08/07/2008 - 17:01 (atualizada em 03/09/2008 23:28)
Atrás da batida perfeita, João Gilberto muda de endereço várias vezes
O cantor voltou a Juazeiro - sua cidade natal - mas, antes disso, passou por Porto Alegre e Diamantina
Da Redação Bravo
Entre 1952 e 1955, João estreou como compositor, com Você Esteve com Meu Bem? (uma co-parceria com Russo do Pandeiro, gravada por Marisa), e como intérprete, com o compacto Quando Ela Sai. Quem ouve este último nem reconhece João, cantando num estilo bem diferente do atual. ¿Foi uma fase, como as de Picasso¿, definiria depois. E a fase terminou logo que João percebeu que não estava evoluindo. Não tinha renda fixa, morava de favor e passava as noites de bar em bar, tocando violão emprestado. Percebeu que, se quisesse mesmo uma mudança, era ele quem teria de mudar ¿ geograficamente. Caetano Veloso, afinal, estava certo: a Bossa Nova nasceu com João em Juazeiro... quando ele voltou para sua cidade natal aos 24 anos.
Antes de voltar a Juazeiro, porém, João Gilberto teve dois outros endereços. Passou sete meses em um hotel em Porto Alegre, RS, sustentado pelo amigo e cantor Luís Telles. Depois, foram mais oito meses em Diamantina, MG, na casa da irmã, Dadainha. Foi uma espécie de ano sabático que não durou um ano e não teve nada de sabático: João trabalhou como um artesão de sua música, obcecado em descobrir aquela batida do violão e aquele jeito de cantar que embalavam seus sonhos. Estava desenraizado do mundo, mas criava as raízes da personalidade profissional que o consagraria ¿ sua compulsão metódica, seu experimentalismo repetitivo, sua busca perfeccionista.
Diz-se que os moradores de Diamantina mal viam a cara de João. Ele não saía de casa. Raramente tirava o pijama ¿ um hábito que manteve por vários anos, quando se tornou quase um eremita em seu apart-hotel no Leblon, no Rio, na década de 80. Passava o dia todo no banheiro de Dadainha, cujos ladrilhos proporcionavam uma acústica perfeita. Quando saía de lá era para serenar a sobrinha, Marta Maria, recém-nascida.
De Minas, voltou enfim para Juazeiro, já confiante de que estava no rumo certo. Faltava aplicar aquele ritmo nascente a uma composição. Às margens do rio São Francisco, onde adorava praticar, João inspirou-se nas lavadeiras que, para carregar enormes trouxas de roupa na cabeça, andavam com um requebrado todo próprio. Foi imitando essa ginga nas cordas de seu instrumento que surgiu Bim-Bom: ¿Bim bom bim bim bom bim bim / É só isso o meu baião / E não tem mais nada não / O meu coração pediu assim, só¿.