O industrial paulista que
não quis ser rei


TITO LÍVIO FERREIRA


SÃO PAULO DE PIRATININGA, esta imperial cidade de Manuel da Nóbrega, nasceu, sob o signo do trabalho, dentro de uma escola. E' preciso não perder de vista que o Jesuita Primaz do Brasil funda, no alto da Colina do Inhapuambucú, em 1554, uma escola industrial onde os curumis aprendem a soletrar as primeiras letras e manejar instrumentos rústicos de um ofício. Desenvolvem-se, paralelamente, os trabalhos de catequese, Cuidam os mestres dos exercícios morais, espirituais e manuais, ao mesmo tempo. E quando, em 1560, Padre Manuel da Nóbrega consegue, com o auxílio de João Ramalho e anuência de Mende Sá, a mudança da Câmara Municipal de Santo André da Borba do Campo e dos andréenses para junto do Páteo do Colégio, a Brasilíndia do Planalto, a povoação indígena ali surgida em 1553, é elevada a vila de São Paulo, para ser o prolongamento administrativo, social e econômico da vila ramalhense.

Opera-se, então, o crescimento do núcleo jesuítico formado pelos piratininguaras. Plantam-se pomares. Ao redor da cidade medieval se alastram vinhedos, marmeleiros, macieira, figueira e romanzeiras. Algodoais alvejam por entre as fôlhas verdes. Multiplicam-se os engenhos de açúcar nas terras canavieiras. As colheitas de trigo, milho e feijão são abundantes. Fabrica-se marmelada em larga escala. Aumentam os rebanhos com a criação de gado, de cavalos e de ovelhas. E a lavoura, a indústria e o comércio se ampliam em sentido paralelo.

A economia rural e a economia urbana evoluem; os bens passam imediatamente do produtor ao consumidor dentro do antiplano. Transforma-se, desde logo, em economia continental, com as mercadorias a entrar no período da circulação de bens, enviadas a mercado longínqüos, onde são consumidas. Assim, o fabrico da marmelada surge em primeiro lugar na vila de Piratininga. Vèm logo a seguir a do trigo e dos chapéus de feltro. E êste foi o primeiro artigo manufaturado pela indústria paulistana, para os mercados do Rio de Janeiro e do Rio da Prata.

Afonso Sardinha, em fins do século XVI, era o creso de seu tempo. Comerciante, criador, capitalista e industrial, mineirava no Jaraguá, onde tinha suas propriedades. Fabricante e exportador de marmelada, chega a remeter para o exterior cem caixotes numa só partida. Grandes remessas de farinha e açúcar descem para Santos nos cargueiros das tropas. Regressam do mar com sal em grande quantidade. De Buenos Aires recebem lãs, peles, rendas, papel, medicamento e facas fabricadas na Alemanha. Havia muitos prédios em São Paulo e Santos. E emprestava dinheiro a juros a pessoas daqui, de Santos, São Vicente e Rio de Janeiro.

Por volta de 1583 já a Câmara Municipal de São Paulo organiza as corporações de ofícios, segundo os costumes medievais vigentes na Europa até fins do século XVIII. Surgem os juizes dos sapateiros, dos alfaiates, dos barbeiros, dos tecelões, dos ferreiros e dos carpinteiros, com seus respectivos estandartes.

No século seguinte, o maior industrial dêsse tempo é Amador Bueno. Além de extensa propriedade agrícola, possui moinho de trigo e fábricas de chapéus de feltro. Durante quase dois séculos seriam fabricados no planalto. E èsse produto desapareceria com a diminuição dos rebanhos de ovelhas.

Assim, grande proprietário de terras. de moinho de trigo e primeiro fabricante de chapéus na vila de São Paulo, Amador Bueno desempenha papel importante na vida política e social de seu tempo. Exerce honrosos cargos na república. Grande é o seu prestígio, sua influência pessoal entre os conterrâneos. Seu nome aparece entre os mais importantes de sua época. E daí está ligado à História do Brasil pelo episódio característico de sua aclamação popular para rei de São Paulo.

Aravam suas terras milhares de brasilíndios descidos até èle para as suas lavouras, onde criava grandes rebanhos de gado, de ovelhas e de cavalos. Servia, com liberalidade, à semelhança dos homens de São Paulo seus contemporâneos, os governadores do Brasil, quando lhes pediam, em ocasiões de guerra, grandes fornecimentos de feijão, carne de porco e farinha de trigo, sem nada cobrar por êsses auxílios. E com armas e escravos próprios, e à sua custa, defendeu a vila de Santos de ataques de inimigos e invasores.

Com tôdas essas qualidades, não é de estranhar tenha sido êle personagem principal do caso político mais importante do século XVII. Representa êle uma época e uma sociedade, quando Portugal sacode o jugo espanhol, após sessenta anos de domínio, ao restaurar a Monarquia Portuguèsa. A notícia leva quatro meses para chegar o planalto. Os elementos espanhóis havia aumentado consideràvelmente na vila de São Paulo. A maioria da população era composta de castelhanos emigrados aos poucos do Paraguai. De lá vieram os três irmãos Rendons, D. Francisco de Lemos e seus dois filhos, D. Baltazar e D. Hierònimo de Lemos; D. Gabriel Ponde de Leon, de Ciudad Real de Guairá; Bartolomeu Torales, com vários filhos de Vila Rica do Espírito Santos; D. André Zuniga e seu irmão D. Bartolomeu Contreras y Torales; D. João de Espínila Gusman e muitos outros da mesma procedència. Por isso, o acontecimento de 1º de janeiro de 1640 em Lisboa repercuto, de maneira, diametralmente oposta, em 1º de abril de 1641, em São Paulo de Piratininga. À beira do Tejo os portuguêses aclamam rei de São Paulo. Com o soberano da Casa de Bragança restituiu-se a independência política ao reino: com o rei paulista improvisado, tenta-se formar o reino de São Paulo. Portugal se arma, se fortifica e se defende contra a Espanha. Quem arma, quem defende, que, fortifica São Paulo contra os estrangeiros? E que exército salvaguardaria o rei e um reino de uma fácil incorporação do novo Estado aos domínios da América Espanhola?

Teria Amador Bueno refletido nesses contrastes, quando, surpreendido foi em sua casa pelo vozerio dos espanhóis diante de sua casa, aclamando-o. Antônio, sem temer o perigo, enfrenta os sediciosos. Desembainha a espada e grita, com fôrça e energia: "Real, real, por D. João IV, rei de Portugal". Em face dessa atitude inesperada, os rebelados ameaçam-no de morte, enquanto as sombras da noite começam a envolver os flancos dos casarios e a estender-se pelas ruas, largos e ladeiras. Para salvar-lhe a vida em perigo, acorrem portuguêses, seus amigos. Garantem-lhe a retirada estratégica e acompanham-no ao mosteiro de São Bento, onde os beneditinos dão-lhe guarida e agasalho. Os mais exaltados querem arrombar a porta do convento. Os que o havia aclamado rei, querem agora tirar-lhe a vida. Surgem então as altas autoridades religiosas à porta do asilo onde se refugiara Amador Bueno para não ser morto e conseguem serenar os turbulentos. E os amotinados voltam, dentro da noite em lua, para suas moradias.

Português de São Paulo, como fora todos os paulistas e brasileiros até 7 de setembro de 1822, Amador Bueno revela-se fiel vassalo da coroa portuguêsa. Essa lealdade portuguêsa foi reconhecida e exaltada pelas autoridades lusitanas. E D. Pedro I relembra êsse episódio, quando se desvanece de ter proclamado a independència do Brasil.

Assim, o industrial paulista e primeiro fabricante de chapéus na terra de Piratininga, Amador Bueno, não quis ser rei de São Paulo, consciente de sua atitude. Recusa com bom senso, altivez e serenidade, a coroa oferecida em condições precárias. E' realista na ação e pensamento. Prefere servir o rei de sua escolha, para dignificar o seu gesto. Continua a fabricar chapéus de feltro para cobrir cabeças de vassalos como èle. E na sua cabeça não se ajustaria nem se equilibraria direito uma coroa sem tradição, sem autoridade e sem realeza.








Antonio Ermírio de Moraes