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CORRIA o ano de 1894, quando, desembarcando de um navio inglês veio, por volta da Inglaterra, um jovem de vinte anos chamado Charles Miller, filho de uma abastada família inglèsa residente numa grande chácara que existia na rua Monsenhor Andrade e que fòra à cidade de Southampton, um punhado de anos antes, a fim de cursar o colégio local. Êste mocinho agora voltava à terra onde nascera, junto aos seus pais, e numa das malas trazia duas bolas de futebol e alguns outros apetrechos do esporte que já era popularíssimo na Inglaterra e que também havia invadido o continente europeu, como também outros países da América do Sul. Em São Paulo existia um clube organizado para a prática do cricket, outro esporte de grande aceitação entre os inglèses. Era o São Paulo Athletic, fundado em 1888 por membros da colònia inglèsa, Charles Miller, logicamente, entrou para èste clube e tratou de reunir companheiros para a prática do futebol. Êle havia sido, no clube de Southampton, um dos melhores jogadores amadores. Naturalmente, a princípio, encontrou muitas dificuldades. Mas, como em São Paulo, já havia a Companhia do Gás e a São Paulo Railway, com muitos empregados inglèses, pòde Charles Miller ter èxito em sua iniciativa, embora o futebol, a princípio não tivesse organização e maior desenvolvimento. Sem dúvida, porém, a semente foi lançada com sucesso, São Paulo já estava dominado pelo futebol. Foi no ano seguinte, em 1895, que, após muitos treinos e bate-bolas animados por Charles Miller e seus companheiros, pòde-se organizar uma primeira partida, disputada na várzea do Gazòmetro. Novas tentativas, naturalmente, foram feitas com o decorrer dos meses, até que o futebol atingiu o Mackenzie College, interessou também alguns imigrantes alemães, entre êles Hans Nobling, que havia sido jogador na sua pátria. Êste, começou a divulgar a idéia da fundação dos clubes e de disputas de partidas mais amiúde. A fundação da Associação Athlética Mackenzie College, que se processou em 1898 e a conjugação dos elementos reunidos em tòrno de Hans Nobling e mais com a ajuda do São Paulo Athletic, foi possível em 1899 a se lançar uma base firme para o crescimento e o progresso do futebol em nossa cidade, Assim é que, após muitas partidas avulsas daquele ano, Hans Nobling e outros pioneiros, fundaram primeiro o S.C. Internacional, e quinze dias depois o S.C. Germània. Aliás, conseqüência de uma divergência nascida quando da escolha do nome do primeiro. Em 1900, pode-se dizer, nasceu a verdadeira organização do futebol paulistano quando chegou, de volta de seus estudos na Suíça, o jovem Antònio Casimiro da Costa, que trouxe idéias das mais esclarecidas acèrca do que aprendera na Europa. Começou a lutar èle para que se constituisse uma Liga dos clubes já existentes, e que se organizasse um campeonato, Tudo isso foi possível, porém, no ano seguinte, assumindo a chefia dessa organização, por ser justamente o clube de maior progresso interno e social, o Internacional, no qual ingressara Casimiro da Costa, Neste mesmo ano a fundação do Clube Atlético Paulistano aumentou para 5 o número de clubes praticantes do futebol, com a transformação do Velódromo da Rua da Consolação no estádio de "association", fêz com que novo e grande impulso tomasse a vida esportiva de São Paulo. Em 1901, antes mesmo da fundação da primeira liga paulista de futebol, paulistas e cariocas já estreitavam laços de amizade, combinando duas partidas que se realizaram em outubro, em nossa capital, no antigo campo de São Paulo Athletic, que com a chácara Dunley, no Bom Retiro, foram o berço das partidas de futebol no Brasil. O grande acontecimento da fundação da Liga Paulista de futebol, deu-se em dezembro, sendo o seu primeiro presidente Casimiro da Costa e êle mesmo ofereceu a 1ª taça, que tomou o seu nome, para ser disputada no 1º campeonato paulista que se deveria disputar, como de fato aconteceu, em 1902, entre os cinco já citados clubes, realizando-se as principais partidas no Velódromo e as demais no Parque Antártica, onde tivemos a partida inaugural no dia 3 de maio de 1902, entre Mackenzie 2 e Germânia 1. Foi o marco inicial do campeonato bandeirante. Bonita disputa que teve o condão mágico de atrair a alta sociedade de São Paulo que passou a fazer do futebol a sua diversão predileta domingueira. Era de ver como as arquibancadas do Velódromo se abarrotavam de senhoras e senhoritas da elite para gritar pelos seus campeões favoritos. Em 1899, na primeira partida que foi possível se contar os assistentes não passaram de 60 pessoas. Agora já no Velódromo, já se contava alguns milhares... Os dois clubes que começaram a dominar abertamente o certame, como aconteceu nos próximos anos, foram o S.P. Athletic, constituído quase só de rapazes inglêses capitaneados por Miller e o Paulistano, constituídos quase todos por jovens brasileiros. Os outros quadros foram o Internacional, o Mackenzie e o Germânia, êste desde 1903 começou a fazer furor com o maior futebolista que tivemos nos primeiros tempos em São Paulo: Hermann Freze, vindo da Alemanha, possuidor de uma técnica excepcional e cheio de recursos que assombravam as partidas nas quais êle era sempre o principal protagonista. Em 1903 e 1904 o S.P. Athletic tornou-se tri-campeão paulista, tendo neste lapso de tempo, ganhado evidência a Associação Atlética das Palmeiras, que passou a ser incluída na 1ª div. e o Internacional - o outro - fundado em Santos. Em 1905, o Paulistano quebrou a hegemonia do S.P., clube êste seu maior rival e que nos anos anteriores vencera várias vêzes sem nunca ter a felicidade de lhe arrancar o título. Já agora se intensificavam extraordinàriamente as partidas entre paulistas e cariocas, com jogos lá e aqui, e houve o caso inédito, que permanece até hoje, do Fluminense vir a esta capital para enfrentar, um após outro, todos os clubes paulistas! O desenvolvimento do futebol em São Paulo foi aumentando cada vez mais, foram surgindo clubes, sendo às centenas nos bairros, foram surgindo novos campos, o público passou a se interessar mais, até que, lá para 1913 e 14 a democratização do futebol tornou-se uma realidade, porque estava mesmo fadado a ser o esporte do povo. Nessa época surgiu a APEA, surgiram as grandes partidas entre as seleções do Rio e de São Paulo, depois veio a fase áurea do futebol paulista amador, que tanto contribuiu para o Brasil se tornar, pela primeira vez, em 1919 campeão sul-americano. Rubens Sales, primeiro e Arthur Fridenreich, depois, tornaram-se os ídolos máximos daquela geração, que aliás produziu campeões extraordinários tais como Lagreca, Otávio Egídio, Hugo de Morais, Orlando, Sérgio, Hamilcar, formiga, Neco, Heitor, Bianco, Arnaldo, Milon, Mario Andrada, e tantos outros. Memorável entre todos os fatos esportivos, no vintènio até 1925, foi a excursão do Paulistano à Europa. O futebol dominava abertamente São Paulo inteiro e Palestra Itália, Paulistano e Corintians formavam o trio de ferro dividindo entre si quase tôda a população futebolística de São Paulo de 1920. Mais tarde, devido ao extraordinário progresso do esporte-rei e do avanço, cada vez mais crescente do profissionalismo no estrangeiro, tornou-se inevitável a criação do profissional no Brasil. Abriu-se, então, uma nova era de association entre nós. Faltava, porém, para atingir grande altura, um estádio capaz de satisfazer as exigências do futebol espetacular paulista. E eis que veio êsse grande acontecimento quando em abril de 1940 foi aberto ao público o Estádio Municipal do Pacaembú. Foi esta a chamada época de ouro do Pacaembú, que revolucionou totalmente a vida do futebol de São Paulo crescendo em interêsse justamente como crescia a metrópole em todos os seus setores de atividade humana. E eis o que é o nosso futebol atual: uma grande fôrça, não só esportiva, como social da cidade que mais cresce no mundo, com a sua enorme torcida, com a sua grande fôrça de tradição e com esta grande organização que é a Federação Paulista de Futebol, possuidora do maior edifício social de uma entidade futebolística no mundo inteiro. Quando os "Cracks" dos clubes eram acadêmicos e doutorandos O Futebol foi o coqueluche da mocidade estudiosa de São Paulo, no início do século. Aliás, o esporte bretão, como era chamado, quase que se limitava aos estudantes e êsses sendo, naquele tempo, quase todos filhos de famílias abastadas, tornaram seu esporte favorito uma verdadeira diversão domingueira da alta sociedade paulistana. Não se compreendia então um acadêmico de direito sem ser integrante de um dos clubes já existentes. A classe dominava abertamente no "Paulistano", "Palmeiras", Mackenzie"e "Internacional". Até 1915, aliás, a "Associação Atlética das Palmeiras", foi constituída por doutorandos, engenheiros e futuros advogados. Muitos rapazes, grandes craques do início do século, foram e são homens públicos, cientistas, diplomatas, jurisconsultos e engenheiros famosos. O "Mackenzie" era limitado exclusivamente aos alunos do Colégio. Para melhor se ter idéia de como o futebol arrebatava a mocidade estudiosa daquela saudosa época, basta ser lembrado o caso do "'S. C. São Paulo da Bahia", formado exclusivamente por estudantes paulistas. De fato, em 1903-1904 ainda não tínhamos em São Paulo Escola de Medicina. Os estudantes tinham que ir cursar a Escola de Medicina de Salvador. Lá os rapazes paulistas, todos residindo numa "república", resolveram fundar o São Paulo F. C., para disputar o campeonato Bahiano. Quem eram os futuros médicos, futebolistas do "S. C. São Paulo, da Bahia"? Eram eles, entre outros, Enjolras Vampré, Ovídio Pires de Campos, Edmundo de Carvalho, Alceu Peixoto Gomide, Clodomiro Vieira da Silva, Antonio Netto, Cristiano Carlos de Souza, Sebastião Toledo Barros, Zeferino do Amaral. Astolfo Margarido da Silva, Celestino Bourroul, Oscar José Alves, Bento Pereira da Silva Júnior, Cândido de Camargo Serra, José Tepaldi e Randolfo Margarido. Como vemos, todos nomes ilustres da nossa classe médica. Êles faziam do futebol o seu esporte predileto. Pode-se imaginar na vida de São Paulo provinciano, de 50 anos atrás, o que era essa afeição esportiva por um trecho de uma das cartas de Monteiro Lobato, então acadêmico de direito, a Godofredo Ramgel, escrita a 11-7-1904 e publicada nas "Obras Completas de Monteiro Lobato" reunidas pela Editora Brasileira Limitada. Eis o trecho da carta: "...E cá estou de novo em São Paulo, mas ainda atribulado. Mudei-me para um quarto de frente na rua Araújo 26, com um lampião de rua bem junto à minha janela. Tenho luz de graça. E defronte há uma vizinha janeleira que já piscou. Em vez de namorá-la, meti-me no futebol - "Palmeiras". Joguei vários dias seguidos e fiquei mais derreado que com as léguas do sertão. Estou cheio de pisaduras e dodóis. Isto deve ser o que na "Vida Intensa" o Th. Roosevelt quer. O futebol empolgou-me de alma e corpo; escrevo crônicas de futebol e jogo. Diz o Tito que é mania - e diz-lhe o Raul: "Jacques, tu es un âne". Seja como fôr, asseguro-te que o futebol apaixona e contunde". Os Macedos Soares, Prado, Silveira, Mesquita, Sales, Egydio, Mendes Gonçalves, etc. eram nomes que figuravam obrigatòriamente nas equipes dos melhores clubes de São Paulo nos primeiros tempos, todos jovens pertencentes a famílias tradicionais e que mais tarde, quando homens, predominaram ou ainda predominam na política, na medicina, na jurisprudência, na diplomacia, etc. |
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