05/10/2008 - 23:01 (atualizada em 05/10/2008 23:24)
Oposição sai enfraquecida das urnas e da disputa por influência na sucessão de 2010
Vitória da base aliada nas principais capitais pode definir disputas por influência na eleição presidencial
Da Redação, com agências
Longe do poder nacional há seis anos, a oposição no Brasil sai menor das eleições municipais deste domingo (5), e estes resultados podem reduzir seu poder de fogo para a sucessão presidencial em 2010. Em 14 das 26 principais capitais, os prefeitos foram definidos já no primeiro turno. Em apenas duas delas, Paraná e Piauí, a base aliada não venceu.
Com a definição de todos os prefeitos no segundo turno, em 26/10, começam as disputas entre a base aliada do governo (PMDB, PT, PP, PR, PTB, PSC, PTC, PT do B, PSB, PDT, PC do B, PMN e PAN) e a oposição por influência na chapa que vai disputar a Presidência. "Nos últimos dois anos, a oposição ficou sem pauta e já chegou a esta eleição muito fraca. Em 2005 e 2006, a teve a bandeira do moralismo, da defesa da ética, que se esgotou em 2006 com a reeleição de Lula", disse à Reuters Alessandra Aldé, cientista política da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). "Quando acabar essa eleição, tudo vira 2010", disse o deputado José Carlos Aleluia (DEM-BA).
A maior cartada da oposição estaria em São Paulo, mas questões internas do PSDB a deixaram dividida no primeiro turno. Por conta disso, apesar de o prefeito Gilberto Kassab (DEM), que assumiu quando o tucano José Serra se candidatou ao governo do Estado, tentar a reeleição, o PSDB resolveu lançar Geraldo Alckmin, que saiu derrotado da disputa. As duas candidaturas fragmentaram o eleitorado e sinalizaram uma desunião com possíveis implicações para o futuro. A beneficiária imediata dessa divisão foi Marta Suplicy (PT), que se garantiu no segundo turno.
São Paulo: crise PSDB-DEM Divididos por conta de dilemas locais, DEM e PSDB vão precisar fazer as pazes depois do pleito municipal se quiserem se constituir como força alternativa ao candidato do governo Lula em 2010.
Se Marta Suplicy vencer no segundo turno em São Paulo, a oposição perde em escala ainda maior. O governador José Serra, que bancou Kassab até mesmo contra o colega de sigla, também sairia arranhado.
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso vem discutindo com a cúpula do DEM as condições para a aliança no 2º turno em São Paulo e se comprometeu a atuar pessoalmente para aparar arestas com o partido aliado. O argumento é que uma chapa anti-PT no 2º turno deve estar acima das diferenças de campanha.
Apesar da crise entre PSDB e DEM, o PT não faz um candidato na capital paulista desde a eleição de Marta Suplicy, em 2000. Maior colégio eleitoral do país, com 8.198.282 eleitores, São Paulo terá grande influência na sucessão presidencial. “O antipetismo deve estar forte para a disputa nacional”, afirma o ex-presidente.
DEM perde base política Apesar de uma possível vitória em São Paulo, o desempenho do Democratas neste primeiro turno mostra que o partido perdeu base política e se afirma hoje como legenda parlamentar.
O DEM calcula ter lançado nestas eleições 1.252 candidatos, 12 deles em capitais, mas vai fechar a disputa municipal com patamar de vitórias bem abaixo da média histórica, segundo previsões próprias.
"O DEM está derretendo. São Paulo não o salva. As perspectivas não são animadoras. Nenhum partido grande sofreu queda tão brutal quanto ele", afirmou à Reuters o cientista político David Fleischer, da Universidade de Brasília (UnB). "Vai virar um partido médio, parlamentar, e terá uma base pequena para usar de cabo eleitoral em 2010", acrescentou.
A derrota acabou transferindo todas as fichas do partido para o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab. Ele disputará a reeleição com a petista Marta Suplicy. Se ganhar, será o filho único da sigla na liderança de capitais brasileiras. "Ganhar em São Paulo significa ter presença assegurada na discussão sobre a vice-presidência da República", disse Alcenir Guerra.
Outros municípios No Rio de Janeiro, o candidato Eduardo Paes, do PMDB, mas sem o apoio direto de Lula, obtém 32% dos votos, seguido por Fernando Gabeira, do PV, com 25,6%.
Com a apuração finalizada, Belo Horizonte viu o candidato Márcio Lacerda, apoiado por uma coalizão de esquerda, por Lula e o governador do estado, Aécio Neves, ir para o segundo turno com 43,59% dos votos, contra 41,26% de Leonardo Quintão, do PMDB.
Durante a campanha eleitoral ao longo do país Lula foi o principal propagandista dos candidatos da dúzia de partidos pertencentes à variada coalizão de centro, direita e esquerda que serve de sustento ao Governo e lhe dá maioria no Congresso. Lula goza de uma popularidade próxima a 80% e durante a campanha nem sequer os candidatos de partidos opositores se atreveram a criticá-lo por medo de perder eleitores.
O pragmatismo político e ideológico de Lula se aprofundou em seu segundo mandato, no qual deixou em segundo plano seu histórico PT, cujos candidatos despontam como vencedores em um terço das 30 maiores cidades do país, número similar ao do PMDB.
O PSDB, do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1994-2002) permanece hoje como a principal força de oposição nacional com um importante número de eleitos.