É clichê, mas é verdade: a vida de José Mojica Marins, o Zé do Caixão, daria um filme. Este neto de imigrantes espanhóis moradores do Brás, em São Paulo, dedicou a maior parte de sua carreira ao cinema de horror, mas sua trajetória varia do drama à comédia e de volta ao drama com uma velocidade vertiginosa.
Cinema sempre fez parte da vida de Mojica. Nascido na Vila Mariana, zona sul de São Paulo, o futuro cineasta cresceu em Vila Anastácio, na Lapa, onde a sogra de um amigo de seu pai, Antonio, havia construído um cinema. Sem emprego e sem casa, Antonio não pensou duas vezes ao aceitar gerenciar o negócio. E foi morando nos fundos do cine Santo Estevão que o pequeno José entrou em contato com a sétima arte pela primeira vez - e da maneira mais insólita imaginável.. “A primeira imagem que vi em um cinema foi a de uma vagina com gonorréia”, relembra Mojica aos risos, contando o susto que tomou aos quatro anos de idade ao assistir a um filme de educação sexual escondido na cabine de projeção.
Colecionando gibis, assistindo aos filmes de graça no cinema ou brincando de teatro, ele parecia treinar para o que viria a seguir. Aos 12 anos, depois de insistir com o pai, ganhou uma câmera 8 milímetros de presente de aniversário. As filmagens “de brincadeira” deram lugar a um “esboço” de filme chamado “O Juízo Final”, fita amadora sobre uma invasão alienígena rodada quando o quase-cineasta tinha apenas 13 anos de idade. Antonio, pai-coruja, gostou tanto da “superprodução” que deixou as crianças exibirem o trabalho na tela do Cine.
A paixão pela sétima arte deixou claro o caminho que Mojica seguiria. Em 1953, aos 17 anos, ele criou, com um grupo de amigos, a Companhia Cinematográfica Atlas, rebatizada pouco depois como Indústria Cinematográfica Apolo Ltda. “Sentença de Deus” (1954) seria o primeiro longa do diretor. Depois de angariar fundos vendendo cotas de patrocínio em um sistema suspeitíssimo, o projeto começou a ser filmado. Mas, como seria comum na carreira de Mojica, teve problemas de orçamento e foi abandonado logo depois.
O primeiro longa do diretor só sairia em 1958: “A Sina do Aventureiro”, western made in Brasil, pioneiro na utilização do formato Cinemascope. Foi nessa época que, procurando algum roteirista que pudesse ajudá-lo na formatação do script, Mojica conheceu Luís Sérgio Person, cineasta responsável por clássicos como “São Paulo S/A” (1965) e “O Caso dos Irmãos Naves” (1967), de quem se tornou amigo.
Autodidata, Mojica sempre improvisava nas filmagens. Em “Sina”, trabalhou como diretor, ator, maquiador, cenógrafo, figurinista, eletricista e até cabeleireiro. Sua versatilidade é reconhecida até hoje pelas equipes com quem trabalha.

Uma das vítimas de Zé do Caixão em "Esta Noite Encarnarei..."
Finalmente, Zé do Caixão
Depois do faroeste brazuca, o diretor partiu para um dramalhão. “Meu Destino em Tuas Mãos” (1962), sobre crianças que fogem de casa. Foi um fiasco. Mas a inspiração para criar o coveiro que ficaria conhecido em todo o país veio logo depois, em um pesadelo decupado como filme de terror. Mojica sonhou que uma figura semelhante à sua o arrastava para uma cova aberta. Na lápide, seu nome e sua data de nascimento. Nascia um monstro...
Como ninguém fazia filme de terror no Brasil, o diretor colocou na cabeça que sua próxima empreitada seria uma produção do gênero. “À Meia-Noite Levarei Sua Alma” (1964), a primeira aparição do sádico coveiro Zé do Caixão nas telonas, foi financiado com outro sistema de cotas suspeito e com o dinheiro que Mojica obteve vendendo móveis e mais objetos pessoais. Contrariando expectativas, o filme foi um estouro de bilheteria. Chegou a ficar quatro meses em cartaz em uma sala de São Paulo. Mojica, no entanto, não fez dinheiro com a produção: no desespero por mais verba, havia vendido suas cotas a outro patrocinador, Ilídio Simões Martins.
A crítica se dividiu, mas a fita fez sucesso por onde passava. Conhecido em boa parte do Brasil, Mojica partiu logo para uma continuação: “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver”. O filme estreou em 1966, mas Mojica sofreu, pela primeira vez, com a Censura da Ditadura Militar. O diretor teve de alterar o final da produção. Prestes a afundar no pântano, Zé do Caixão, conhecido por ser blasfemo e ateu, se converte e grita “A cruz, Padre! A cruz!” enquanto uma música sacra sobe na trilha sonora. A incoerência deste final sempre incomodou Mojica, mas a resposta a essa censura veio em “Encarnação do Demônio” (2008), quando o diretor retoma o final do filme de 1966 e o termina do jeito que imaginava.
Amigo de cineastas como Rogério Sganzerla, Ozualdo Candeias e Carlos Reichenbach, e instalado na Boca do Lixo, pólo do cinema marginal brasileiro, Mojica iniciou sua carreira na TV com um programa na Bandeirantes. “Além, Muito Além do Além” foi a primeira e provavelmente mais bem-sucedida das várias empreitadas de Zé do Caixão na TV.
A fama aumentava, mas o dinheiro parecia cada vez mais curto. O salário na Bandeirantes era uma mixaria para o tamanho do sucesso do programa e Mojica não era dos melhores administradores de suas finanças. Nessa época, a Censura desferiu um de seus maiores golpes contra o diretor. “Despertar da Besta”, finalizado em 1969, foi completamente vetado e nunca viu a luz do dia. Exibido apenas em sessões especiais e festivais, ganhou remontagem em 1986, quando venceu os prêmios de melhor ator, para Mojica, e melhor roteiro no Rio-Cine Festival. Recentemente, foi resgatado e lançado em DVD.
Em 1967, Mojica queria iniciar as filmagens de “Encarnação do Demônio”, o desfecho da trilogia iniciada por “À Meia-Noite...”, mas os produtores, assustados com a recente proibição de “Despertar da Besta”, acharam melhor que ele escolhesse outro roteiro.
Filmes como “O Estranho Mundo de Zé do Caixão” (1968), “Finis Hominis” (1971) e “Exorcismo Negro” (1974), rodados nessa época, não foram fracassos retumbantes, mas nem de longe repetiram a comoção causada por “À Meia-Noite...” e “Esta Noite...”. Para conseguir dinheiro entre um filme e outro, Mojica topava pequenos papéis em produções obscuras.
Com o surgimento da Embrafilme e a popularização da televisão no começo dos anos 70, a produção da Boca do Lixo desandou. Mojica já não tinha controle sobre suas obras, já que o dinheiro era cada vez mais escasso. Nessa época, para ganhar alguma grana, ele chegou a vender o encalhe dos gibis que havia lançado há alguns anos.

Zé sente o gosto do próprio veneno em "Encarnação do Demônio"
Zé do Caixão grava o primeiro filme de zoofilia do Brasil
Sem dinheiro, Mojica topou dirigir pornochanchadas. “A Virgem e o Machão (1973)” e “Como Consolar Viúvas” (1976) rendem alguns trocados ao diretor, que usava o pseudônimo J. Avelar para assinar as obras. Sua situação no final dos anos 70, no entanto, era das piores. Quase sempre bêbado e sem um tostão no bolso, Mojica acabou se envolvendo com a política nessa época, por acaso. Ele visitava a Câmara dos Vereadores de São Paulo com um amigo quando foi abordado por políticos de diversos partidos, tentando convencê-lo a se candidatar. Acabou saindo candidato a deputado federal pelo PTB, prometendo proteger “coveiros, lixeiros e cineastas”. Não deu muito certo: Mojica teve apenas 1228 votos.
Para sobreviver, ele aceitou o convite para dirigir filmes de sexo explícito e rodou diversas produções durante a década de 80. Conseguiu ser transgressor até em um gênero “pouco apreciado artisticamente”, digamos. Em “24 Horas de Sexo Explícito” (1985), Mojica chocou o país ao usar um cachorro em cena com a atriz Vânia Bournier, por sinal a primeira cena de zoofilia do Brasil. O filme, claro, fez muito dinheiro e ganhou uma continuação: “48 Horas de Sexo Alucinante” (1987), que foi um fracasso.
Nos anos 90, a sorte mudou um pouco. Através do jornalista André Barcinski, Mojica conseguiu lançar alguns de seus filmes clássicos no mercado americano. “Coffin Joe”, como ficou conhecido por lá, ganhou destaque em publicações especializadas em todo o mundo. Em 1996, o diretor estreou o “Cine Trash” na Bandeirantes, programa que o apresentou a uma geração que desconhecia a popularidade do mestre do horror.
Desde 2000, Mojica voltou a pensar em “Encarnação do Demônio”, a continuação de “Esta Noite...” que ele queria ter realizado desde 1967. Em parceria com as produtoras Olhos de Cão (de Paulo Sacramento) e Gullane Filmes, o filme finalmente estréia em 2008, mais de 40 anos depois do desejado. É o fim da história de Zé do Caixão, mas, espera-se, o recomeço de uma carreira brilhante e ímpar no cinema nacional.
Para saber mais
“Maldito – A Vida e o Cinema de José Mojica Marins, o Zé do Caixão”, de André Barcinski e Ivan Finotti.
Editora 34, 1998.
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