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Iniciamos hoje esta série com o intuito de mostrar ao
grande público, numa forma interessante e leve, a história dos homens que
construíram nossa cidade. Êles foram, em verdade, consciente ou inconscientemente,
os construtores de São Paulo, contribuindo cada um dêles com a sua parcela
para que a cidade nascesse e crescesse nestes quatrocentos anos. Com um
trabalho heróico de bandeirismo ou com suas ações na retaguarda, todos lutaram
e todos construíram. É bem possível, como já dissemos, que não soubessem
que estavam erguendo uma das mais importantes cidades do mundo. O certo,
porém, é que êles lançaram os seus alicerces e depois a ergueram.
JOÃO RAMALHO - Quando Martim
Afonso de Sousa aportou em São Vicente, pelas alturas de 1532, foi recebido,
com surprêsa sua, por dois patrícios que aqui já se encontravam havia longo
tempo: Antonio Rodrigues e João Ramalho. Do primeiro muito pouco se conhece.
Apenas que se casara com uma filha de Piquerobi, o cacique de São Miguel
de Ururai, com quem teve muitos filhos. Quanto ao segundo, a fama era das
piores. "Judeu degredado para uns; simples náufrago casual para outros;
precursor de Colombo na América, segundo frei Gaspar da Madre de Deus; filho
da casa real, dí-lo Pedro Taques; uma e única pessoa como bacharel de Cananéia,
na opinião de Cândido Mendes; boçal e rude analfabeto para uns; personagem,
pelo menos, iniciado nos rudimentos da Cabala, para Horácio de Carvalho",
João Ramalho foi uma autêntica figura de novela. Deixara crescer a barba
descuidada. Vivendo no mato, no meio da indiada, pouco ligava à indumentária.
Era truculento, despótico, dominado pelos modos desabridos. Em conseqüência,
não havia quem não o temesse. Um dia, andejando sempre, galgou a Paranapiacaba,
e veio bater nas margens de Guapituba, onde conheceu o cacique Tibiriçá,
com quem fèz boa amizade. O aventureiro apreciou o lugar. Resolveu ficar.
Aquilo por ali estava cheio de "índias passivas e ofertantes, que andavam
nuas e não sabiam se negar a ninguém". Uma, porém, no meio de tantas, mexeu-lhe
com o coração. Chamava-se Bartira. Além de bonita, Bartira sendo filha do
cacique Tibiriçá, era um bom partido. João Ramalho não vacilou. Abandonou
as demais e ficou com ela. Tornou-a a predileta. O chefe da tribo gostou.
Ter um branco como genro era uma incomensurável honraria para a família...
O núcleo de Santo André, assim chamado em memória do padroeiro da vila,
foi atraindo outros forasteiros. A seleção não poderia ser das maiores.
Apareceu gente de tòda a espécie: bons e maus, èstes em maior número do
que aquèles.
TIBIRIÇÁ - Êste cacique indígena,
chefe da nação Guaianaz, e um dos chefes das tribos aliadas de São Paulo,
prestou inúmero e relevantes serviços à colonização paulista. À sua boa
índole, energia e ao seu esforçado concurso, deveu Martim Afonso de Sousa
uma boa parte do progresso da capitania de S. Vicente. Era irmão de Arari,
chefe dos Tupis e Carijós, que, naquele memorável dia 10 de junho de 1562,
atacaram a vila de São Paulo, sendo derrotados, graças aos esforços dos
jesuítas e de Tibiriçá. Amigo dedicado de Martim Afonso, tomou o cacique
o seu nome ao ser batizado, quando convertido pelas prédicas de Anchieta
e Leonardo Nunes. Faleceu a 25 de dezembro de 1562, com avançada idade,
vítima de prolongada enfermidade. Aquêle dia de natal foi de tristeza para
os índios. O cacique, desde cedinho, estava passando muito mal. O padre
Anchieta, a seu lado, empenhava-se em suavizar-lhe os últimos momentos.
Havia muito tempo vinha èle sofrendo de camaras de sangue. E com a avançada
idade que atravessava, aquilo mais lhe torturava os derradeiros estertores...
A indiada, cá fora, não se conformava, e chorava. Chorava aos gritos angustiados.
E pela aldeia rolava um lamento surdo e inquietante. Os tambores lá longe,
ecoavam. Logo mais, a nova melancólica caiu como um raio: Tibiriçá morrera!
O Martim Afonso deixara de existir. Piratininga inteira vibrou: os índios
e os padres, À tardinha, realizou-se o sepultamento com tôda a pompa. Compareceu
todo o mundo. João Ramalho e sua mulher Bartira, batizada com o nome de
Isabel, seus numerosos filhos, seus netos, todos os seus descendentes, os
jesuítas, os indígenas chorando... Seu corpo foi levado para o colégio de
São Paulo e ali sepultado. Hoje jaz na cripta da Catedral de São Paulo,
ali no largo da Sé.
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João
Ramalho e um de seus filhos, neto do chefe Tibiriçá.

O cacique
Tibiriçá junto de um de seus numerosos netos.
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