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![]() Se São Paulo é a "locomotiva do Brasil", a "cidade que mais cresce no mundo", o "maior centro industrial da América Latina", é também a portado do título de "A capital artística do Brasil". Na parte que toca à literatura, procuramos justificar nesta rápida resenha o valor dêsse título. É uma pequena história da literatura que produziu desde "Urupês" e "Martim Curerê" até o "Marco Zero", "A Túnica e os Dados" e "Paulicéia Desvairada". O que equivale a dizer que produziu, Inegàvelmente grandes obras de arte. MARIA DE LOURDES TEIXEIRA Já tive ocasião de escrever, ao tratar da literatura de São Paulo, que, não obstantes os elementos que fazem do paulista um dos melhores padrões civilizados do Brasil, particularmente dotado para as iniciativas de vanguarda desde o bandeirismo até a industrialização, desde as pesquisas científicas até a organização econômica, a verdade é que no campo literário sua atividade tem encontrado vantajosa emulação em outros Estados e, mesmo, no que se refere à ficção, tem sido superada pelo menos na quantidade. Tal fenômeno se torna ainda mais inexplicável se considerarmos que a poesia se alvoreceu em terras de Piratininga na Infância do Brasil, com os versos ingênuos de Anchieta às voltas com a catequização do gentio e dos exames de curumins. Quanto ao romance brasileiro, também nasceu de uma pena paulista, com as Aventuras de Diofanes, escritas em Portugal por Teresa Margarida da Silva e Orta, irmã do moralista Matias Aires. De suas ínclitas origens anchietanas, a poesia aqui viçou com brio, mais tarde apresentando rebentos da importância de Alexandre de Gusmão, o tradutor de Metastasio; e de José Bonifácio de Andrada e Silva, literàriamente o árcade Américo Eliseo, sonetista de apreciáveis merecimentos. É, porém, com o Romantismo que a poesia toma conta do Planalto, tendo por centro vital o casarão franciscano da Faculdade de Direito, onde desde então se revezam poetas e mais poetas de valor, integrados nas diversas escolas. Sob a influência de Byron e Shelley, sucessivamente ali se impõem poetas aqui nascidos ou vindos de outros Estados mas aqui fixados pela formação literária - Alvares de Azevedo, José Bonifácio o Moço, Fagundes Varela, Aureliano Lessa, Carlos Ferreira, Bernardo Guimarães, Paulo Eiró, Castro Alves... Indissolùvelmente ligados às tradições poéticas de Piratininga, quem aqui falará em poesia sem mencionar seus nomes? Alvares de Azevedo é um ponto alto nessa poética paulista de outrora, quando - com o seu romantismo intelectualizado de adolescente saturado de leituras - sonhava transformar o burgo pacto na "neblinas frias"de que falaria Castro Alves, em réplica provinciana da Londres byroneana onde o belo canto de Childe Harold escandalizava a aristocracia inglêsa, como o autor de Macário pretendia horrorizar as beatas de mantilha. E ainda hoje, ao reler a Lira dos Vinte Anos nos comovemos com a genialidade dêsse menino a lutar contra a modorrenta ignorância da cidadezinha de então e a se afogar em leituras desesperadas, em exercícios poéticos incessantes, ansioso por realizar-se literàriamente e viver, ao mesmo tempo, como se pressentisse a brevidade de sua existência. O romance só floresce em São Paulo com o advento do naturalismo, e isso mesmo através de dois nomes anexados à nossa literatura - Júlio Ribeiro e Inglês de Sousa; ao passo que com o parnasianismo surgiu uma afloração de poetas de valor, alguns naturais dêste Estado, outros aqui fixados, e ainda outros passando pela Faculdade de Direito e assim se ligando às suas tradições poéticas, tal qual se sucedera durante o Romantismo. O fim do século passado e o princípio dêste marcam o nascimento do regionalismo em nossa literatura, aqui surgindo com os contos de Waldomiro Silveira - Os Caboclos - com diálogos escritos num saboroso linguajar caipira, autênticamente nosso. Cornélio Pires seria depois outro cultor do gênero, com sentido folclórico, humorístico e popular. Também Amando Caiuby viria a escrever com êxito literatura regionalista. Batista Capelos, Vicente de Carvalho, Francisca Júlia da Silva, Zalina Rolim, Wenceslau de Queiroz, Ezequiel Freire, Gustavo Teixeira, Ricardo Gonçalves, Martins Fontes, Júlio Cesar da Silva, Ezequiel Ramos Júnior, Paulo Setubal, Amadeu Amaral, eis alguns dos muitos poetas uns líricos outros parnasianos, que o comêço dêste século encontrou em plena produção, êstes iniciando sua carreira, aquêles se despedindo, no sucessivo passar das gerações. Batista Capelos deixou poemas, tais como Os Bandeirantes, fortemente impregnados de paulistanos, tanto pelos temas como pela emoção. Francisca Júlia, a admirável sonetista de Mármores e Esfinges, é uma das expressões máximas do parnasianismo brasileiro, revelando qualidades másculas de cinzeladora do verso, com perfeita compreensão do espérito da escola. Gustavo Teixeira é o lírico de A Voz do Mar, parnasiano do soneto Cleópatra, que com a publicação de seu livro Ementário, chamou desde logo a atenção dos críticos. Mas, dêsse grupo de elementos de importância, em que Martins Fontes, o poeta de Verão, foi dos mais gloriosos e cultuados, avulta a personalidade de Vicente de Carvalho, com sua poesia provinda das madres da língua e, simultâneamente, bem entrosada no lirismo brasileiro e universal. Poemas como Fugindo ao Cativeiro, Pequenino Morto, Palavras ao Mar e alguns sonetos dos Poemas e Canções representam um patrimônio não apenas da nossa poesia, mas de tôda a literatura da língua portuguêsa. Mas, o grande instante das letras em São Paulo foi, sem dúvida, o período da renovação literária e artística, ou seja - os pródromos, as lutas e as vitórias do Movimento Modernista Braileiro, em consonância com as diretrizes mundiais das letras e das artes havia muito implantadas na Europa. Aí então afirmamos, também no plano intelectual, nossas virtudes raciais de pioneirismo. A batalha modernista representa um período heróico de grande espíritos imbuídos de amor às características nacionais e, ao mesmo tempo, de informação do que se fazia em arte e literatura na Europa, há muito liberta dos moldes acadêmicos, incompatíveis com a evolução do conhecimento e da técnica. Não era possível continuar com os olhos fixos no passado, quando uma realidade nova se impunha ao redor de nós. Com processos também atuais deviam ser tratados problemas e aspectos da vida brasileira. Uma geração paulista de nascimento ou, pelo menos, aqui aclimatada, foi o elemento propulsor dessa evolução literária e estética. Seus capitães: Mario de Andrade, Menotti Del Picchia, Oswald de Andrade, Guilherme de Almeida, Cassiano Ricardo, Plínio Salgado, Antônio de Alcântara Machado, Ribeiro Couto, Sérgio Milliet, Ian de Almeida Prado, René Thiollier, ligados a elementos representativos do Brasil inteiro, tais como Graça Aranha, Tristão de Ataíde, Ronald de Carvalho. E a Semana de Arte Moderna, em 1922, foi o ápice dessa revolução. Dêsse divisor da águas surgiram alguns dos mais valiosos elementos das letras paulistanas, bastando citar os desaparecidos: Mário de Andrade, poeta, ensaísta e ficcionista, criador de uma linguagem sua, que tentou revolucionar a sintaxe da língua com inovações que a aclimatavam à realidade paulista no sentido de humanização, foi um marco literário e artístico em São Paulo, tendo deixado uma obra imperecível, em que bastaria sòmente Macunaíma, para lhe garantir a posteridade; Antônio de Alcântara Machado manejou a prosa a serviço do conto e da crônica de maneira inimitável, captando outro aspecto do linguajar paulista, o pitoresco patuá dos bairros ítalo-brasileiro de nossa Capital, instrumento em que se serviu para a fixação de tipos e costumes em páginas imperecíveis, como o retrato de Gaetaninho, que um dia se tornarão clássicas em nossas letras. Monteiro Lobato, escrevendo em linguagem limpa e fluente sôbre temas do caboclo, da roça e do interior paulista, com perfeito conhecimento de nossa natureza e de nossos problemas econômicos e sociológicos, impôs-se desde logo com os contos de Urupês e com a criação de um tipo-padrão, imediatamente transformando em símbolo popularíssimo do nosso caipira, indolente e desvalido - o Jeca Tatu. Flávio de Campos deixou no romance Planalto um painel citadino da vida de São Paulo de então. Galeão Coutinho, com seus livros de sabor popular fixou costumes e tipos bem nossos. Paulo Setubal criou um gênero peculiar de romance histórico, evocando figuras e episódios do passado. Hilário Tácito, com Madame Pomery, fêz a crônica da vida noturna de nossa Capital pelas alturas do I Centenário da Independência. Hoje contamos com um bom quadro de ficcionistas, paulistas por nascimento ou adoção, em que se destacam, além de alguns já citados e provindos das lutas do Movimento Modernista, os veteranos: Amadeu de Queiroz, Afonso Schmidt, José Geraldo Vieira, Enéas Ferraz, Orígenes Lessa, João Machado, Albertino Moreira, Aristides Avila, Mario Donato, Tito Battini e outros elementos de valor de gerações mais recentes. O ensaísmo, a História e a crítica se têm revelado seara particularmente favorável ao intelectual paulista, que aí vem demosntrando especial aptidão. Contando ancestrais em Matias Aires, com suas Reflexões sôbre a vaidade dos homens; em Pedro Taques, com a Nobiliarquia Paulistana; em Frei Gaspar da Madre de Deus, com as Memórias para a História da Capitania de São Vicente; em José Bonifácio, com suas monografias científicas; no Barão Homem de Melo, com seus estudos históricos; em Rodrigo Otávio, Eduardo Prado, Alfredo Puljol, Reinaldo Porchat, Paulo Prado, Alcântara Machado, Sud Menucci e o próprio Euclídes da Cunha - que pertence um pouco ao nosso Estado pelo fato de ter aqui escrito Os Sertões, - os ensaístas e eruditos de São Paulo formam atualmente uma equipe numerosa e das mais esclarecidas do Brasil, devendo ser citado entre muitos outros de igual valor: Afonso de E. Taunay, autor de uma obra histórica que é um monumento a São Paulo desde os seus primórdios; Djalma Forjaz, Aureliano Leite, Washington Luiz, Alfredo Elis Junior, José Carlos de Macedo Soares, Plínio Barreto, Sérgio Buarque de Holanda, Carlos Alberto Nunes, Fernando Azevedo, Cândido Mota Filho, Antônio Cândido, Lourival Gomes Machado, Sérgio Milliet, Luiz Martins, Ruy Bloem, Alcântara Silveira, Miguel Reale, Caio Prado Júnior, Ruy Coelho, Herbert Baldus, Almeida Sales, Paulo Duarte, Ernani da Silva Bruno, Homero Silveira, além de outros numerosos e de igual valor. Quanto à poesia paulista comtemporânea, se teve em alguns poetas recentes e já mortos - como é o caso de Rodrigues de Abreu o lírico e elegíaco de Casa Destelhada - elementos que não devem ser esquecidos, a verdade é que pode ser classificada como um dos bons contingentes da poética brasileira. |
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