A igreja e o colégio, após a reforma realizada depois de 1861, tendo ä sua esquerda célebre Teatro da Ópera.



O COMEÇOS DIFÍCEIS E ÁSPEROS - UM PALCO NO PORÃO DO PALÁCIO DO GOVÊRNO - A ESTUDANTADA DAVA NOTA - A PICARETA DO PROGRESSO PÔS ABAIXO A ÓPORA - O "S. JOSÉ" NO LARGO JÃO MENDES MARCOU ÉPOCA - UMA MADRUGADA, VIOLENTO INCÊNDIO DESTRUIU-O - RESSURGIU, EM FRENTE A PRAÇA RAMOS DE AZEVEDO - POR FIM, CONSAGRANDO S. PAULO COMO A CAPITAL ARTÍSTICA, SURIU O MUNICIPAL

RAIMUNDO DE MENEZES

Em meados do século 17, a cidadezinha de São Paulo não possuía mais do que 4.000 almas, e isto mesmo incluíndo neste número os negros escravos. Foi, nessa ocasião, então, que se começou insistentemente a falar do teatro, entre nós, cogitando-se da instalação de uma Casa da Ópera, que funcionava na rua de São Bento. O prédio ficava exatamente entre o largo dêste nome e o antigo do Rosário, hoje praça Antônio Prado, e fôra alugado de João Dias por 640 reis por mês...

O pessoal da Câmara implicou, porém, com tal teatrinho. Implicou por uma questão muito simples: por beatice. Assim mesmo, dando por pedras e por paus, o empreendimento foi para diante. Um dia teve que desaparecer. A campanha fôra tenacíssima. O certo, porém, foi que a semente caíra em terreno propício. Sete anos depois eis que se voltava a falar num teatrinho que funcionava, sabem onde? Imaginem só: nos baixos do próprio Palácio do Govêrno, ali no Pátio do Colégio. Era, na ocasião, governador da Capitania aquêle agitadíssimo d. Luís Antonio de Sousa Botelho e Mourão, mais conhecido pelo título de Morgado de Mateus, que para cá viera com carta branca, podendo agir como bem entendesse. E assim não vacilou em consentir na instalação provisória da Ópera no porão do Palácio...

A Casa da Fundição, que ficava mais ou menos onde hoje está instalada a Caixa Econômica Estadual, tinha sido fechada por ordem do govêrno. Pois bem: foi nesse prédio que se adaptou uma sala de espetáculos, a que se deu o título pomposo de Casa da Ópera. Segundo Nuto Santana, tinha ela, normalmente, lotação para 350 pessoas. Era de construção simples. Possuía três portas no rés do chão e três janelas no primeiro andar. No seu interior havia, à altura do saguão, duas escadas: uma dava para o camarim governamental e outra levava aos camarotes, em número de 28, divididos em três ordens. A platéia era apenas mobiliada com bancos. A iluminação era a mais precária possível: velas de cêra e candieiros, mais ou menos asseados, alimentados com azeite doce e mechas de algodão bem trançadas.

Os empresários esforçavam-se por apresentar espetáculos atraentes. Mas, as peças principais, eram sempre as mesmas: "D. José II" e o "Convidado de Pedra", que subiam à cena nas noitadas de gala. Os atores eram catados entre gente humilde e quase sempre analfabeta. Geralmente, eram caixeirinhos de lojas ou vendas, e barbeiros, na sua maioria mulatos e, o pior, prostitutas, porque, naquele tempo, mulher séria não se prestava de maneira alguma a tal mister...

Apesar de tudo, a platéia soluçava com os dramalhões de capa e espada, deliciava-se com os entremezes ingênuos, emocionava-se com os dramas lacrimosos, e gargalhava estrepitosamente com as farsas desopilante... Êsse um dos gênero mais apreciados pelas nossas bisavós.


ESTUDANTADAS FAMOSAS
Almeida Nogueira e Spencer Vampré, os dois ilustres memorialístas da nossa Faculdade de Direito, já andaram narrando muita coisa interessante a propósito dos irrequietos acadêmicos no histórico teatrinho do Pátio do Colégio. Os espetáculos só se realizavam às quartas-feiras, aos sábados e nas vésperas de feriados. O dia de folga na Academia era a quinta-feira.

A platéia da Ópera era constituída, fatalmente, de estudantes. Trabalhava na ocasião, naquele teatrinho, a emprêsa dramática, dirigida por Macedo & Henrique, ou antes, pelos artistas José Joaquim de Macedo e Henrique José da Costa. O Henrique gozava de grandes simpatias, "pois declamava, nos lances dramáticos, com grandes gestos, empolgando a platéia, que vibrava nas cenas mais comoventes. Ao seu lado, contracenando, quase sempre, com êle, figurava a Minelvina, casada com o ator, o Gonçalves, que, por sinal, sofria de gagueira".

Conta-se que, certa vez, numa grande manifestação tributada à Minelvina, o Gonçalves tentou, do palco, agradecer aos estuda