![]() |
|
![]() |
![]() | (Condensado no livro de Alberto Sarmento, publicado em 1886) Esta seção se destinará a compilar a história dos mais ruidosos acontecimentos policiais na vida da cidade, ou que nela vieram repercutir, como é o caso do fato que hoje narramos. Assim, os leitores terão um série de reportagens, tôda a existência violenta da cidade, essa matéria de grande interêsse humano e que, às vêzes, é o espelho de uma população. Em São Paulo também havia emoção.
Daqui de São Paulo, chefe da polícia de então, dr. Arnaldo de Oliveira, oficiou ao delegado de Campinas, ordenado que fôsse procedida rigorosa sindicância a respeito. O delegado, capitão Pimenta, nada apurou. Limitou-se apenas a informar que o desaparecido estivera hospedado no Hotel do Universo, durante alguns dias e que depois partira com destino à Santos. Dois meses passados, eis que novo ofício da chefia de polícia determinava à delegacia daquela cidade que empregasse esforços "a fim de ver se alguns esclarecimentos surgem sôbre o estranho desaparecimento de Vitorino". Acompanharam êsses dois depoimentos tomados pelo chefe de polícia de Santa Catarina, na cidade de Destêrro. A 21 de março, o "Diário de Capinas" dava nova notícia: "Sabemos que a polícia está procedendo o inquérito, debaixo de todo o segrêdo, a fim de esclarecer um fato misterioso de grande importância". Esta notícia produziu grande sensação, despertou a curiosidade pública e provocou comentários de tôda espécie. Sete dias depois... Na madrugada de uma sexta-feira, cêrca das 5 horas, a cidade era despertada com èste boletim-extra distribuído ao povo: "Ontem procedeu o sr. capitão Pimenta, delegado de polícia dêste têrmo, a uma importante diligência, que veio lançar muita luz sôbre o fato misterioso, que as autoridades tratavam com empenho de averiguar, conforme havíamos noticiado. "Devem lembrar-se os leitores que a tempos demos notícia de haver desaparecido um homem, que residia na cidade de Dèsterro, capital da província de Santa Catarina, por nome Manuel António Vitorino de Menezes, pessoa abastada e muito conhecida naquela capital, depois de uma viagem que fizera a Santos. "Dirigindo-se o repórter ao Hotel do Universo, do sr. João Camilo Giraud, onde lhe constara que estivera Manuel António Vitorino de Menezes, obteve a confirmação de suas suspeitas, pois que lhe foi dito que Menezes ali se hospedara. "Soube também o nosso repórter, que Menezes, havendo saído um dia, não voltou àquele lugar, apesar de ter deixado ali as suas malas, e que depois o sr. José Pinto de Almeida Júnior, empregado na agência do Banco Mercantil de Santos, o incumbira de recomendar que as suas malas fôssem entregues a êle Pinto; porém, o dono do hotel, não se recordando dessa ordem remeteu as malas para Santos, tendo sido embolsado pelo sr. Pinto da quantia que lhe devia o hóspede. "Disse mais o sr. Giraud, dono do hotel, que Menezes se mostrata muito apreensivo por causa dos negócios que tinha a liquidar nesta cidade, e que trazia muito dinheiro consigo, cosido nos bolsos ou nas roupas que vestia. "O nosso repórter procurou ainda saber se o Menezes tinha chegado a Santos, para onde foram expedidas as malas, porém foi informado que as malas foram retiradas em Santos por pessoa desconhecida. "Surgiu, finalmente, um indício fornecido pela testemunha Indalécio Augusto de Vasconcelos, que exerceu a tempos o mister de criado, na agência do Banco Mercantil de Santos, e que confessou que na manhã de segunda-feira, 13 de outubro de 1884, tendo chegado ao prédio em que funcionava a gência do Banco, à rua Bom Jesús, e indo a latrina, notara que aí havia uma tábua que fôra arrancada, assim como o caixão que servia de assento na latrina, e que no assoalho tinha visto algumas manchas de sangue. "A mesma testemunha declarou que outras manchas de sangue foram encontradas no assoalho da varanda ou da sala de jantar do prédio, sendo mandada lavar com potassa pelo sr. Pinto, e que êste senhor lançara na latrina um par de calças de seu uso, e bem assim que, começando a sentir-se grande fétido na latrina, diferente do que é proveniente das matérias fecais, nela mandou despejar, pelo próprio criado Indalécio, dez sacas de cal. e que depois fizera entupir a latrina com os escombros de uma parede que estava próxima e que mandou derrubar, fazendo construir no lugar daquela outra de tijolos. Para acabar de entupir a latrina foi empregada grande quantidade de terra, cisco e detritos existentes no quintal e na cozinha, e , depois de cheio o buraco, foi empedrada a superfície e assoalhada depois, ficando destinado a compartimento a um quarto para criados, e abrindo novas latrinas em lugar próximo. "Guiada a polícia pelo depoimento desta testemunha, dirigiu-se ontem às 5 e meia horas da tarde à casa em que funcionava a agência do Banco, em cujas dependências se devia achar a latrina entupida; e no lugar indicado por Indalécio, mandou arrancar o assoalho de um aposento retangular, existentes no fundo do prédio, descobrindo logo o calçamento de pedra indicado pela testemunha. "Removida a terra que enchia, a uns doze palmos de profundidade mais ou menos, encontrou-se um saco que devia ter contido cal, e logo em seguida, uma camada de cal de um palmo e tanto de espessura. "Quando se tratava de tirar a cal, em um dos ângulos da excavação, bateu a enxada do trabalhador em um corpo duro, que logo se reconheceu ser um crânio humano, conforme declararam os peritos presentes, farmacêuticos Rafael Gonçalves de Sales e Joaquim Correia de Melo. "Imediatamente foram suspensos os trabalhos, ficando a exumação do restante da ossada marcada para hoje, pela manhã, na presença de testemunhas e de facultativos peritos. "Tôdas as circunstâncias leva a crer que o corpo humano que foi descoberto seja do infeliz Manuel António Vitorino de Menezes". Na manhã seguinte, foi realizada a exumação do cadáver. Às 5 horas da tarde daquele mesmo dia, com grande acompanhamento, verificou-se o enterramento da vítima. Comunicado pelo tráfego o resultado da diligência ao chefe de polícia, foi José Pinto de Almeida Júnior prêso aqui em São Paulo, logo pela manhã, quando entrava no Hotel de França. Apesar de um dos advogados de defesa, dr, Francisco Quirino dos Santos, haver apresentado razões de recurso contra a pronúncia, diretamente à Sua Majestade Imperial. s. Pedro II - exatamente quando fazia um ano da descoberta e exumação do cadáver de Vitorino de Menezes, naquele 28 de março de 1885, comparecia perante ao tribunal do juri o acusado José Pinto de Almeida Júnior. A sala estava apinhadíssima. Foi postada à porta um guarda a fim de impedir a entrada de mais gente. Presidiu os trabalhos o juiz José Joaquim Baeta neves. O réu estava vestido de prêto e um tanto pálido. Tinha a barba tôda crescida e com bastante fios grisalhos. Por volta de uma hora depois de meia-noite, terminada a leitura do processo, foi dada a palavra à promotoria pública. O advogado de defesa principiou a falar às 3 e meia horas da manhã. houve réplica e tréplica. Às 9 horas e meia da manhã, o juiz presidente dava a seguinte sentença: "Em vista da decisão do juri, condeno o réu José Pinto de Almeida Júnior a galés perpétuas, grau médio do art. 271 do Código Criminal, ficando, porém, suspensa esta sentença por ter apelado dela para a relação do distrito, por fôrça do art. 20, de 31 de janeiro de 1942, e mais condeno o réu à multa de 12 por cento do valor roubado. "O escrivão recomende o réu na prisão em que está, lance o seu nome no rol dos culpados, pagas as custas pelo mesmo. "Sala do juri de Campinas, aos 28 de março de 1886 - (a.) José Joaquim Baeta Neves - Presidente do Tribunal". Submetido a novo julgamento, viu-se outra vez condenado; desta vez, à pena de morte. Cumpridas as formalidades legais, o juiz quebrou a pena que assinara a sentença. A pena de morte foi, porém, depois comutada em galés pelo Poder Moderador. A 10 de abril de 1896, o dr. Cândido Barata Ribeiro, médico, professor da Escola de Medicina, prefeito do Distrito Federal, requereu ao Supremo Tribunal de Justiça a revisão extraordinária do processo, alegando a inocência do acusado, "que não fôra processado pela Justiça, mas pela multidão emocionada pelo acontecimento". O Tribunal indeferiu o pedido, considerando-o não previsto em lei. E assim findou o famoso caso, um dos mais empolgantes da história criminal paulista. |
|
| Copyright ©
2004, Editora Abril S.A. Todos os direitos reservados. All rights reserved. |
![]() |