07/07/2008 - 21:36 (atualizada em 03/09/2008 23:28)
Conheça a nova rave
A new rave colore as pistas de dança do mundo, embalada por um verdadeiro exército de bandas novas
Sons de sirene, bastões de néon coloridos espalhados pelo público, músicas que fundem a melodia indie e momentos caóticos, misturados com música eletrônica. Os rostos são jovens e apontam para o futuro. Suas músicas, assim como suas roupas, são coloridas (lembra daquele seu moletom da Pakalolo?) e seus clipes mais parecem acidentes nucleares. Essa descrição poderia ser usada para caracterizar uma tribo muito conhecida aqui no Brasil, a dos fãs da música eletrônica, principalmente o trance psicodélico. Pois é, poderia. Nesse caso estamos falando do novo fenômeno musical que faz os jovens europeus babarem (às vezes literalmente) e já cria tentáculos nos EUA e no Brasil ¿ a new rave.
Encabeçada pelos ingleses do Klaxons e com representantes brasileiros - os curitibanos do Bonde do Rolê e os paulistanos do Cansei de Ser Sexy -, a new rave ganhou força no primeiro semestre de 2006 e pode entrar em 2007 com um verdadeiro exército de bandas que nem sequer lançaram seus primeiros álbuns ¿ como é o caso da própria Klaxons.
A cena estrelada por essa turma guarda semelhança com aquela do final dos anos 80, de bandas como Stone Roses, Inspiral Carpets, Happy Mondays e Charlatans, que misturavam melodias psicodélicas de guitarras com a grande novidade das casas noturnas da época, a acid house. Era a trilha sonora da cena rave original, do início dos anos 90. A outra raiz da ¿nova rave¿ vem do caos funkeado de Prodigy e Chemical Brothers, que embalou os anos 90 e popularizou no mundo a cultura das raves realizadas no Reino Unido em fazendas ao redor das grandes cidades britânicas, principalmente Londres.
Os shows dessas bandas são divertidos, coloridos, e o público pula a noite inteira embalado por LSD, ecstasy e por drogas como o poppers, antigo vasodilatador que foi ¿ressuscitado¿ dos anos 70; a quetamina, mais conhecida por Special K, anestésico veterinário que, quando transformado em pó, é inalado e dá um ¿barato¿ equivalente a uma bebedeira que não deixa ressaca; e o GHB (gama-hidroxibutírico), mais conhecido como ecstasy líquido.
O rótulo new rave foi criado por Jamie Reynolds, do Klaxons. ¿Ele inventou como uma piada em um pub em 2005. Um jornalista ouviu e agora todo mundo usa. Somos uma banda de rock, mas o elemento rave vem do que as pessoas sentem em nossos shows. Elas têm a mesma excitação que havia nas raves do começo dos anos 90. O termo ficará redundante quando ouvirem nosso álbum¿, explica o vocalista e tecladista James Righton, do mesmo grupo.
O Klaxons é de New Cross, ao sul de Londres, foi formado em 2005 e, além de Reynolds e Righton, traz em sua formação Steffan Halperin e Simon Taylor. Em abril do mesmo ano lançou o primeiro single em vinil, Gravity¿s Rainbow, pela Angular Records, com tiragem de 500 cópias que se esgotou rapidamente. O segundo single, Atlantis to Interzone, lançado pelo selo Merok, chamou a atenção dos principais veículos de comunicação britânicos e proporcionou à banda um contrato com a major Polydor (representada no Brasil pela Universal) e a criação de um selo para ela, o Rinse Records. O álbum Myths of the Near Future será lançado no dia 29 de janeiro no Reino Unido. ¿Torcemos para que ele saia rapidamente no Brasil. Vai ter 11 músicas, mas ainda não posso te falar o nome delas¿, diz Righton.
Em seus shows, público e banda costumam exibir bastões de néon e se vestir de forma extravagante. Os integrantes do Klaxons, por exemplo, usam roupas da grife Cassette Playa (já considerada a roupa oficial da new rave), da estilista londrina Carri Mundane (que também veste a cantatora M.I.A.). São coleções inspiradas nas raves e nos games dos anos 90. Os sites do Klaxons e da Cassette Playa chamam atenção pela diagramação caótica combinada com cores berrantes.
Recentemente o Klaxons encabeçou uma turnê por países europeus, a Club NME Tour, ao lado de Shitdisco e Simian Mobile Disco. ¿Foi incrível, vivemos os melhores dias de nossas vidas ao lado de duas das melhores bandas que existem. As platéias dos shows estavam muito animadas e com vontade de fazer festa. Elas fizeram com que a turnê parecesse muito especial e mágica¿, lembra Righton. A próxima etapa da NME Tour, em fevereiro, terá a presença dos brasileiros do CSS. ¿Mal podemos esperar, nós amamos o CSS!¿, avisa Righton.
A relação entre Simian Mobile Disco, Shitdisco e Klaxons vai além dos shows: eles são ligados por um nome em comum, o produtor James Ford, membro do Simian Mobile Disco. Ford foi o responsável pela produção do primeiro álbum dos Klaxons e está trabalhando no primeiro disco do Shitdisco. Até o Bonde do Rolê tem uma ligação com o produtor. ¿A gente ainda vai trabalhar junto¿, promete a vocalista do Bonde, Marina Ribatski. ¿Ele foi ao nosso show, ficou abobado, levou a gente para o estúdio dele, mostrou o disco do Klaxons e falou: ¿Ano que vem são vocês trabalhando comigo!¿¿. Marina ressalta o fator comum entre Klaxons, SMD e Shitdisco: ¿Cada uma diferente, mas com uma coisa em comum: James Ford.¿
O Bonde do Rolê, junto com o CSS, foi incluído no movimento new rave em suas passagens pela Inglaterra. No MySpace do combo curitibano eles se perguntam: ¿New rave? Us? Really?¿. Mesmo com essa ironia, terem sido incluídos na new rave não os preocupa. ¿Não incomoda mesmo! Todas as bandas de new rave, por mais diferentes que sejam, curtem tudo ao máximo¿, conta Marina. O último feito do trio curitibano foi assinar com a gravadora inglesa Domino Records, a mesma de Franz Ferdinand e Arctic Monkeys. O primeiro disco do Bonde, ainda sem nome, vai ser lançado entre fevereiro e março de 2007. Como Klaxons e Bonde do Rolê, outras bandas da new rave devem lançar seus primeiros álbuns em 2007, fato que pode ser a derradeira prova de fogo do ¿movimento¿. Preparem as roupas coloridas e os bastões de néon.
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Tiger Forge De: Londres, Inglaterra Para quem gosta de: Prodigy, Atari Teenage Riot, e digital hardcore Álbum: Sintax Error (single) Ouça: "Sintax Error"
O som da banda, apesar de contar com apenas duas guitarras e batidas eletrônicas, é uma mistura de Sonic Youth, Prodigy, DJ Shadow e M.I.A. Formada em 2004, a dupla Andy Force (guitarra, vocal e programação) e Helen Tiger (vocal, guitarra e teclado) começou humilde. ¿Nosso primeiro show foi como um projeto universitário e o segundo foi na nossa casa, incomodando os vizinhos¿, lembra Andy. Hoje, eles tocam em badalados clubes ingleses, mesmo sem um álbum. ¿Temos um EP com a banda hardcore Silent Front, Sintax Error, que saiu em novembro e já se esgotou. A última cópia que tinha, esmaguei sem querer¿, diverte-se Andy. ¿Há muita diversidade em Londres, é como se fôssemos ingredientes de uma torta: somos diferentes, mas deliciosos quando assados juntos.¿
Bono Mustdie De: Londres, Inglaterra Para quem gosta de: The Horrors, filmes de terror e odeia U2 Álbum: Trafalgar (single) Ouça "Trafalgar"
"Bono deve morrer." Esse é o mote de uma das bandas que têm dominado as pistas de dança britânicas. O Bono Must Die, com visual saído de um filme de terror e mistura de punk com drum¿n¿bass, se autoproclama ¿zombie generation¿. ¿Toda a nossa concepção é baseada em temas dark, novidades e sons interessantes¿, explica o vocalista Tobi O¿Kandi. O som é tão contagiante que até a filha de Bob Geldof (amigo de Bono), Peaches, tomou um puxão de orelha do pai por apoiar o grupo no MySpace. ¿Ela apareceu em alguns shows e dançou muito. É meio incômodo nos ver no jornal por causa disso, mas acredito que todo tipo de publicidade é boa publicidade¿, diz O¿Kandi, que está agendando a nova turnê. ¿É um momento excitante. Quem sabe não aparecemos para tocar no Brasil?!¿
Shitdisco De: Glasgow, Escócia Para quem gosta: de The Rapture, Gang of Four e Talking Heads Álbum: Reactor Party (single) Ouça: "Reactor Party"
Joel Stone e Joe Reeves (se revezando entre baixo, guitarra e vocal), Jan Lee (baixo, teclados e backing vocal) e Darren Cullen (bateria) se conheceram na Glasgow School of Art, celeiro de artistas escoceses como Belle & Sebastian e Camera Obscura e formaram a banda em 2003. Os primeiros shows do Shitdisco eram feitos em uma casa localizada em West Princes Street, em Glasgow, que ficou conhecida como ¿61¿. Além disso, tocaram de graça em raves e festas realizadas em squats, ruas, túneis abandonados e banheiros de casas noturnas.
O semanário inglês NME definiu o grupo como ¿bateria & dois baixos dance-punk epilético¿, e na página do MySpace eles apontam como principais influências artistas diferenciados como Bobby Orlando, Dick Dale, The Prodigy, S¿Express, Arthur Russel, Liquid Liquid, Elvis e Girls Aloud. Seu primeiro single de vinil, Disco Blood/I Know Kung Fu, foi lançado em dezembro de 2005 e se esgotou rapidamente. O segundo, Reactor Party, saiu pelo selo Fierce Panda em outubro de 2006, durante a Club NME Tour ao lado de Klaxons e Simian Mobile Disco. Dessa turnê, nasceu a parceria com o produtor James Ford (integrante do SMD e produtor do Klaxons) para fazer a produção do primeiro álbum, previsto para o primeiro semestre de 2007.
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To my boy De: Liverpool, Inglaterra Para quem gosta de: Kaiser Chiefs, Zutons e electro Álbum: The Grid (single) Ouça: "The Grid"
"Começamos a banda com quatro membros, mas mandamos o baterista e o baixista embora porque preferimos sons eletrônicos. Eles são mais rápidos e possuem mais impacto!¿, detona Jack Snape, que, ao lado de Sam White, forma o To My Boy. O nome pode parecer de uma banda emo (alguém pensou em Fall Out Boy?), mas, segundo Jack, foi escolhido pelos dois porque queriam ¿algo nostálgico e romântico que contrariasse o futurismo da música¿. Na página do grupo no MySpace há uma frase que diz: ¿Abaixo o saudosismo miserável, aplausos para a máquina linda¿. ¿Estamos cansados de bandas que acham que ainda estão nos anos 60 e retomam velhas idéias e clichês do rock. É responsabilidade dos artistas usar ferramentas de sua geração para fazer arte relevante. Computadores possibilitam que as pessoas façam música sem precisar de estúdios caros. É mais democrático¿, diz Jack.
Os dois primeiros singles, The Grid e I Am xRay, foram lançados pela XL Recordings (a mesma de Thom Yorke, Devendra Banhart e Raconteurs), que nos anos 90 lançou o Prodigy para o mundo. O álbum começou a ser gravado neste mês e terá cerca de 12 músicas. Sobre as principais influências da dupla, Jack confessa que são ¿bandas pop como Smiths, Belle & Sebastian, Kate Bush e Blondie, electro-club, novidades como Sebastian, Justice e Mr. Oizo, e bandas que fazem músicas enérgicas com guitarras, como Libertines e Futureheads¿. Ao ser perguntado se considera o To My Boy uma banda new rave, Jack nega, mas acaba se entregando no meio do caminho. ¿Isso é uma piada inventada pelo Klaxons. Não acho que vá durar muito tempo. Gostamos de usar roupas de cores brilhantes e fazer a fusão da eletrônica com guitarras. Isso é considerado new rave?!?¿Mesmo sendo nova, a To My Boy é a banda queridinha de Steve Lamaq e Rob Da Bank, da Radio 1 inglesa, e seus singles já acumularam boas críticas. Nos últimos anos a dupla tocou com Boy Kill Boy, Kaiser Chiefs e The Kooks. Além disso, foi a atração principal de duas edições do Liverpool Music Week Festival. ¿Esses shows foram legais, mas prefiro os clubes pequenos ¿ nosso equipamento é fácil de montar e possibilita tocar em qualquer lugar. Mas gosto mesmo é de tocar em festas particulares com muita gente chapada!¿
Hadouken! De: Leeds, Inglaterra Para quem gosta de: The Streets, Dizze e Rascal e Prodigy Álbum: That Boy That Girl Ouça: "Dance Lesson"
O nome Hadouken! faz referência ao golpe executado pelo personagem Ryu, do game clássico Street Fighter (muito popular nos anos 90), no qual ¿em um passe de mágica¿ bolas de fogo saíam de suas mãos. Não que eles sejam gamemaníacos, mas as roupas fluorescentes que usam são inspiradas no vestuário da geração que viveu a febre de Street Fighter. Formar o grupo era uma vontade que os integrantes tinham havia muito tempo e que, no final do verão de 2006, quando todos moravam em Londres, finalmente se concretizou. ¿Depois que escrevemos ¿That Boy That Girl¿, a colocamos no MySpace. A partir daí, por causa dessa música, começamos a ganhar muitos fãs¿, conta o vocalista James.
A sonoridade do Hadouken! é uma mistura de indie-rock com grime (estilo de rap famoso no underground londrino). ¿Nossas principais influências são a música underground das ruas britânicas que vão do jungle ao grime, passando por bandas de metal e indie rock, punk e hardcore. E pode incluir o The Clash aí¿, afirma o vocalista James. Para lançar o primeiro álbum, That Boy That Girl, previsto para fevereiro, o Hadouken! seguiu o exemplo do Datarock e formou seu próprio selo ¿ o Surface Noise Recordings. Algumas músicas que provavelmente farão parte do álbum, como ¿Dance Lesson¿, ¿That Boy That Girl¿ e ¿The Bounce¿ (não confundir com ¿The Bouncer¿, gravada pelo Klaxons) já agitam pistas de dança inglesas.
Data Rock De: Bergen, Noruega Para quem gosta de: Talking Heads, Devo e Happy Mondays Álbum: Datarock Ouça: "Fa-Fa-Fa"
Eles se vestem com macacões vermelhos, adoram dançar break nos clipes (que vão de novelinhas sobre nerds em um acampamento de computação a desastres nucleares) e cantam músicas que são verdadeiros hinos ao fim do mundo: uma espécie de Devo da geração 2000. É essa a forma escolhida pelos noruegueses Fredrik Saroea e Ketil Mosnes, do Datarock, para fazer música. As influências da dupla, que ao vivo se torna um quinteto, chegam a ser óbvias após ouvir Datarock (2005). ¿Talking Heads, Devo e Happy Mondays; vários filmes; produções de palco ambiciosas; e uma seleção de estímulos do sistema nervoso central¿, enumera Fredrik, que no estúdio faz as vezes de vocalista, guitarrista, baterista e tecladista. Fredrik também é responsável pela maioria das composições. Segundo ele, ¿a inspiração vem de todo lugar, mas a maior fonte é o que considero como destaque dentro da cultura popular ocidental dos últimos 30 anos, dando ênfase à era diagnosticada como pós-modernismo.
Em outras palavras, Datarock é ¿ se você esta em pé é melhor sentar agora ¿ pós-modernismo retrô¿. Apesar de se tornar conhecido agora, com a explosão da new rave, o Datarock existe desde 2000. ¿A idéia era formar uma banda de ¿chapados¿. Nós dois temos bagagens musicais distintas, mas a cena eletrônica da época era tão vibrante, diversificada e cheia de vida que não podíamos deixar de participar. Não lembro como esse nome veio à tona, mas sei que nunca tivemos dúvida quanto a ele. Isso é o que nós tocamos, é o que somos: Datarock.¿ A dupla foi incluída na Club NME Tour, ao lado de Klaxons, Shitdisco e Simian Mobile Disco, e fez cerca de 24 shows, todos esgotados, em cinco países durante pouco mais de quatro semanas. ¿Foi inesquecível. Todo mundo estava dedicado e se ajudando, a recepção foi simplesmente ¿MDMAzing¿ (trocadilho com amazing ¿ incrível, maravilhoso ¿ e a substância MDMA, nome científico do ecstasy). É bom fazer parte de uma cena alternativa que possui impacto, visibilidade e importância para os garotos¿, descreve Fredrik. Para lançar o álbum de estréia, em 2005, a dupla fundou o selo Young Aspiring Professionals, que serve para incentivar a produção local. ¿Como tudo está uma loucura, ainda não tivemos tempo de lançar tudo o que queremos. Mas estou feliz em dizer que já lançamos o incrível trio de noise-core NOXAGT, com seu brilhante álbum homônimo; e o grupo local Quasimojo, com seu ótimo EP, Getting¿núp¿n¿goi¿nova¿, explica Fredrik.
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(matéria publicada na revista Bizz, edição 209, janeiro de 2007. Autor: Bruno Dias)