os bastidores de uma companhia teatral que encena textos de Shakespeare. Ele explica que fazer televisão no Brasil foi a maneira que encontrou para voltar para casa e trabalhar na língua nativa quando sentir vontade. A alternância desses trabalhos com projetos cinematográficos internacionais - e independentes, claro – é a base da regra que vai ditar as próximas etapas da carreira do diretor brasileiro mais bem-sucedido dos últimos tempos.
Patrícia Cecatti
Alice Braga, Fernando Meirelles e Julianne Moore em entrevista coletiva