Diversão

01/04/2008 - 19:38 (atualizada em 03/09/2008 23:29)

O outono de Sinatra

Nunca teve medo de cara feia, conquistou as mulheres que quis, foi o cantor dos cantores. Aos 82 anos, Frank Sinatra pôde olhar para trás e dizer que ninguém fez melhor do que ele

Nunca ninguém se manteve no topo de uma carreira por tanto tempo, num sucesso avassalador que cobriu mais de meio século - e isso numa profissão conhecida pela ascensão fulminante e o declínio igualmente veloz e implacável de quem se dedica a ela. Franklin Roosevelt estava em seu terceiro mandato como presidente dos Estados Unidos, e Frank Sinatra, na época um liberal convicto, ficou encantado quando o conheceu pessoalmente, como ficaria depois, nos anos 60, com John Kennedy. Mais de quarenta anos depois de Roosevelt, lá estava ele de volta à mesma Casa Branca, como um amigão de um presidente ultraconservador, Ronald Reagan. E continuava cantando bem ainda agora, na presidência de Bill Clinton, embora, de vez em quando, esquecesse a letra de algumas das suas canções prediletas.

Ter conseguido fazer isso no mundo fugaz, efêmero e freqüentemente traiçoeiro da música popular já transforma Sinatra num monumento único. Ele começou há sessenta anos, nos tempos pioneiros da cultura pop. Não há dúvida de que era uma das maiores figuras de sua primeira fase, a do rádio. Na década de 50, antes que a televisão nos atingisse com força total, antes do advento de Elvis e do rock, Sinatra tornou-se o talento vocal por excelência dos Estados Unidos.

Devido à qualidade notável das canções daquela época, quando boa parte do gênio musical americano foi canalizada para a composição de baladas ou standards, devido ao avanço dos processos de gravação e ao fato de Sinatra ter surgido para o show business num momento crucial de sua própria vida, sua obra, nos anos 50, constitui a melhor e mais duradoura contribuição de um cantor popular para a história dos Estados Unidos. Sei de gente que não concorda com isso, em particular os fãs de Tony Bennet, cuja obra também admiro muito. Mas acho que esse é um julgamento que vai ficar. Quer você goste ou não de Sinatra — e não acho que, como homem, ele seja uma pessoa de quem se possa gostar tanto assim —, ninguém fez melhor do que ele.

Americanos, brancos, do sexo masculino, que atingiram a idade adulta da metade para o fim da década de 50, reconhecem em sua obra uma qualidade marcante, indelével. Para melhor ou para pior, os EUA eram então um país mais sisudo. Todas as energias — políticas, pessoais, principalmente as sexuais — eram menos livres, mais reprimidas. Esses americanos cresceram nos EUA pré-televisão, pré-movimento pelos direitos civis, pré-Vietnã, pré-revolução sexual, pré-movimento feminista. Seu amadurecimento foi definido por um número muito menor de modelos culturais do que o das gerações seguintes. Na literatura, eram os livros de Ernest Hemingway, tentando mostrar como os homens deviam agir de forma elegante mesmo sob pressão brutal. No cinema, era um cara habilmente iconoclasta como Humphrey Bogart, levemente mal-humorado mas, no fundo, um bom sujeito. Nos esportes, a figura solitária porém majestosa de Joe DiMaggio, aparentemente a versão beisebol de um personagem de Hemingway, que fascinava as multidões mas sempre se mantinha a distância. E, na música, as canções de Frank Sinatra, que evocavam uma persistente mas charmosa solidão.

Eu não gostava muito do Frank Sinatra que surgiu como cantor pop na década de 40 e levava a uma espécie de histeria pré-Beatles adolescentes de meias soquete. No princípio, ele era chamado de crooner e seu fraseado, naquele período, até hoje me soa algo macio demais. Era como se aquele magricela de olhos brilhantes quisesse ser, de caso pensado, um sedutor. E suas emoções tinham muito de pedante e de artificial. Como Bing Crosby e outros cantores da mesma época, Sinatra fazia uma música que, embora gostosa de ouvir e boa para dançar, não parecia ter mistério nenhum nem encerrar emoções verdadeiras. Aquilo me soava uma forma de manipulação musical, algo que nos dava o talento do cantor, mas não expunha seus sentimentos.

Em Sinatra, isso mudou nos anos 50, especialmente nos discos que ele gravou primeiro com Nelson Riddle e, depois, com Gordon Jenkins. Foi o momento certo na vida de Sinatra. E Sinatra estava precisando muito disso: sua carreira tinha atingido o fundo do poço, ele estava saindo de um caso de amor e de um casamento tumultuado com uma das mais esplendorosas divas do cinema em todos os tempos, Ava Gardner. Seu fraseado era triste, quase dolorido, sua voz soava mais vulnerável do que qualquer outra coisa que tivesse feito antes. Seu trabalho passou a ligá-lo ao público de uma forma que ele jamais tinha conseguido. Ele sabia o que aquelas canções estavam dizendo — melhor ainda, ele tinha vivido aquilo tudo. Riddle, o co-piloto de vários desses discos de ruptura com seu estilo anterior, parecia saber exatamente como usá-lo, como capturar tanto a essência da canção quanto o sofrimento do cantor, e Sinatra sabia como passar isso para as pessoas.

Sinatra e Riddle criaram um novo tipo de disco. Não se tratava apenas de alinhavar uns aos outros os sucessos de um cantor, mas de um disco temático, cujas canções propunham e desenvolviam um determinado mood. Há, nesses discos, uma rara sensação de intimidade. Sinatra cantava tão bem que dava a impressão de estar cantando para si mesmo e, com isso, parecia estabelecer uma espécie de conversação musical com seu público. Mais do que ninguém, ele mostrava entender como o amor é tortuoso, e como é difícil duas pessoas apaixonadas estarem na exata sintonia emocional.

Nessa época, seu público era majoritariamente constituído por homens brancos de classe média para alta. Alguns anos mais tarde, com o aparecimento do movimento feminista nos Estados Unidos, nós, a base do público de Sinatra, passaríamos a ser vistos como a elite masculina no poder, que dominava as mulheres de nossa geração e determinava como deveria ser a vida delas.

Mas, quando éramos jovens, juro que não pensávamos estar com essa bola toda. Em geral, nós nos sentíamos rejeitados e muito pouco à vontade na vida. Sinatra nos atraía porque parecia ter esses mesmos problemas. Não é de espantar que ele gostasse tanto de uma história que se contava naquela época. Num bar de fim de noite, um monte de caras sozinhos estão afogando as mágoas. Um deles aponta para a jukebox, que está tocando One for My Baby, com Sinatra, e diz: "Eu fico pensando... Se ele canta assim, quem será o cantor que ele escuta?"

Da metade para o fim da década de 50, quando Sinatra estava no auge da carreira, eu era um jovem repórter em Nashville, no Estado do Tennessee. Trabalhava num horário estranhíssimo — das 3 da tarde até a meia-noite —, o que era muito ruim para a minha vida pessoal, mas super-apropriado para ouvir Sinatra nas jukeboxes, na alta madrugada. Às vezes, eu me levantava tardíssimo e ia dar umas voltas no centro da cidade, na livraria Zibart, que tinha também uma seção de discos. Eu fizera amizade com Mary Charmella, mulherzinha muito esperta, que guardava discos para mim. Acho que era 1956: entrei lá, um dia, e ela me disse: "Acho que este aqui é o melhor de todos." E me deu ...Wee Small Hours. Era, sim. E pelo que paguei — 4 dólares naquela época e, hoje, 42 anos depois, pelo menos quatro vezes mais — ainda é.

Com o tempo, acabei tendo todos aqueles grandes álbuns: In the Wee Small Hours Where Are You?, Songs for Young Lovers. Como todos os outros fãs de Sinatra, eu também sabia que canção estava em qual disco, que canção vinha depois da outra. Quarenta anos depois, continuo tocando aquelas mesmas canções, só que agora em CD. Quando o faço, sinto-me transportado para uma outra época da minha vida, quando era mais jovem e menos seguro de mim mesmo, e confesso que aquela voz ainda me embala a alma.

Por acaso, a grande divisão cultural operada pelo rock começou naquele mesmo período. Fiz a cobertura do jovem Elvis Presley, quando ele gravou seus primeiros discos em Nashville, e tive a sensação, ainda que limitada, da força telúrica que começava a ser liberada. Nas festinhas que freqüentava em Nashville, o rock estava substituindo Sinatra e outros cantores da mesma linha. Anos mais tarde, porém, era a música dele que continuava sendo meu ponto de referência. Eu gostava de rock, é claro — Buddy Holly, Roy Orbison, Fats Domino —, mas quando parti para o exterior, em 1961, a música que levei comigo foi a de Sinatra. Tempos depois, chegando ao Vietnã para cobrir a guerra, comprei um toca-discos portátil como parte do meu kit de sobrevivência e, nele, quem imperava era Sinatra.

Naquela época, até mesmo quando eu achava que o jeito de cantar dele era mágico, Sinatra nunca me convencia ao tentar bancar o cara descolado, que sabe das coisas, quando tentava ser cool. Quem sai por aí tentando dar essa impressão nunca é cool de verdade. Esse peixe eu nunca comprei. Quando Sinatra era melancólico, ele era verdadeiro; mas quando assumia aquele ar de cara esperto demais, estalando os dedos, soava artificial para mim. Ser cool é uma coisa que vem lá de dentro e nunca é muito consciente; em Sinatra, sempre parecia uma coisa estudada.

Nem eu (nem ninguém que eu conhecia) tampouco comprava a idéia do Rat Pack, a "Gangue de Sinatra", um grupo de supostos grandes caras, liderado por Sinatra, que levava um vidão de solteiros farristas, cujo universo também seria inacreditavelmente cool. Acho que, já naquela época, mesmo sendo garoto, eu era esperto o suficiente para entender que não dá para ser tão descolado assim num lugar vulgar como Las Vegas. É verdade que o fato de a Gangue de Sinatra quebrar a três por quatro algumas pequenas convenções sociais tinha lá seu efeito libertário naquela época ultramoralista e sufocante, mas para os companheiros de Sinatra o preço disso era serem totalmente subservientes às regras e convenções do chefe.

A essa altura, o Sinatra que tinha subido para um novo e merecido status de superstar me parecia completamente diferente do homem que tinha cantado de forma tão lancinante as tristezas do amor fracassado. Agora, poderoso, figura dominadora no meio artístico, superastro da música e do cinema, conquistador de virtualmente todas as mulheres que quis, multimilionário e cercado por enxames de puxa-sacos, ele parecia ter-se transformado em uma figura predatória, que utilizava a alavanca do sucesso e da supercelebridade recém-adquiridos para fazer as coisas como bem entendia.

Muitos desses ícones da década de 50 acabaram sumindo na poeira do tempo, e hoje estão irremediavelmente datados. Hemingway ainda é considerado um escritor maravilhoso, que modernizou e deu uma boa limpada na língua inglesa, mas o seu senso sobre o que definiria ou não a virilidade parece, hoje, totalmente fora de moda. Joe DiMaggio era um extraordinário jogador de beisebol que, fora de campo, comportava-se essencialmente como um solitário, mesmo quando cercado por uma multidão de admiradores. Só Bogart permanece autêntico, tanto quanto homem como quanto artista, inteligente, independente mesmo, imune, no melhor sentido do termo, às mais reles convenções de sua época.

Nenhum desses ícones parecia mais limitado, uma vez separado de sua arte, do que Sinatra. Quanto mais o víamos, quanto mais poderoso e bem-sucedido ele se tornava, menos gostávamos dele como pessoa. Parecia um sujeito melhor, pensava eu, quando era mais vulnerável, mais sofrido e tinha menos poder. O Sinatra que estava com a sorte no ralo e queria desesperadamente o papel do soldado Maggio em "A Um Passo da Eternidade" ("Eu conhecia Maggio. Fui colega de escola dele na minha cidade natal, Hoboken", ele disse um dia) era um ator muito melhor nesse trabalho de 1953 e uma figura muito mais simpática do que o Sinatra que, uma geração mais tarde, tinha o controle absoluto de todos os seus filmes e fazia uma série de drogas que foram sucesso de bilheteria, a começar por Onze Homens e um Segredo (Ocean's Eleven, de 1960).

É estranho gostar tanto da música de um cara para, no final, acabar não gostando do próprio cara. Seria bom poder gostar dele também, mas um dom é um dom, e o que ele recebeu não foi pouca coisa. Sinatra, um homem de imenso talento, sempre foi também capaz de levar suas habilidades ao mais extremo grau de profissionalismo. Em relação a esse profissionalismo, à sua ética de trabalho, à sua obsessão compulsiva em ser sempre o melhor, não há dúvida nenhuma. Durante um longo período, ele nos deu o que a música popular americana de melhor tinha a oferecer, canções maravilhosas escritas por artistas talentosos e cantadas de maneira impecável, chegando perto da perfeição absoluta. Ninguém tinha feito isso antes melhor do que ele, e ninguém fez melhor que ele depois. E, se levarmos em conta a natureza da indústria fonográfica atual, provavelmente ninguém fará melhor do que ele também no futuro. Se há uma coisa essencial em relação ao dom que Sinatra recebeu, é a eternidade do que Sinatra soube fazer com ele.

Por David Halberstam, um dos mais conhecidos e respeitados jornalistas americanos, foi correspondente do jornal The New York Times no exterior, colaborou com algumas das principais revistas e jornais dos EUA e escreveu livros sobre temas tão diversos como o Vietnã, esportes e a mídia. Vencedor de um Prêmio Pulitzer, é considerado um agudo observador da vida e da cultura americanas.

(Texto publicado pela Revista Playboy, edição 273 - abril/1998) 
 

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