08/07/2008 - 16:56 (atualizada em 03/09/2008 23:28)
João Gilberto revoluciona a música no fim dos anos 50
O baiano desenvolveu um estilo único e, influenciado por Orlando Silva, aprendeu a cantar sem exageros vocais
Da Redação Bravo!
O que vem a seguir na trajetória de João Gilberto é uma avalanche de elogios tão grande que, em meio aos aplausos, talvez fique difícil ouvir direitinho o dedilhar do violonista e entender a origem de tanta aclamação. É preciso reservar alguns parágrafos para tentar explicar o inexplicável: fundamentar como João conseguiu revolucionar a música do fim dos anos 50 munido só de voz e violão.
Uma das qualidades que João admirava em Orlando Silva era o modo como nunca interpretava a mesma música da mesma maneira. Às vezes adiantava-se na letra, às vezes atrasava-se. Em uma entrevista de 1971 à Veja, João chegou a afirmar que Orlando ?foi o maior cantor do mundo em sua época. Sabia falar as frases com naturalidade e não exagerava em nenhum ponto da música?. A palavra-chave, na declaração, é ?falar?: essa foi a principal influência que João absorveu. Entre os azulejos do banheiro de Dadainha, percebeu que, usando mais o nariz do que a boca na hora de cantar, poderia eliminar o vibrato de sua voz. Cantaria mais baixo, mas assim podia manejar o tempo da letra como quisesse.
Tornou-se sua marca registrada: o cantar falado, com a entonação correta e a pronúncia precisa de cada fonema. Daí vem sua fama de perfeccionista, que só os menos esclarecidos tomam por rabugice. Aloysio de Oliveira contou que, certa vez, teve de fazer 28 gravações de João Gilberto cantando Rosa Morena, de Dorival Caymmi, porque João não estava satisfeito com sua vocalização do ?o? de ?Rosa?. Nas palavras de João, em entrevista de 1971 à Veja: ?Sentia que aquele prolongamento do som que os cantores davam prejudicava o balanço natural da música. Encurtando o som das frases, a letra cabia certa dentro dos compassos e ficava flutuando. Eu podia mexer com toda a estrutura da música sem precisar alterar nada. Outra coisa com que eu não concordava eram as mudanças que os cantores faziam em algumas palavras, fazendo o acento do ritmo cair em cima delas para criar um balanço maior. Eu acho que as palavras devem ser pronunciadas da forma mais natural possível, como se estivesse conversando. Qualquer mudança acaba alterando o que o letrista quis dizer com seus versos?.