Oberdan Cattani
| Origens do futebol paulista |

JÚLIA BANDEIRA

Conhecido como o "goleiro de mãos gigantes", Oberdan Cattani foi um dos mais brilhantes jogadores da história do futebol. Prova disso é que o palmeirense receberá do antigo clube uma espécie de troféu. A homenagem reproduzirá suas gigantes mãos segurando uma bola com a frase: "Estas mãos simbolizam a grandeza de espírito e a segurança demonstrada pelo 'Goleiro do Século', na defesa de nossa equipe em uma época que jamais será esquecida".

Antes de jogar no Palmeiras, Oberdan morava em Sorocaba, interior de São Paulo. Era caminhoneiro quando vinha a São Paulo e parava para olhar os treinos do clube. Ao prestar atenção no goleiro da equipe, dizia brincando a um amigo: "Ainda vou roubar o lugar deste sujeito". Já goleiro, Oberdan jogava nos campos de Sorocaba quando recebeu um convite para fazer teste no Corinthians. A família --toda palmeirense-- não deixou. Se optasse por jogar bola, que fosse no Palestra Itália. E isso não demorou muito.

Em 1940, fez um teste no segundo quadro time. Logo depois de uma derrota do Palestra para a Portuguesa, por 3 a 1, Oberdan foi chamado para treinar. Isso foi ajudado pela péssima performance do titular Giggio. Sua estréia no time principal foi num jogo contra o Santos, na Vila Belmiro, em 1941. O Palestra ganhou de 4 a 2. Também defendeu a Seleção Paulista e chegou a Seleção Brasileira em 1944, no amistoso em que o Brasil derrotou o Uruguai por 6 a 1, no Rio de Janeiro. Poderia ter disputado as Copas de 42 e 46, mas com a II Guerra Mundial os campeonatos foram cancelados. Oberdan jogou 14 anos pelo Palmeiras e ajudou o clube a conquistar cinco títulos paulistas. Aos 35 anos foi jogar no Juventus, onde se aposentou um ano depois. Hoje, está de volta como conselheiro do seu time de coração.


Qual é a diferença entre o futebol de hoje e o futebol da década de 50?
Eu não sou saudosista não, mas quem viu o futebol da nossa época... Eu tive uma felicidade, joguei contra a Argentina. Tinha que tomar chá de erva-cidreira por uma semana pra acalmar os nervos: os argentinos eram jogadores extraordinários. O nível do futebol argentino hoje está muito baixo, como o nosso também. Daqui (do Palmeiras), escapam quatro ou cinco jogadores, os outros são jogadores de nível regular. Temos jogadores no Santos que valem a pena ver: o Robinho, o Diego. Mas eu acho que o futebol nosso era muito mais bonito que hoje, havia conjunto, trabalho com a bola. O Echavarrieta era um centroavante que chutava com as duas pernas. Jogava na ponta direita, na ponta esquerda e como centroavante. Chutava barbaridades com as duas pernas. Não sabia cabecear nem driblar, mas os meia lançavam a bola. Antigamente você tinha pontas de lança como Beto, Ademir de Menezes, o Pinga. A especialidade do Jair Rosa Pinto era lançar os jogadores para fazer gol. Hoje você não vê nada, só tem dois atacantes na linha.

Por que o sr. saiu do Palmeiras tão cedo?
Eu tive proposta de ir embora pro estrangeiro, mas a gente não mudava de clube. Agora, se eu soubesse o que ia acontecer comigo dentro do Palmeiras... Eu peguei um presidente incompetente, o Paschoal Giuliano que já foi pro outro lado. Ele viajou comigo pro Chile e quando eu tive a proposta do Colo Colo, ele falou "não, Oberdan é filho da casa e não vai sair dela". Fomos pro México, e foi a mesma coisa. Eu esperava encerrar a carreira dentro do Palmeiras. E o que eu ganhei com isso? Quando acabou meu contrato, eu ganhava 10 contos por mês. O presidente reduziu, dando 5 contos. Depois me chamou e me deu passe livre. Foi quando fui pro Juventus. E foi um ano feliz pra mim. Um ano no Juventus e eu sou sócio vitalício, sócio benemérito, jogando só um ano lá. Coisa que não aconteceu no Palmeiras em 63 anos.

Quais foram as suas partidas memoráveis no Pacaembu?
Eu vou citar uma, justamente contra o Corinthians, em 1943. Nós ganhamos esse jogo por 2 a 0. O que eu fiz aquela tarde lá.... Os chutes do Servílio... O Servílio era um jogador extraordinário que chutava barbaridade. Eu peguei dois chutes dele da pequena área, bola rasteira, que é difícil de pegar. O pessoal diz que minha especialidade era nas bolas altas. Não. As maiores defesas que eu fiz foram nas bolas rasteiras, nesse jogo contra o Corinthians. Eu defendi essas duas bolas, e o Lima, que nunca tinha feito gol contra o Corinthians fez 2 nessa tarde. No primeiro turno, 2 a 0, e no segundo turno ganhamos também, por 3 a 1 do Corinthians. Eram 20 jogos, 10 partidas no primeiro turno e 10 no segundo. Antigamente a rivalidade era maior com o São Paulo. Isso mudou muito agora, mais por causa das torcidas. Na minha época, torcedor do Palmeiras não podia ouvir falar no São Paulo, era o mesmo que falar no diabo. Foi o São Paulo que fez a maior força pra mudar o nome de Palestra para Palmeiras. O Corinthians sempre se deu bem com o Palmeiras. A rivalidade hoje é contra tudo, antigamente não tinha nada disso. Os torcedores do Palmeiras e do Corinthians sentavam juntos. A gente jogava e procurava defender o clube, mas nunca entrávamos com maldade no jogador. Quando um jogador caía a gente ajudava a levantar. Mesmo com o São Paulo que era inimigo da gente. Dentro do campo ninguém entrava com maldade em ninguém.

Marcos ou Oberdan?
O Marcos (atual goleiro do Palmeiras e da seleção brasileira) está bem. Cada goleiro tem sua fase. Eu só lamento que os goleiros hoje parecem ter medo de sair do gol. O Dida quando sai, sai em falso. Parecem que tem medo. Não é convencimento, mas a pequena área era minha. Eu peguei bola dos maiores cabeceadores do futebol. O Baltazar, do Corinthians, era fantástico, chamado de "cabecinha de ouro", mas eu não dava chance. O Marcos é bom goleiro, mas a saída de gol dele é muito difícil. Ele, o goleiro do São Paulo (Rogério Ceni), do Vasco (Helton), do Flamengo (Júlio César) estão jogando bem. O Brasil está bem servido de goleiros.

E o Palmeiras na segunda divisão?
Foi muito difícil. Na minha época não aconteceria isso. Contrataram muitos jogadores e depois dispensaram. O próprio Luxemburgo dispensou muitos (Wanderley Luxemburgo, técnico do Palmeiras entre 1993 e 1995; em 1996 e em 2002). E eles fizeram falta. Estamos com um time modesto, mas foi um time que lutou. Eles estão de parabéns. Não pelo treinador (Jair Picerni), pois eu o acho muito arrogante. Eu conheci grandes treinadores.



O estádio do Pacaembu
Palmeiras x Corintians: a grande rivalidade paulistana
Entrevista: Oberdan Cattani
Futebol Paulista em 2004