Diversão

29/07/2008 - 19:50 (atualizada em 03/09/2008 23:31)

Zé do Caixão revela os bastidores de "Encarnação do Demônio"

Em entrevista exclusiva, o cineasta José Mojica Marins fala das dificuldades que superou para tirar o longa do papel

Por Diego Maia

Foram 40 anos até que José Mojica Marins, o Zé do Caixão, conseguisse lançar “Encarnação do Demônio”, o desfecho da trilogia do coveiro sádico. Apesar de longa, essa trajetória cheia de percalços permanece fresca na cabeça do diretor. Mortes de produtores, censura, falta de verba... A história da produção de “Encarnação” daria um longa tão interessante quanto o filme em si. Nesta entrevista ao Abril.com, o diretor abriu o baú dos “causos” mais divertidos da produção e, com seu bom humor típico, revisitou as quatro décadas que separam o primeiro esboço do filme daquilo que o Brasil poderá ver nos cinemas no dia 8 de agosto.


Abril.com: “Encarnação do Demônio” deveria ter sido realizado nos anos 60, mas você não conseguiu. Além da Ditadura, que outros problemas impediram a realização do filme?
José Mojica Marins: O filme é uma luta desde 1966. O roteiro estava pronto, mas tive problemas com a Ditadura, com padres, com a censura. Tive problemas até com os estudantes. Eles tinham entendido que o filme era nazista, porque o Zé procurava uma mulher superior.

O filme chegou a conseguir produtores em alguns momentos, mas os três envolvidos morreram, certo?
É, morreram três produtores. Dois estrangeiros e um brasileiro. Eles não tinham sócios, não eram casados, então ninguém podia prosseguir o trabalho que haviam iniciado. O último, João Novaes, arrecadou R$ 2,5 milhões de verba em 1998. Mas o cara morreu e o dinheiro voltou para o Estado. Era uma grana alta. Seria a grana mais alta de toda a minha vida. Depois disso, achei que não ia acontecer mais nada.

Você chegou a acreditar em algum tipo de maldição em relação a esse filme?
Não, eu não acredito em nada disso. Quem acredita nessas coisas é o Zé. Eu só acredito em vida fora do planeta, em dimensões paralelas...

Como a Gullane e a Olhos de Cão, produtoras do filme, entraram na história?

Em 2000, chega o Paulo (Sacramento, produtor, da Olhos de Cão), dizendo que queria fazer um filme comigo, e a primeira coisa que eu pergunto é “Você é casado? Tem sócio na produtora?”. Ele disse que sim e eu me animei. Teria que morrer muita gente para o filme não sair de novo (risos). Começamos a correr atrás disso. Mas eu ainda não acreditava. De repente, saiu a primeira verba, em 2003. Aí eu comecei a acreditar. E o Paulo e a Gullane Filmes souberam aplicá-la. Ganhamos outra verba, em 2005. No total, R$ 1,8 milhão de orçamento. Quando me procuraram, eles (os produtores) não imaginavam que eu fosse escolher fazer o “Encarnação”, que era um sonho deles. Mas era o meu sonho também.

Quais mudanças o filme sofreu da primeira versão do roteiro até a final?
“Encarnação” foi criado nos anos 60, mas teve só umas adaptações. Agora, ele é passado em São Paulo. Antes, o Zé saía do interior e vinha para cá usar o LSD, naquela cena de alucinação do purgatório. E agora ele tem a alucinação, mas sem o LSD. Nessa cena, usei computação para criar o céu vermelho. Foi a única cena (em que usei computação). E se não tivesse computador, eu ia me virar, usar um pano vermelho...

Agora, com o filme pronto, você ganhou sete prêmios em Paulínia. Qual foi a sensação de ser consagrado por uma obra que demorou tanto tempo para sair do papel?
Paulínia foi a grande realização do meu sonho. O Paulo disse que queriam fazer uma homenagem pra mim e perguntaram se queríamos concorrer lá. E o medo da gente concorrer e não ganhar nada, com o lançamento programado para agora? Mas fiquei pensando no capricho do roteiro e na montagem a que esse homem (Paulo Sacramento) se dedicou dois anos e disse que ao menos melhor montagem a gente ganharia. Alguns amigos já tinham visto a fita. Todo mundo tinha gostado. Mas eram jornalistas, cineastas... Eu queria saber do povo. Minha aflição era essa: ver a reação do povo. E veio a salva de palmas no final da exibição. No dia da premiação, o Fabiano (Gullane, produtor) e o Paulo estavam mais nervosos que eu. E sai o primeiro prêmio. “Prêmio da Crítica”. Eu nunca imaginei que eu receberia isso! A crítica me dando o prêmio de melhor filme! A noite pra mim já tinha valido por isso. Mas levamos outros seis prêmios.

Zé do Caixão seduz uma das candidatas a mãe de seu "filho perfeito"


Você já havia usado aranhas e cobras nos outros filmes da trilogia, mas agora há mais animais. Como foi rodar cenas com baratas, ratos e bichos assim?
A cena das baratas foi a mais difícil que já rodei. Vi todo mundo morrendo de medo. A equipe ficava a uns 100 metros de distância. E ela (Lenny Dark, atriz) cheia de baratas no corpo, enfiando a cabeça naquela tina. Acho que ficou legal. Mas a cena mais alucinante da fita é a do cara pendurado pelos ganchos. Chegou a dar medo na gente.

E como vocês fizeram isso?
Fui no programa do João Gordo procurando todo tipo de gente esquisita. Aí apareceu um cara magrelo dizendo que se suspendia em ganchos. Foi a cena que eu mais detalhei, mas sempre com medo. Era de verdade, pô! Eu falava pra ele gritar, mas com medo de ele despencar. “Se esse cara morrer, vai todo mundo preso” (risos). Na hora do almoço, o cara já tinha terminado a cena. Mas ele pediu para ficar um pouco lá, se balançando. Ele ficava balançando de um lado para o outro, tomava impulso na parede! A gente com tanto medo e o cara todo feliz lá, balançando... Ele gosta disso. E é a cena que a gente vê e fica mais impressionado. A mais difícil foi a das baratas, mas a mais impressionante foi essa dos ganchos.

E a cena do rato? Ela também é impressionante, e consegue assustar sem mostrar tudo explicitamente.
Ela é montada. Essa cena está no filme desde 1966. Era para ter um maçarico abrindo o corpo da mulher e o rato roendo. Mas aí o filme “Velozes e Furiosos” fez uma cena parecida com essa. E então eu pensei em fazer o rato entrar pela “periquita” (risos). Mas disseram pra mim que o rato não podia encostar em um pêlo da menina, caso contrário, parariam as filmagens. Confiei na montagem do Paulo, mas a cena, na minha idéia, era bem mais forte. Eu queria deixar a cabeça do rato entrar. E a atriz topava!

Este é, provavelmente, seu filme mais violento. Por quê?
Eu tive a liberdade que eu não tinha no passado, quando censuravam até o título da fita. Não vi “Jogos Mortais”, mas comparam muito, e dizem que é até mais violento.

Em uma cena, você volta ao final censurado de “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver”, dando continuidade a ele nesse filme. Como foi revisitar esse episódio de sua carreira mais de 40 anos depois?
O Zé nunca se converteu. Em “Esta Noite...” ele afundaria no pântano e gritaria “Eu não acredito!”. Era esse o final. Aí a censura impôs outro diálogo, “A cruz, padre, a cruz” e uma música sacra. Eu estava sob voz de prisão e tinha que seguir a Censura. Acho que, agora, eu dei a resposta a isso. E usei um cara que é minha réplica perfeita (Reymond Castille, sósia americano fã de Mojica). Ele veio por conta própria só para fazer essa cena. Então o Zé regressa, pega a cruz e mata o padre com ela. Depois, mete bala no soldado e cega o personagem que seria interpretado pelo Jece Valadão. O personagem não tinha se convertido do nada. Foi difícil para o público entender isso na época, era uma incoerência. Sempre diziam que eu tinha uma mensagem política camuflada no meu terror. Até hoje estou procurando essa mensagem política... Não entendo nada de política, sou corintiano só. (risos).

 


Reymond Castille, o fã americano que virou sósia de Zé do Caixão


O filme abre espaço para continuação, mas sem o Zé. Algum plano de tentar encontrar outro sucessor, como você tentou em 1999?
Não. Eu fiz esse concurso em 1999 para achar um sucessor e mais de 10 mil pessoas se candidataram. Teve um júri da pesada, pessoas que entendiam dos meus filmes. E escolheram um. Viajei com ele. E toda vez que eu deixava ele sozinho no palco, o povo vaiava. Já sei que sucessor não vou ter. Chacrinha não tem. Flávio Cavalcanti não tem. Se morrer o Silvio Santos, ele não tem também.

Mas então haveria uma continuação para a saga do Zé?
Eu deixei um gancho grande com aquele raio que cai na lápide. Se pedirem a continuação, eu volto com o Zé em “Sete Ventres para um Demônio”. Seria uma fita fantástica, diferente. O raio atingindo ele mexeria com alguma parte do cérebro...

“Sete Ventres” seria já seu próximo projeto?
Eu já falei que não era pra história do Zé ser só uma trilogia. Como estou com 72 anos, acabei fazendo só esses três filmes. Mas a idéia era fazer uma saga maior. Tenho várias sinopses. A história completa teria sete filmes. Além de “Sete Ventres”, “Lamento dos Espíritos Errantes”, “Sepulcro do Diabo” e “Alguém Deve Morrer Esta Noite” em que, aí sim, o Zé morreria. Ele seria morto pelo filho. Pode ser que no “Sete Ventres” eu faça isso com uma pequena adaptação, finalizando a saga no quarto filme.

Você sempre sofreu com falta de verbas, teve que abandonar alguns filmes porque não tinha dinheiro para completá-los. Qual sua opinião sobre a atual política nacional de fomento ao cinema?
Olha... O dinheiro sempre sai para as mesmas pessoas. Eu fui uma exceção, uma quebra de preconceito. O poder dos “globais” e dos “grandes” segura essas verbas. Se Deus me desse força, eu gostaria de estar livre no meio de 2009 para rodar os 27 estados brasileiros, falando com todo mundo que quer fazer cinema. Eu queria juntar uma passeata e vários ônibus e ir para Brasília, falar com Lula e Gilberto Gil. Porque tem cara que tem mansões e pede verba! E aquele cara que é criativo e pobre não ganha p**** nenhuma porque não tem currículo! Eu comandaria essa passeata, para o Lula ouvir todo mundo. Aí eu acho que teríamos justiça.

 

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