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Diversão

07/07/2008 - 22:23 (atualizada em 03/09/2008 23:28)

Passagem do U2 pelo Brasil foi bombástica

O tiranossauro U2 - grande, poderoso, faminto - entra na casa de louças. Mas quem há de reclamar do estrago feito quando roncam as guitarras de The Edge em "Vertigo"?

Em fevereiro de 1980, o U2 voltou à Irlanda depois de uma frustrante temporada de shows em Londres. Com muito esforço, eles armaram uma apresentação em uma casa de 1200 lugares , tudo para tentar impressionar um executivo da Island Records. A venda de entradas foi tão fraca que Bono, The Edge, Larry e Adam não tiveram opção: distribuíram boa parte das entradas gratuitamente, só para fazer volume. A platéia daquele dia 26, mais ou menos mil pessoas, presenciou o último show da fase sem gravadora do grupo.

Bem, para nós, brasileiros, em 2006, que nos arrastamos por horas em alguma fila desesperados por um dos 73 mil ingressos da Vertigo Tour, essa história pode dar nos nervos. Os shows de São Paulo no estádio do Morumbi, dias 20 e 21 de fevereiro não tiveram nada de pequeno, independente, muito menos gratuito. O imbróglio incluiu acusações que poderiam sair de algum esquete do Monty Python: velhinhos comprando entradas para revender com lucro, responsáveis pela venda indicando cambistas etc. A organização, em nota oficial, alegou que não esperava uma procura tão intensa pelo primeiro lote, de só 73 mil lugares. Isso tudo com a entrada mais barata saindo por 200 reais. Observação irônica de um site britânico de entretenimento: Bono gosta de fazer campanha para acabar com a pobreza no mundo. As entradas do U2 foram à venda no Brasil nesta semana por 88 dólares , dois terços do salário mínimo local. Ih!

Curiosamente, os brasileiros estão se especializando em confusão cercando o U2. Em 1998, quando a PopMart Tour passou pelo Rio, o fim do mundo aconteceu na noite do show. As vias que levavam ao autódromo de Jacarepaguá ficaram congestionadas e boa parte dos 113 mil pagantes não chegou a tempo de ver a banda descendo do tal limão gigante, ao lado do meio-arco gigante do McDonalds. E a longa fila de carros parados foi só a última gota em um oceano de distúrbios entre a produção nacional e a equipe do U2. Paul McGuiness, o empresário do grupo, esbravejou contra o local do show (ele queria o Maracanã) e o patrocinador (uma marca de cerveja, que teria usado a imagem de uma banda cover em um comercial). O evento é considerado um dos maiores fiascos da história de shows internacionais por aqui, chamado pela Veja de "show de roubadas". Para compensar, Bono e companhia voltaram à cidade em 2000 para um showcase no Fantástico e a gravação de um clipe, "Walk On" (que acabou virando versão 2). "O único gosto amargo da nossa visita anterior ao Brasil foi saber que muita gente não viu o show no Rio porque ficou presa no trânsito", disse Bono na época. "Desta vez queremos atingir o maior número de fãs, para que todos os que ficaram de fora possam nos ver tocando. Isso e divulgar o CD 'All That You Cant Leave Behind', claro."

Também no exterior o U2 passou recentemente por uma saia-justa sobre venda de ingressos. E foi com seu fã-clube oficial. A promessa era de que cada um dos assinantes (40 dólares anuais, no u2.com) poderia participar de uma pré-venda de entradas. Mas não deu certo. O sistema de vendas online foi sobrecarregado e grande parte dos fãs ficou na mão. Para não ficarmos atrás, exatamente um ano depois, algo semelhante ocorreu por aqui, quando o site escolhido para a venda online não agüentou a demanda e saiu do ar. Anos diferentes, problemas parecidos.

Todos esses números sempre com muitos algarismos indicam o óbvio: o U2, aos 30 anos de carreira, ainda está no topo. Não só das turnês, mas no topo de tudo. O primeiro levantamento anual de lucros da Billboard mostra que o grupo faturou 255.022.633,35 dólares em 2005. Em vendas de CDs, os irlandeses ficaram em 27º lugar. Nas vendas digitais, em nono. A cereja do bolo foi a Vertigo Tour, campeã em vendas (os Rolling Stones tiveram um lucro maior, mas fazendo menos shows e cobrando mais caro pela entrada).

Campanhas

Entre um clipe e uma performance de "Sunday Bloody Sunday", Bono ainda teve tempo para campanhas. Muitas. Pelo fim da pobreza extrema, pelo perdão da dívida externa dos países do Terceiro Mundo, pelo auxílio aos preás pernetas da Nova Guiné... "Tenho pouquíssimo tempo sozinho", confessou o rockstar à revista Time, que o elegeu uma das três Pessoas do Ano. "É complicado se você está gravando o vocal (de uma música) e tem de parar porque um ministro da economia ligou. É difícil de explicar isso ao resto da banda". Deve ser um pouco desesperador mesmo . Todos querem um pedaço de Bono e do U2. Na parte americana da turnê, todo tipo de celebridade apareceu nos bastidores: Steve Jobs (parceiro da banda na divulgação do iPod), Winona Ryder e Chelsea (filha do ex-presidente Bill Clinton). O Partido Republicano comprou camarotes dos shows para usar como barganha política. No Brasil, chegou a rolar um papo de que o vocalista pediu um encontro com o presidente Lula, mas a organização do evento desmentiu. O mesmo Bono que era ridicularizado por George Bush pai nos anos 90, hoje é homem sério da política internacional. No ano passado, ele chegou a ser citado como possível candidato à vaga de presidente do Banco Mundial. O jornal L.A. Times até publicou um editorial pedindo a tal indicação. O blablablá foi tanto que, em uma coletiva de imprensa do U2, os repórteres apertaram o cerco e foram mais longe: "E aí, Bono, você pensa em se candidatar à presidência dos EUA?" O cantor sorriu e respondeu: "Não, eu nunca me mudaria para uma casa menor..."

A política pode ocupar boa parte do tempo de Bono hoje, mas ele diz tentar não se esquecer do principal. "Tenho de ter muito cuidado, porque foi a música que me deu esse poder", disse à Time. Ao introduzir a banda ao Hall da Fama do Rock, em 2005, Bruce Springsteen não poupou elogios. "Eles são os guardiães de uma das mais bonitas arquiteturas sonoras da história do rock'n'roll", disse, logo depois de comparar os músicos a Beatles, Pink Floyd e The Band. Bono, o porta-voz oficial, respondeu sem modéstia alguma. "A Rolling Stone ainda nos coloca na capa. A MTV e a VH1 tocam nossas músicas. É ótimo ser reconhecido estando no auge da carreira".

Olhando do alto, o U2 vê que tem combinações quase infinitas de repertório para os shows e se aproveita muito bem disso. Para os fãs, é uma questão de sorte. Já entraram no setlist faixas obscuras como "Party Girl" (de "Under a Blood Red Sky"), "Out of Control" (das primeiras demos, que acabou em "Boy") e "MLK" (de "Unforgettable Fire"). Se é para torcer, o melhor é esperar que role "Miss Sarajevo" (do projeto "Passengers"), só para ver Bono assumindo os vocais originalmente gravados pelo tenor Luciano Pavarotti. Os azarados da vez são os fãs do álbum "Pop", solenemente ignorado. "Esse disco não se expressava do modo que deveria", disse Bono recentemente. "Ele se tornou um trabalho segmentado, não era para ser assim".

Uno, dos, tres, catorce!

Se a Vertigo Tour chegar ao Brasil sem mudanças radicais, o quarteto sobe ao palco ao som de "Wake Up", do Arcade Fire, e engata a primeira do show que pode ser "Vertigo", "City of Blinding Lights" ou "Love and Peace or Else". Uma chuva de papel picado cobre o recinto. Uma cortina de luzes substitui o telão, com imagens coloridas de bandeiras. Bono surge na ponta da plataforma redonda que separa o gramado da tal hot area, um espaço para afortunados, mais próximo do palco. A tal plataforma é como se fosse a pista particular de cooper da banda : cada hora um deles dá uma volta, brinca com um lado diferente da platéia. Até o baterista Larry Mullen Jr. tem o seu momento, com uma bateria portátil elevada nesse espaço (e que Bono surra impiedosamente durante "Sunday Bloody Sunday"). As músicas antigas, aliás, são todas reproduzidas em arranjos fiéis nada de momento-solo choroso com o The Edge ou versões eletrônicas modernosas. Só "Elevation" ganha uma introdução voz e distorção, preparando a entrada do formato original.

Qualquer dúvida quanto à evolução tecnológica-cultural dos shows de rock cai quando o vocalista sugere que os fãs acendam seus celulares em "One". A música é dedicada à One Campaign, de combate à Aids e à pobreza extrema. Bono conta como as pessoas podem aderir à campanha ali mesmo, via mensagem de texto do celular.


Em mais de duas horas, o U2 dosa bem todas as suas facetas política, hitmaker, performática e religiosa. O repertório é bem mais amplo do que o da PopMart, com mais canções dos anos 80 e menos dos 90. No final, quando as luzes do estádio se acenderem, o público, o mesmo das filas de horas e horas, com certeza já terá perdoado seus heróis irlandeses.

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(matéria publicada na revista Bizz, edição 198, fevereiro de 2006. Autor: Paulo Terron)

 

Por CLIMATEMPO

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