25/10/2006 - 14:58 (atualizada em 03/09/2008 23:36)
Arranjos e shows revelam melhor de B.B. em disco
Gravações ao vivo e trabalhos do final dos anos 1960 apresentam os momentos mais gloriosos do guitarrista
Danilo Valentini
Os duetos que dominaram os álbuns de B.B. King na década de 1990 e as dezenas de coletâneas pouco criteriosas escondem o melhor que o guitarrista produziu em estúdio ou em gravações ao vivo, filão que reserva pelo menos duas obras-prima do artista.
Com gravações registradas desde 1949, quando firmou contrato com o selo RPM, dos irmãos Bihari, B.B. King demorou muito para transferir aos álbuns de forma condizente ao seu estilo absolutamente único e marcante. Após dois trabalhos oficiais, e o raríssimo "Sings Spirituals", em que relembrou os cânticos batistas que marcaram sua infância, o bluesman deu uma grande guinada ao assinar um contrato respeitável com a ABC.
Respaldado por arranjos de metais, com menos ênfase na faceta de guitarrista e valorizado no papel de 'crooner', B.B. King estreou pela nova gravadora com "Mr. Blues", de 1963, em que cravou momentos notáveis, como "Blues at Midnight" e "SneakinAround".
O papel de 'bandleader', porém, ainda teria o seu auge. Foi em 1965, no fenomenal "Live at the Regal", em que deixa claro o seu papel de showman carismático que se comunica facilmente com a platéia, o que justifica uma trajetória de 60 anos em palco, completada agora em 2006. Acompanhado de uma orquestra estridente e furiosa, emplacou versões bombásticas de "Everyday I Have the Blues", "Its My Own Fault" e "Help the Poor".
O acompanhamento encorpado de metais ganhou uma nova roupagem no final dos anos 1960, período em que B.B. King passou a ter sua carreira administrada por Sid Seidenberg, responsável por ampliar os horizontes do artista, que viraria queridinho desde hippies que passaram a gostar de blues a grã-finos que iam aos cassinos de Lãs Vegas.
Com seu característico timbre de guitarra em seus melhores momentos, B.B. King emendou uma seqüência arrasadora de álbuns entre 1969 e 1970: Completely Well, que marca a presença de um de seus maiores clássicos, "The Thrill is Gone", e "Indianola Mississippi Seeds", que contou com a participação dos pianistas e compositores Carole King e Leon Russell, responsáveis por ótimos momentos do bluesman.
Já consagrado e tratado como referência de grandes artistas do blues-rock inglês, de Eric Clapton aos Rolling Stones, B.B. King voltou a registrar um grande momento em um palco. Desta vez, entretanto, foi para presidiários e não para cabeludos ou ricaços.
Estrela de uma apresentação para internos da Cook Count Jail, em Chicago, uma das mecas do blues, B.B. King fez um show cru, com versões quase enxutas, mas extremamente emocionais.
A seqüência da carreira discográfica de B.B. King entraria, a partir daí, em momentos irregulares, com perfil mais comercial, como no curioso "Six Silver Strings", de 1988, que além de uma versão empolgante de "In the Midnight Hour", traz o relativo sucesso "Into the Night", tema de filme com Michelle Pfeiffer.
Os duetos passariam a dominar a cena nos anos 1990, com edições em 93 (com grande time de estrelas do blues norte-americano), 1995, 1997 (Rolling Stones, Van Morrison, Tracy Chapman) e 2005, ano que celebrou os seus 80 anos de idade com participações de gente como Sheryl Crow e Elton John, que até manda bem em "Rock This House".