50 anos de ângulos especialmente paulistanos

| Aline Sordili e Thais Cortez



German Lorca
German Lorca foi o fotógrafo oficial dos IV Centenário; 50 anos depois, volta a comentar a cidade

A vista da Faculdade de Direito não é mais a mesma. O prédio, de onde a foto foi tirada, foi demolido. É uma vista que não poderá mais ser reproduzida.” Ou outra melhor: “Nesta foto, podemos ver Getúlio Vargas e Lucas Logueira Garcês, nas comemorações do IV Centenário de São Paulo. Atrás de Getúlio está o general Rondon. É dele a frase ‘morrer se preciso for, matar nunca’. Hoje em dia, isso é diferente...”. As descrições e o autor das fotos é German Lorca, fotógrafo paulistano, nascido no Brás, especializado em enquadrar a cidade e descobrir até hoje ângulos e personagens exóticos dentro da cidade de São Paulo. E é com tais imagens que a Editora Abril presenteia seus assinantes nos 450 anos da cidade.

Quando Lorca trocou a contabilidade pela fotografia, seus pais não puderam acreditar que ele deixaria a segurança de um emprego tão promissor por uma nova paixão. Ao adotar uma profissão incomum no final da década de 40, Lorca conseguiu se tornar uma referência em fotos artísticas e publicitárias. Sua infância no proletário bairro do Brás do começo do século XX influenciou a formação de seu olhar e o ajudou a cultivar um dos maiores acervos particulares de fotos da capital paulistana. O artista foi, em 1954, o fotógrafo oficial das comemorações do IV Centenário da cidade de São Paulo. Nem mesmo naquela data, Lorca deixou de lado suas conhecidas fotos de autor, com ângulos inusitados de políticos e personalidades da época, como Getúlio Vargas, Jânio Quadros e Orlando Villas-Boas, como você pode ver abaixo.

Com quase 83 anos, Lorca se orgulha de ter registrado visuais paulistanos que o progresso destruiu ao longo dos anos. E que são, portanto, irrecuperáveis. “Há grandes vistas da cidade de São Paulo que não poderão ser refeitas de nenhum ângulo”, diz ele. “Muitos prédios de onde tirei essas fotos não existem mais”, recorda-se com orgulho e uma ponta de tristeza. Pela comunidade de fotógrafos e artistas plásticos, Lorca é reconhecido por seu olhar inquieto e sua vocação para o modernismo, interferindo em paisagens e procurando ângulos inusitados. Com os fotoclubes nos anos 40, Lorca e integrantes de sua geração, como Geraldo de Barros e Thomas Farkas, conseguiram na fotografia o reconhecimento que as artes e a literatura já haviam conseguido com a Semana de 22.

“A diferença entre Lorca e outros profissionais da sua geração é que ele se manteve fotógrafo durante toda a vida. Não é elitista, veio das camadas mais populares e isso é visto em sua obra”, afirmou Ricardo Ohtake, designer e arquiteto. “Lorca é um pioneiro na fotografia artística e um dos que fez mais registros da cidade ao longo do século 20”, afirma Eder Chiodetto, editor de fotografia do jornal Folha de S.Paulo e curador de exposições.

O caráter experimentalista de suas fotos dos anos 40 e 50 fazia parte de sua formação auto-didata, onde as experiências eram trocadas nos fotoclubes. “Não existiam escolas. Aprendíamos mesmo nesses clubes”, diz Lorca. E como estavam todos experimentando novidades, influenciados pelo modernismo e pelo concretismo, os limites visuais eram nulos. “Fazíamos fotografias modernas, que provocavam discussões. Era uma mistura de cenas do cotidiano com o impressionismo.” Para Orlando Azevedo, curador da Bienal Internacional de Fotografia de Curitiba, as imagens de Lorca atestam um impecável domínio técnico.

Gosto pelo cotidiano é a principal característica de Lorca. Somado à inquietude, é a sua marca registrada. “A sua inquietude é uma forma de vida até hoje. Ele tem uma curiosidade quase infantil, uma disposição esportista e um vislumbramento de quem está em constante processo criativo”, afirma Ohtake. “Além disso, ele tem um espírito empreendedor que poucos fotógrafos tiveram.”

Esse espírito empreendedor de Lorca se reflete no seu estúdio fotográfico. Erguido nos anos 60, com 800 m2, era - como ele mesmo diz - um elefante branco para a época. “Construí isso naquela época e ficava aqui olhando as paredes brancas infinitas. Hoje fazemos fotos com até três carros aqui dentro”, afirma, atuante também na fotografia publicitária. Atualmente, prepara algumas exposições de seu material e participará de uma mostra desenvolvida pelo Sesc com artistas paulistanos. Mas mantém a inquietude de antigamente, procurando novos ângulos e cenários diferentes na cidade em constante transformação. E, principalmente, passou seu legado para dois de seus três filhos, José Henrique Lorca, conhecido no mercado como mestre de fotografia digital, e por Frederico, que aos cinco anos foi modelo da revista do IV Centenário e hoje administra a empresa.



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