08/07/2008 - 11:41 (atualizada em 03/09/2008 23:28)
Vinicius se rende aos ritmos africanos depois da Bossa Nova
O poeta deixa o Itamaraty, muda de religião, faz parceria com Toquinho, casa-se mais vezes e morre na banheira
Da Redação Bravo!
O Itamaraty estava incomodado demais com os shows, as companhias e os uísques do diplomata Vinicius de Moraes. O poeta já tinha recebido alguns recados furiosos do governo, mas seguia feliz na vida de poeta, cantando com Odete Lara, fazendo shows com Dorival Caymmi, ganhando prêmios em festivais de música, escrevendo o roteiro do filme Garota de Ipanema... Até que, em 1969, foi expulso da entidade pelo então presidente marechal Arthur da Costa e Silva: Ponha esse vagabundo para trabalhar, teria escrito em seu despacho. Vinicius chorou. Não queria ter saído dessa forma.
De 1969 a 1971, a vida do poeta virou de cabeça para baixo. No ano em que é exonerado, compôs "Gente Humilde", com Chico Buarque, se casou com Christina Gurjão, mas a deixou, grávida de cinco meses, para viver com a baiana Gesse. Foi morar na Bahia e entrou para o candomblé. No segundo semestre, Vinicius iniciou com o violinista e compositor Toquinho (Antônio Pecci Filho) a parceria mais intensa de sua carreira, com quem compôs quase 100 músicas, entre elas "Aquarela", "Carta ao Tom", "As Cores de Abril", "Morena Flor", "Para Viver um Grande Amor" e o maior sucesso, "Tarde em Itapuã", e fez cerca de 1000 shows.
Toquinho tinha 22 anos e o primeiro LP gravado aos 19. Recebeu influência de Paulinho Nogueira, Baden Powell, estudou com o grande violonista Oscar Castro Neves e compôs "Lua Cheia", com Chico Buarque de Hollanda, de quem já era amigo desde a adolescência e com quem foi passar uma temporada em Roma, em 1968, quando Chico estava no exílio. Vinicius o conheceu num teste ele precisava de um bom violão para acompanhar a gravação com o cantor italiano Sérgio Endrigo e o poeta Giuseppe Ungaretti e ficou impressionado com o rapaz. Já tinha voltado para o Brasil quando Vinicius ouviu o disco. Um belo dia ele me telefonou pedindo para eu substitiur o Dori Caymmi no show que fazia com Maria Creusa. Começamos a compor dois dias depois disso, contou Toquinho em entrevista publicada no "Songbook 2". A primeira música foi Como Dizia o Poeta e a dupla não parou mais nos 11 anos seguintes até a morte de Vinicius de canções infantis a trilhas para novelas.
Até 1980, o poeta publicou o soneto "A Pablo Neruda", fez turnês pela Europa, escreveu a letra "Deus Lhe Pague", com Edu Lobo, compôs com Francis Hime, gravou um LP em Paris com Toquinho, fez show histórico com Tom Jobim e Miúcha no Canecão, se casou com Marta Ibañez e depois com Gilda Matoso e, em 1979, sofreu um derrame cerebral no avião, voltando da Europa.
Em abril de 1980 foi operado para colocar um dreno na cabeça e, em julho, no dia 9, morreu de edema pulmonar na banheira de sua casa na Gávea, no bairro onde nasceu. Toquinho estava lá. "Esquentamos uma massa lá pelas 3h da manhã e às 4 ele resolveu tomar um banho de banheira. Quando deu 7h, a empregada me acordou. Vi o Vinicius morrer. Primeiro achei que foi um castigo, mas depois recebi aquilo como um privilégio o de ter convivido com ele até o último instante", contou. E assim ele se foi: na banheira, no nono casamento, com uma história de vida única e muito bem vivida. Como dizia o poetinha: É melhor viver do que ser feliz. Vinicius de Moraes teve o privilégio de viver e de ser feliz.