15/08/2008 - 18:14 (atualizada em 03/09/2008 23:34)
Guillermo Arriaga se diz leitor de Jorge Amado e Marçal Aquino e lança livro na Bienal
Responsável pelos scripts de “Babel” e “Amores Brutos”, escritor não quis comentar relação estremecida com o diretor Alejandro González Iñárritu
Por Diego Maia
Guillermo Arriaga é mais conhecido atualmente por seu premiado trabalho como roteirista de cinema. Por ?Babel?, recebeu uma indicação ao Oscar e, por ?Três Enterros?, o mexicano foi agraciado com um troféu no Festival de Cannes em 2005. Antes de se dedicar ao cinema, porém, Arriaga escreveu romances: ?O Búfalo da Noite? e ?Um Doce Aroma de Morte?, já lançados no país, e ?Esquadrão Guilhotina?, que ele divulga na Bienal do Livro de São Paulo no sábado (16). No evento, o escritor, leitor de Jorge Amado, Guimarães Rosa e Paulo Lins (autor de "Cidade de Deus"), também participa de um debate sobre cinema e literatura com os escritores Marçal Aquino (de quem Arriaga se diz admirador) e Marcelo Rubens Paiva a partir das 19h.
Escrito quando Arriaga tinha 29 anos de idade, em 1991, ?Esquadrão Guilhotina? é ambientado na Revolução Mexicana e conta a história de Feliciano Velasco, um advogado que esconde suas raízes aristocráticas e, ao se aproximar do líder revolucionário Pancho Villa para vender-lhe uma guilhotina, acaba envolvido na revolução.
Em entrevista por e-mail ao Abril.com, o mexicano comentou ?Esquadrão Guilhotina?, mas também falou de seu posterior envolvimento com o cinema e a estréia na direção de um filme, com ?The Burning Plain?, que compete no Festival de Veneza 2008. Questionado sobre a relação estremecida com Alejandro González Iñárritu, diretor de três de seus roteiros com quem se desentedeu no final de 2006, Arriaga preferiu não se pronunciar. Leia a troca de e-mails:
Abril.Com: Por que contar uma história passada na Revolução Mexicana? O que o fascina tanto em um período que já foi muito retratado na literatura de seu país? Guilhermo Arriaga: A Revolução Mexicana é um momento de definição na história do México. Ela criou o ?México moderno? tentando resolver desigualdades profundas. De certa maneira, ela resolveu essas desigualdades, mas criou outras. Sou fascinado por essa explosão social porque, como toda guerra, ela mostra os abismos mais profundos da condição humana. Essas histórias de terror, medo, humor, esperança e amor nesses eventos extremos permitem que vejamos os seres humanos em seus maiores paradoxos. ?Esquadrão Guilhotina? é ambientado no passado, mas o que ele pode nos dizer sobre o México de hoje? Eu escrevi esse romance quando tinha 29 anos de idade, 21 anos atrás. Fazia mestrado em História, mas minha tese nunca foi aprovada. A razão: eu levava a ficção e o mito muito a sério, e a História, eles diziam, só deveria explorar a ?verdade histórica?. Acho que toda forma de exploração do mito, isto é, a reconstrução ficcional do passado, nos permite compreender melhor quem somos hoje e para onde estamos caminhando, como sociedade.
Como seu trabalho nesses romances influenciou o estilo de seus roteiros para cinema? Escrever romances permitiu que eu fizesse os roteiros da maneira que os escrevi. Tento dar aos roteiros uma cara ?literária?. Da literatura, uso a estrutura, linguagem, desenvolvimento de personagens, etc.
Em sua opinião, o que a literatura tem que não possa ser traduzida em imagens pelo cinema? Literatura tem uma liberdade maior. Para mim, a palavra escrita permitiu que a civilização humana atingesse seu ápice. Através das palavras, o conhecimento pode ser passado de uma geração para outra. Cinema é mais estético e emocional, já que lida com rostos e paisagens e a relação entre ambas.
Você prefere que roteiristas de cinema sejam chamados também de escritores. O que lhe incomoda no termo ?roteirista?? Me incomodo com a palavra ?guionista?, em espanhol, que significa ?aquele que cria os guias?. Não acho que meu trabalho seja apenas um ?guia?, mas um trabalho completo por si só. Acho que as palavras ?guión? (?roteiro?, em espanhol) e ?guionista? são depreciativas. Como autor, como você vê a maneira que seus roteiros foram levados aos cinemas? Sua visão sempre chegou às telas? Estive próximo o bastante de todo o meu trabalho para tentar manter minha visão original intacta. Também trabalhei, a maior parte do tempo, com pessoas que tinham a mesma visão e preferências que eu.
?The Burning Plain? é seu primeiro filme como diretor e está competindo no Festival de Veneza. Como foi dirigir, pela primeira vez, um roteiro que você escreveu? Dirigir foi uma das experiências mais prazerosas da minha vida. Como escritor, você fica confinado a momentos de solidão. Como diretor, a vida ?acontece? a seu redor. Você tem colaboradores extraordinários que te ajudam e você fica lá, em uma locação, trabalhando com ótimos atores, só curtindo o momento.
Algumas das características de seu trabalho são tramas não-lineares e múltiplas que se conectam em algum ponto da narrativa. Em seus roteiros, elas estão presentes desde seu primeiro longa-metragem, ?Amores Brutos?. Você não teme que essas características possam se transformar em cacoetes? Como uma narrativa pode se tornar um cacoete? Em nosso cotidiano, nós usamos esse tipo de estrutura narrativa para contar histórias e, até agora, não vi ninguém dizer que isso é um cacoete. Por que não é um cacoete contar histórias de maneira linear? Não conheci ninguém, nunca, que, na vida real, contasse uma história linearmente. E se eu tenho uma característica tão marcante assim, bom. Isso significa que meu trabalho tem minhas marcas pessoais. Triste seria ser conhecido por seguir as regras.
Para encerrar, que autores brasileiros você lê atualmente? Meus autores brasileiros contemporâneos favoritos são Paulo Lins e Marçal Aquino. Do passado, gosto de Guimarães Rosa e Jorge Amado.
AFP
Arriaga participa de debate na Bienal no sábado a partir das 19h