![]() |
|
![]() |
UM FRANCÊS QUE SE TORNOU BRASILEIRO RESOLVE UM PROBLEMA URBANO NO UM ESPAÇO DE 15 ANOS. - NOS PRINCÍPAIS O PAULISTANO PAGAVA 60 REIS PARA ATRAVESSAR A PONTE SÔBRE O ANHANGABAÚ - A TARDE DA INAUGURAÇÃO MARCOU UMACONTECIMENTO NA VIDA DA CIDADEZINHA DE SÃO PAULO.
Desde outubro de 1877, começara a tomar vulto, com a aprovação do povo, a idéia já bastante divulgada de se levantar um viaduto sôbre o Anhangabaú, com a proposta apresentada pelo cidadão Jules Martin à Intendência Municipal, comprometendo-se a lançar uma ponte sôbre aquèle vale, onde passava o córrego do mesmo nome, isto a tròco de determinadas regalias, entre as quais a de poder cobrar uma taxa de passagem, com a qual cobriria as despesas. Afinal, após mil dificuldades de ordem financeira, com a fundação da Companhia Paulista Viaduto do Chá, a coisa tomou vulto. Logo no primeiro dia, subscreveram-se 676 ações da Companhia, número que subiu, no ano seguinte, a 800. Segundo o primeiro cálculo feito, as obras montaram de 600 a 800 contos. Depois disso, encomendou-se a armação metálica do Viaduto na Alemanha. Os trabalhos rolaram morosamente. Em conseqüência o dinheiro foi-se acabando. A Companhia Paulista do Chá quase foi à falência. Por insuficiência de capital, a diretoria resolveu transferir os seus direitos à Companhia de Ferro Carril de São Paulo, que conseguiu terminar com êxito o audacioso projeto Jules Martin. Entre a idéia da construção do viaduto (1877), a demolição da casa do Barão de Tatuí (1889), o início das obras (1888) e a inauguração (1892), decorreram 15 anos... o Diário Mercantil, de 15 de março de 1887, estampando uma sepultura, glosava o caso chistosamente com êste epitáfio:
Quem era aquêle Jules André Martin que teve a idéia genial de estabelecer a ligação direta entre o centro da cidade e o bairro ou "morro" do Chá, como então se denominava a parte que fica entre o Teatro Municipal e a Praça da República? As comunicações eram difíceis, e o paulistano subia a rampa e chegava em cima mais morto do que vivo. Não houve, portanto, quem não aplaudisse a idéia do engenhoso Jules Martin, que a divulgou em 1877, A princípio, era apenas o projeto de um viaduto simples. Depois, em 1882, ampliou seu plano: obteve o privilégio para a construção de um bulevar no mesmo local. O povo, porém, não aprovou. Queria o viaduto. Em 1885, assinava êle o contrato para a execução do primitivo plano, organizando uma emprêsa. As primeiras obras, isto é, o aplainamento do terreno, iniciaram-se a 30 de abril de 1888. Jules André Martin foi um estimado cidadão francês que viveu em São Paulo pelas alturas de 1870. Tendo aprendido litografia na Escola de Belas-Artes de Marselhesa, ainda moço, rumou para o Brasil. Trazia uma carta de apresentação para o Visconde de Ouro Prêto. Pouco demorou na Côrte. Veio bater em São Paulo, onde dois anos residiu, com a espôsa e dois filhos, em Campo Largo de Sorocaba, na fazenda de um irmão, que instalara a primeira máquina de algodão. Depois mudou-se para a capital. E aí montou a primeira oficina litográfica de que tivemos notícia. A princípio, a litografia não tinha nome. Mas, como em 1875 recebesse a visita de D. Pedro II, Jules Martin não teve dúvidas em denominá-la de "Imperial Litografia". O estabelecimento ficava na Rua Boa Vista, tendo-se depois mudado para a Rua de São Bento. Na fachada viam-se o escudo e a coroa do Império. Isso não impedia que Martin, como bom francês que era, alimentasse idéias republicanas, sendo mesmo presidente do Clube 14 de Julho, uma associação de patrícios seus. Essa sociedade, houve época em que até parecia obra de francêses e nacionais, e isso aconteceu por ocasião da propaganda republicana, aí por 1886 a 1889, quando a festa de 14 de julho era inteiramente franco-brasileira. Os republicanos saíam à rua, acompanhando a passeata comemorativa que o clube costumava realizar, todos os anos, à noite, ao som estrepitoso e contagiante da Marselhesa. Os archotes e lanternas chinêsas eram carregados, tanto por francêses como por brasileiros aos gritos de "Vive la Republique!", que se misturavam com os vivas à nossa futura república... Martin era um homem empreendedor. Foi pioneiro de uma porção de coisas. Por exemplo, foi quem publicou, entre nós, o primeiro mapa da Província de São Paulo. Foi ainda quem instalou, nesta capital, o primeiro motor a gás. Foi introdutor de muitas máquinas novas para incremento da indústria. Foi quem lançou a zincogravura. Foi o autor do projeto da estátua de José de Bonifácio o Moço, que, por muito tempo, estêve no Largo de São Francisco. Foi ainda autor de um projeto de estrada de ferro para São Sebastião, de que obteve privilégio, mas que não realizou por falta de capital. Foi vencedor de um projeto para a construção de um Teatro Municipal, ou Estadual, na Praça da República. Foi mais o autor de um projeto para a construção da Estação da Luz, que, em grande parte, veio a ser aproveitado. Enfim, o homem demonstrava verdadeira bossa inventiva. Gostava de criar. O dia da inauguração do Viaduto - 6 de novembro de 1892 - foi um dia de festa para o paulistano. A solenidade foi, de fato, imponente, segundo o noticiário dos jornais da época. Amanheceram, naquele dia festivo, enfeitadas de flores naturais as Ruas Direita e Barão de Itapetininga. O Viaduto, também, foi vistosamente adornado com bandeiras, lâmpadas, arcos, e flores em abundância. Tudo parecia catita, tudo a capricho. Muito antes da hora aprazada, começou a juntar gente. As autoridades apareceram de fraque e cartola. Nos lugares de honra, o Presidente do Estado, Dr. Bernardino de Campos, o Bispo Diocesano, D. Lino Deodato Rodrigues de Carvalho, os funcionários da administração, da milícia e do clero paulistano. Bandas de música tocaram o hino nacional, houve discursos. D. Lino procedeu à bênção do notável empreendimento. O Dr. Bernardino de Campos cortou a fita verde e amarela e atravessou, acompanhado por todos, sob vivos aplausos da multidão, o Viaduto, assim o inaugurando. As bandas tocaram novas marchas. Importaram os gastos com essa solenidade em 4:845$000, quantia obtida em subscrição popular. E o povo paulistano, não escondendo a sua satisfação, começou a passear sôbre a ponte. E aquilo assinalou um acontecimento que empolgou a opinião pública. Aconteceu, porém, que todos tinham que pagar. No primeiro dia, no dia da inauguração, não. Mas, já no dia seguinte, sim. Conforme contrato firmado com o Govèrno, fôra criado um direito de pedágio, a cobrar dos traseuntes e veículos: 60 réis por pedestre; 200 réis por bonde. Quatro anos depois, em 1896, na Câmara Municipal foi aprovada a encampação do Viaduto do Chá. Pela lei nº 276, era autorizada tal encampação pela importância de 750:000$000, sendo emitidos 7.500 títulos de 100$000 cada um, a juros de 6% c amortização de 1%, então, foi permitido o livre trânsito. Acabou-se aquela exigência de três vinténs. Cinqüenta anos depois, com o crescimento assustador da cidade São Paulo, o velho Viaduto do Chá principiou a não agüentar mais a pesada carga. Técnicos foram chamados a dar opinião e, alarmados, acharam que a ponte metálica era bem capaz de não suportar mais tão enorme pêso por muito mais tempo... Pensou-se logo numa reforma radical. Isto, há 15 anos, em 1938. O plano nasceu: um novo Viaduto, de cimento armado e duas vêzes mais largo do que o seu antecessor. E tudo foi aprovado com a maior rapidez. No dia em que começaram a derrubar o velho - uma segunda-feira, 18 de abril de 1938 - não houve nenhuma solenidade. Morto o rei, viva o rei! comentou um cronista. Apenas, alguns paulistanos amantes do passado, cismarentos, pararam um pouco, para observar os operários na sua faina, picaretas na mão, a destruir a histórica ponte, testemunha muda de um passado não muito longinqüo, quando São Paulo ainda engatinhava... Jules Martin, o idealizador do Viaduto do Chá, morreu tempos depois nos começos dêste século. Contava 74 anos de idade, quando faleceu, naquele dia 18 de setembro de 1908. Seu nome será sempre lembrado pelos habitantes de São Paulo. Uma plaquinha perpetua na grade, na antiga armação de ferro, feita na Alemanha, recordava até não muito tempo a memória imperecível do grande amigo de São Paulo. |
|
| Copyright ©
2004, Editora Abril S.A. Todos os direitos reservados. All rights reserved. |
![]() |